Viajar, travel, voyager... com uma casa de rodas por essas estradas fora... AC, Campingcar, motorhome: por Portugal, Europa, Mundo. Relatos e imagens de como viajar com a casa às costas.E também palavras sobre coisas que gosto...
Passou o Carnaval e pouco escrevi, já passou a Páscoa e nem uma linha; primeiro tenho ainda de dedicar-me às últimas recordações das férias de Verão de 2010.
Ao atravessar França, vindos da Ligúria e após o Mónaco, várias possibilidades se oferecem. Naquele dia de Agosto, em Provence, apeteceu-nos Arles . Hoje, dela (Provence) apenas guardo para vos oferecer a tonalidade que romântica e nostalgicamente vamos colocando nos nossos móveis da cozinha...
Bem, Arles, para quem desconhece, é uma das cidadezinhas apetecida por um célebre pintor, Van Gogh. Infelizmente, foi a caminho de Arles que nos sucedeu a 2ª desgraça das férias ( a 1ª já foi relatada em espaço imperial alemão). A 30 km da cidadezinha azul-violeta, a Casinha resolveu pregar-nos a partida de ficar sem mudança, a quinta, o que nos fez, a partir daí, fazer toda a viagem de regresso em quarta, sem ultrapassarmos os 100 km/hora. Uma experiência inédita e inolvidável.
Ultrapassado este parêntesis pouco simpático, entremos em Arles. Uma cidade “sympas” a sério, com as cores da Provence nas suas venezianas e portadas e até no colorido do ambiente. Ponto de paragem dos romanos, Arles (Arelate do império romano)ainda ergue com orgulho o seu Teatro e arena romanos, o seu Forum, um obelisco (não do Obélix!)e certamente mais vestígios escondidos, debaixo da calçada, como a nossa Liberalitas Julia (Ébora). No centro da vila, o “hospício” onde Van Gogh esteve internado, está agora transformado num espaço comercial, com o seu jardim florido e alilasado de alfazema. Falta aqui o cheiro, mas com um esforço, tal como as imagens imaginadas e recordadas, ainda se sente.
Ao longo das ruas, muitos turistas e animação de rua por artistas-saltimbancos, alegrando o espaço com música alegre e divertida.
A área AC fica ao lado do canal e da muralha, a estadia é grátis e tem um largo terreiro onde se joga a tradicional petanca. “Em Roma sê romano”, portanto nós fomo-lo com as bolas pesadas. O canal (que se liga ao Mediterrâneo) é o ponto de embarque de múltiplos cruzeiros, plenos de turistas vindos da Ásia , das Américas, por aí fora...
Não admira que o expressionista dos girassois por lá se encantasse. Nós também, só que sem tela e sem câmara para reter imagens.
É o que dá querer a costa fina: mais de 2 horas para percorrer 40 km só porque todos se lembram de entupir uma marginal que dá para a praia!
Sacudindo esta pequena poeira matinal, lá conseguimos despedir-nos de França e lançar o canto do olho ao Mónaco, no alto do Monte Bastilha ( a 427m acima do nível do mar), em plena Rivieira francesa, mais precisamente na pequena aldeia medieval de Eze, um dos desafios de “ Imagens de Bordo” (imagem 3 ).
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A vila forma um desenho circular, assente na base do seu castelo; as ruas estreitas e de pedra
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algumas inclinadas , conduzem até ao seu Jardim Exótico, um espaço com uma vista panorâmica espectacular e uma colecção avantajada de cactos e estátuas “gregas” com ar sonhador.
Ao subir uma das ruas, um retrato de Bono ilustrava uma qualquer técnica de ilusão óptica (fixa-se um ponto vermelho da imagem durante 30 segundos, fecham-se os olhos e surge-nos na mente escura o desenho contemplado) , o que me fez interrogar por que razão Bono andaria por ali, ao lado do Papa e de outros santos.
Cá está o Bono.
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No Jardim obtive a resposta, pois fiquei a saber que Eze tem sido um destino muito procurado por gente famosa, Bono incluído. Ao que parece,até um filme de Hitchcock foi rodado nas proximidades.
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Também o famoso (!?) príncipe Carlos da Suécia se desfez de amores pela romântica vila, tendo habitado o castelo que agora alberga um hotel Vip, no qual se podem admirar carros e jogos como estes:
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Antes de subir às ruas estreitas, logo à entrada, há um parque de estacionamento exclusivo para autocarros. O melhor mesmo é subir encosta acima para o lado oposto da vila, até a um parque de estacionamento servido de navette (5€ , incluindo uma entrada gratuita para o Jardim Exótico).
A navette
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Após o passeio romântico lá nos decidimos a entrar no estreito país com a configuração de bota, que logo de início é marcado pela travessia às dezenas de túneis escavados nas montanhas.
Revisitar Finale Ligure (em 2003 havia sido a nossa primeira incursão na Ligúria, com direito a mergulho e tudo, no mar mediterrâneo apetitoso) era o objectivo.
Desta vez não mergulhámos, apesar de a área para AC sugerir a ilusão de entrarmos mar adentro... estacionámos (N- 44º 9´55. 728 E 8º 20´14. 892´´ - 15 €!!! ) e fomos rever Finale.
Zona de AC , em Finale Ligure (Itália)
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Logo de chofre a arquitectura muda, nada que se assemelhasse à pequena Eze, afinal ali tão perto. Aqui são os trompe d’ oil que mais encantam, apesar da cidade estar um pouco a precisar de se abrilhantar para novos bailes. Mesmo assim percorreu-me na espinha um arrepio que dizia “Esta é a bela Italia!”
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Dentro de Finale Ligure vive ainda uma antiga povoação intra-muros, Finale Borgo, publicitada como “ Il borghi pìu belli d’ Italia”. É de facto bela, apesar de também muito degradada. É como se outra cidade respirasse mais pausadamente dentro da cidade. Lembro-me que da primeira vez (há oito anos), a sensação foi mais forte , como se estivesse a entrar num cenário e não na realidade. À segunda tudo toma menores proporções, mas mesmo assim a rua principal, com um cortinado vertical de verde ao fundo, continua a injectar-me a mesma sensação singular:
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Uma fatia de pizza ou um gelado na pequena praça é tudo quanto basta para se pensar que vale a pena estar neste mundo.
A Estrada abrasava , desde as 9.00 horas que o longo deserto espanhol parecia não terminar. Estabelecemos como meta o país vizinho, sem saber ainda muito bem onde parar , embora nos Pirinéus Orientais franceses , qualquer sítio à beira mar fosse um manancial de boas possibilidades para refrescar, relaxar, terminar o dia. Não temos por hábito parar à noite, a meio da tarde já chega de estrada, há que fazer render um pouco o dia e conhecer algo novo e prazenteiro. Consultei o Guia das “Escapades em campingcar”, o mapa, e apontei para o início de França. A estrada consumia-nos. O guia das áreas de serviço referia, por exemplo, Coillure. Desconhecendo o nome , aprofundei no guia de França. Surpresa agradável: Coillure seria uma pequena localidade, amada por muitos pintores , nomeadamente Matisse. Não era preciso mais nada, estava decidido, Coillure seria.
Em boa hora a escolhemos. Pousámos imediatamente na área para AC (basta seguir a tabuleta com o ícone de “autocaravanas”, 10€ por dia), simpaticamente servida de navette (gratuita) para a vila e airosamente colocada num alto de onde se espreitava a paisagem de telhados de vivendas a escorrer até ao mar. Num ápice já lá estávamos.
É claro que Matisse , assim como outros que por lá fizeram as delícias dos seus pincéis e tintas (Georges Braques, Picasso...) não eram parvos, Coillure encanta pelas cores e formas, é um apelo forte para a tela. E quem diz tela , diz câmara fotográfica...
A praia e Notre Dame des Anges
Cidade turística , animada sem estar sobrelotada (acolhe também grupos de teatro de rua e espectáculos à noite), o mar azul bem mediterrânico (21º), a baíazinha pacífica com os seus barquinhos e iates...
O forte altaneiro a olhar para a baía, a igreja de Notre-Dame-des-Anges...
O forte
Comercialmente, as lojas de artesanato com bom gosto e as inúmeras galerias de pintura são ainda outro regalo...para além da pintura ao vivo.
Depois há ainda o simpático e sui generis roteiro pictórico, que consiste num conjunto de molduras espalhadas pela vila, enquadrando estas o cenário pictórico original dos artistas, sendo Matisse, claro, um deles.
Matisse, claro!
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Subir até à área AC é fácil, basta esperar pela navette (que passa aos 10 minutos) e já lá estamos no nosso “bairro” bem arranjadinho e acolhedor. Aconselho!
A Estrada abrasava , desde as 9.00 horas que o longo deserto espanhol parecia não terminar. Estabelecemos como meta o país vizinho, sem saber ainda muito bem onde parar , embora nos Pirinéus Orientais franceses , qualquer sítio à beira mar fosse um manancial de boas possibilidades para refrescar, relaxar, terminar o dia. Não temos por hábito parar à noite, a meio da tarde já chega de estrada, há que fazer render um pouco o dia e conhecer algo novo e prazenteiro. Consultei o Guia das “Escapades em campingcar”, o mapa, e apontei para o início de França. A estrada consumia-nos. O guia das áreas de serviço referia, por exemplo, Coillure. Desconhecendo o nome , aprofundei no guia de França. Surpresa agradável: Coillure seria uma pequena localidade, amada por muitos pintores , nomeadamente Matisse. Não era preciso mais nada, estava decidido, Coillure seria.
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Em boa hora a escolhemos. Pousámos imediatamente na área para AC (basta seguir a tabuleta com o ícone de “autocaravanas”, 10€ por dia), simpaticamente servida de navette (gratuita) para a vila e airosamente colocada num alto de onde se espreitava a paisagem de telhados de vivendas a escorrer até ao mar. Num ápice já lá estávamos.
É claro que Matisse , assim como outros que por lá fizeram as delícias dos seus pincéis e tintas (Georges Braques, Picasso...) não eram parvos, Coillure encanta pelas cores e formas, é um apelo forte para a tela. E quem diz tela , diz câmara fotográfica...
A praia e Notre Dame des Anges
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Cidade turística , animada sem estar sobrelotada (acolhe também grupos de teatro de rua e espectáculos à noite), o mar azul bem mediterrânico (21º), a baíazinha pacífica com os seus barquinhos e iates...
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O forte altaneiro a olhar para a baía, a igreja de Notre-Dame-des-Anges...
O forte
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Comercialmente, as lojas de artesanato com bom gosto e as inúmeras galerias de pintura são ainda outro regalo...para além da pintura ao vivo.
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Depois há ainda o simpático e sui generis roteiro pictórico, que consiste num conjunto de molduras espalhadas pela vila, enquadrando estas o cenário pictórico original dos artistas, sendo Matisse, claro, um deles.
Matisse, claro!
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Subir até à área AC é fácil, basta esperar pela navette (que passa aos 10 minutos) e já lá estamos no nosso “bairro” bem arranjadinho e acolhedor. Aconselho!
As conversas são como as cerejas, umas levam às outras e falar de França de há uns anos atrás, levou-me a outra cereja ainda mais recuada no tempo. No tempo em que ainda nem sonhávamos com casinhas andantes, as férias eram muitas vezes passadas num iglo de 2/3 lugares, transportado por um Opel Corsa. A cozinha, essa, era uma caixa de papelão com algumas iguarias, um fogão “camping gás” de uma boca e loiça q.b. para os viajantes envolvidos.
Foi assim em 1997. Dois adultos e uma criança de 5 anos decidiram conhecer La France, munidos do dito voiture e de uma casa de pano.
O prato forte era percorrer o Loire e alguns castelos, dar um salto a Paris e Eurodisney e depois um pouco de Normandia e Bretanha.
Logo no segundo dia pisávamos a fronteira francesa, ficando deslumbrados com o Pays basque. Não fora as filas dos veraneantes e os campings esgotados, e a estreia teria sido cinco estrelas. Logo nessa noite, depois da dificuldade de encontrar lugar num camping, o céu abriu-se numa forte trovoada que nos fez pensar que os raios e a chuva nos transformariam em Noé sem barco.
No dia seguinte, o sol brilhava e a casa de pano foi dobrada molhada para que percebêssemos para todo o sempre o romantismo da vida de pé descalço.
Antes de entrarmos no país dos castelos, decidimo-nos por Poitiers, e, mais uma vez, o céu pregou-nos a partida da véspera, o que nos fez procurar um Hotel. A cidade abarrotava de gente, e foi no Turismo que negociámos um quarto de Hotel , logo ali junto ao Hotel de Ville, 311 francos para dois e meio.
A cidade revelou-se simpática e acolhedora, com alguns pontos de interesse artísticos: Notre-Dame-la-Grande (só de nome…) e os seus vitrais, o Baptistere Saint-Jean, o Palais de Justice.
Poitiers, Notre-Dame-la-Grande (?!!!)
Depois entrámos no reino dos castelos ao longo do Loire.
Loches - onde ficámos naquele camping familiar que durante anos nos enviou um cartão de Boas Festas ( o tal que voltámos a repetir o ano passado). Como não podíamos ver todos os castelos, limitámo-nos a passear pela vila saboreando as vistas exteriores, o que não foi mau, porque assim, o ano passado, tivemos a oportunidade de visitar o interior do castelo. Aproveitámos dois dias em Loches de sol e tempo ameno, cozinhando bifes de cócoras e sopa de pacote para mimar o “petit” fã de sopas. A piscina da Câmara, mesmo ao lado do camping e de acesso gratuito, foi outra alternativa de sucesso, deu também para perceber como os franceses, até em pequenas localidades, têm condições que suplantam o cantinho pouco desenvolvido onde nascemos…
A seguir a Loches elegemos dois dos grandes castelos que merecem parar e entrar: Chenonceau e Chambord. O primeiro assenta por cima das águas do largo rio, deixando-o passar por entre as suas arcadas de espelho. Nesse dia chovia e tivemos de puxar das capas amarelas, o que nos fez agradecer a quem no-las tinha sugerido, pois Agosto em França não é o mesmo que o Agosto alentejano…
(Chenonceau)
Contrariamente a Chenonceau, Chambord aterra, altivamente, sobre uma farta coberta verde e lá dentro as suas escadarias em caracol e as grandes salas, muitas delas vazias, ecoam de passado e mistérios.
(Chambord)
Ao longo das estradas outros castelos espreitavam, uns privados, outros com grandes portões de bicos dourados, outros ainda ao longo das florestas cerradas. Muitas vezes até para entrar no parque da floresta há que puxar dos cordões à bolsa e pagar “le billet”, o que implica saber resistir a tanta beleza e comercialização.
Fora dos campos verdejantes e das florestas, percorremos ainda outras pequenas / grandes cidades, como Blois (com um camping completamente primitivo de sujidade) e Chartres, onde parámos propositadamente para admirar a grande “floresta do gótico”.
Blois, Hotel de Ville
Chartres, Notre-Dame
Em Paris outras aventuras nos esperavam: íamos dormir num apartamento de uns alentejanos emigrantes que não conhecíamos pessoalmente. O apartamento da concierge (a alentejana em questão) ficava em pleno coração da capital, mesmo ali a roçar o Arco do Triunfo e no prédio, imagine-se, da companhia de aviação de Antoine St. Exupéry!
Chegámos em bom dia: o casal era contemplado com o seu segundo rebento, o Brian, que tivemos o prazer de conhecer uns dias depois, regressado da maternidade.
Fizemos, pois, o papel de concierge, recebendo o correio matinal, ficando a sós num T0 minimalista.
No mês de Agosto os carros não pagam estacionamento e assim deixámos o Corsa em frente à porta e partimos a pé e de metro à descoberta de Paris:
Jardins das Tulherias, Louvre, Notre-Dame, Orsay, Invalides, e o imprescindível passeio de bateau-mouge ao final do dia. Ainda Centre Georges Pompidou e as performances de alto valor artístico durante todo o dia. E, claro, Place du Tertre para umas lições de pintura e um mergulho no século do Impressionismo.
Os pombos de Notre-Dame, Paris
Animação em Charles Pompidou
Louvre
Tertre e os artistas impressionistas
Pont des Invalides
Depois a ida até à Eurodisney, num dia esgotante de emoções mesmo, mesmo até ao seu fecho. Durante o espectáculo nocturno o jovem de 5 anos apagou-se por completo e por mais que o chamássemos e lhe abríssemos literalmente as pálpebras, o véu era só negro e certamente estrelado de sonhos. Nem o céu estrelado do fogo de artifício foi capaz de o abanar dos braços de Morfeu.
Depois de termos conhecido o recém-nascido em terras francesas, lá partimos rumo Norte até Rouen, não sem uma paragem obrigatória em Giverny para conhecermos outro reino encantado: os jardins japoneses de Monet e a sua casa-museu. Quanto mim o grande momento mágico da viagem e por isso decidimos logo ali abrilhantá-lo ainda mais, dormindo numa pequena casa de turismo rural verdadeiramente romântica (24, rue du Moulin, Fourges) . O pequeno-almoço matinal servido no pequeno jardim colorido, ficou registado no top das memórias.
A casinha onde dormimos
Casa de Monet
Jardins japoneses
Até Rouen, alguns pontos de interesse: Vernon e abadia Fontaine-Guérard.
Rouen
O sol voltou a brilhar por aquelas bandas e, de caminho até Mont St. Michel, presenteámo-nos com um camping de piscina para refrescar corpos e almas. Ao fim da tarde a aparição do Monte produziu um embate de cortar a respiração. Na realidade, essa sensação repete-se sempre em qualquer altura do dia, o monumento a St. Michel existe mesmo para nos deixar deslumbrados e boquiabertos.
Saint-Malo é outro ponto para maravilhar: o seu ar marítimo, piscatório, a língua azul aqui e o outro mundo lá longe encantam…
Completamente diferente, por ser mais elemento Terra, Dinan não lhe fica atrás. São outras cores, mais flores e menos azul, mais Bretanha e outra tradição, outros costumes e afinal é ali tão perto.
Por ali nos ficámos, conscientes que tínhamos de lá voltar. Fizemo-lo mais de 10 anos depois e valeu a pena.