sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Parte I “Vem-nos à memória” uma mão cheia de Alemanha e de França, à beira Mosel e Reno, com Luxemburgo, Suíça e Espanha à mistura (Verão 2006)





Férias de verão 2006 




Há dias assim - como hoje - cinzentos, chuvosos, sonolentos, deprimentes, nostálgicos. Por esta ordem. Para não sucumbirmos ao cinzento da depressão, “vem-nos à memória” uma outra vontade. A vontade de partir, sem horas marcadas, compromissos, obrigações; a vontade de ir à procura do sol, do Verão, das férias… E, chegados a este porto, “vem-nos à memória” uma das melhores viagens para onde já rolámos.
Um mês, desde o Alentejo, atravessando Espanha num pulo, percorrendo França (passando ainda pelo Luxemburgo) até ao Mosel (Alemanha), andando para a outra margem, ora França ora Alemanha, saltitando pela Suíça e escorrendo devagar novamente por Espanha, à beira-mar.
Foram ainda aquelas férias repartidas entre AC e tenda, repartidas também entre AC e carro, porque vividas entre duas famílias: a da “vivenda” (a AC, claro!) e a do iglo montado aqui e ali, servindo a primeira como ponto de abrigo, sala de convívio e de refeições.
Os nossos amigos iam reviver e revisitar outros momentos das suas vidas, em Toulouse. Tinham pressa de chegar, iam ficar uns dias em casa de um francês, velho amigo de outras aventuras. Nós, com menos pressa, parámos a primeira noite em Hendaye, pernoitando numa rotunda calma e sagrada, logo ali, ao lado da Église de St. Anne. No dia seguinte, encontrar-nos-iamos em Toulouse. A estadia seria de três dias.
Toulouse é uma grande cidade, banhada pelo rio Garonne, movimentada, sem dar sinais de ser segura para quem quer descansar em AC. Desconhecendo certezas, optámos pelo seguro e optámos pelo Camping – Le Rupé, longe do centro e com poucos transportes públicos, mas com amigos de carro, aproveitámos a boleia!!!
É bom passear a pé por Toulouse: a praça do Capitole, ponto de encontro entre as duas famílias, a Place Joanne d’Arc, a Pont Neuf (por partida do destino, a mais velha da cidade), o Museu de Arte Contemporânea.




Também é bom, à noite, especialmente como aquelas de finais de Julho, dançar ou ver dançar o tango numa pequena praça simpática, ou ainda, sermos conduzidos pelas águas do Garonne num bateau-mouche. Para finalizar o dia, uma cerveja e demi-bannane no Café des Artistes.




Não menos relaxante e instrutivo é ver os barcos ao longo dos canais e as suas manobras, no Canal Lateral, por exemplo.








Ao 4º dia, eles ainda ficaram e nós partimos rumo a Rocamadour. Em França, quando o S.Pedro quer, também faz calor. Era o caso naquele dia. Em boa hora, porque assim, sem estar nos planos, conhecemos St. Cirque Lalique, onde tomámos banho numa praia fluvial cheia de turistas, franceses e AC. Por 7€ estaciona-se ao lado da praia, pernoita-se e é-se tratado com todas as condições (que não precisas muitas…) que uma AC precisa. E ainda se pode “acampar”, porque em países como França (e uns dias depois vimos que na Alemanha também), em locais como aquele, não é pecado abrir o toldo e jantar cá fora, à luz das velas, “montando” mesa e cadeiras por cima da relva!


A vila fica a 2 Kms. Calcorrear as suas pequenas ruas, medievais e coloridas, é um bom motivo para nos sentirmos inspirados e nos sentirmos… de férias.




Pelo caminho, serpenteando o rio, há mais vilas com ar simpático e engraçado.


Rocamadour, que visitámos no dia seguinte, é mais turística, e, por isso mesmo, mais exploradora da bolsa. A vila, de pedra, fica num topo, altaneira, a olhar sobranceira quem sobe até às suas ruas estreitas. Pode ir-se perfeitamente a pé, mas a ilusão de que é tudo a subir, fez-nos ser explorados numa viagem no Petit-Train. A peregrinação nas suas ruas continua desde a Idade Média. O túmulo do seu Santo padroeiro continua a ser chamariz. Ao que consta Rocamadour é o segundo centro turístico a seguir ao Mont-St.-Michel.




















Depois da peregrinação, restava-nos continuar viagem. Graças aos telemóveis, novo encontro se marcou e os nossos amigos esperavam-nos, mais à frente. Durante aqueles dias, foi assim muitas vezes. Nestes primeiros dias em que se atravessou França, os quilómetros percorridos eram muitos, para só pararmos perto da noite, para jantar e dormir, às vezes um breve passeio. Em Santenay, por exemplo, ou em Pont- à-Mousson. Neste último com um Port de Plaisance onde as AC pernoitam por 6€ com direito a duche num balneário ao lado.
Entre um e outro ponto, parámos mais demoradamente em Beaune, uma vila simpática, da qual registámos (“vem-nos à memória”…) o telhado mais colorido da zona, chapéu do Hotel Dieu.
Ao terceiro dia pisávamos solo luxemburguês. Não foi difícil estacionar a AC num parque largo, a céu aberto. Quando se tem pouco tempo (ou mesmo com ele), não é nada má ideia pagar por uma visita guiada da cidade, a partir do Office de Tourisme, na Place des Armes. A nossa guia, Madame Dénise, deu-nos uma boa lição sobre a cidade e o pequeno país.
Luxemburgo foi durante muito tempo uma cidade fortificada, daí o nome da Praça donde partimos com Madame Dénise. Não admira, os luxemburgueses passaram pelo domínio dos celtas, romanos, francos, espanhóis e depois os vizinhos que o disputaram: França, Bélgica, Alemanha e Áustria.
O memorial é dedicado aos mortos da 1ª Grande Guerra.







As casemates são um exemplo do estilo de defesa, muito idêntico a Gibraltar, daí a cidade de Luxemburgo ser conhecida pela “Gibraltar do Norte”.
Os nativos chegam a dominar quatro línguas, desde a pré-escola, passam pelo luxemburguês, alemão, francês e depois inglês. É um país orgulhoso da sua nacionalidade, considerando o português emigrante como emigrante, apesar de, um em cinco habitantes ser português.
A família do grão-duque encontrava-se em férias, como o comprovava a bandeira.







Dali partimos para a Alemanha, mesmo ali ao lado. Logo à partida considerámo-los bons anfitriões: a família do iglo teve de dormir num hotel graças à chuva e os donos deixaram-nos pernoitar no parque de estacionamento do hotel.


 



A primeira visita na Alemanha seria Trier (Treves) a 10 Km do local onde estávamos, cidade que só é alemã desde 1945, antes disso andou, qual ió-ió, nas mãos destes e dos franceses. Partimos da Porta Nigra, fortaleza e monumento romano, de arcadas e pedras sobrepostas sem cimento. Lá dentro, o edifício é oco, assim, se o inimigo entrasse pela primeira porta, ficaria encurralado e seria recebido por um banho de pedregulhos.




A praça principal (Hauptmarkt), para quem, como eu, era a primeira vez que pisava este lado da civilização europeia, é de provocar queixos caídos. As cores, sobretudo os dourados; a beleza decorativa da fonte; a arquitectura; o burburinho humano; as flores, os frutos e o vinho nas bancas do mercado, tudo é um festim para os sentidos.
Depois a Dom (catedral), o gótico, o barroco, o deslumbre do seu interior…
Os vestígios romanos são também consideráveis: as termas, o anfiteatro, e a Basílica de Constantino.
Trier é ainda a cidade natal de Karl Marx, oferecendo-nos a possibilidade de visitar a sua “Casa-Museu”.
“Em Roma, sê romano”, daí que, almoçar salsichas (bratwurst/wurst) começou desde logo a ser a nossa ementa eleita.


A partir de Trier começava o ponto alto da nossa visita, percorrendo a estrada por onde serpenteia o Mosel. O fio fluvial é ladeado por pequenas vilas, umas vezes do lado esquerdo, outras do lado direito, que têm como ponto menos belo alguns telhados de igreja, os quais, na minha imaginação cinematográfica, lembram capacetes de soldados alemães, de eras menos boas. Fora isso, que ainda assim não passa de uma comparação pictórica, dali até Koblenz (onde o Reno se cruza com o Mosel), está-se no paraíso.
Só para citar aquelas vilas que visitámos e com as quais enchemos a vista: Neumagen, Losnich, Bernkastel-Kves (a que mais 
gostámos), Cochem, Kobern, Eltzburg…




(Cochem)


Bernkastel






Não bastava o idílio dos sentidos, ainda teríamos a surpresa de conhecer o paraíso para as AC. É que quase em todos estes lugares, há um parque próprio para AC, com todas as condições necessárias e ainda uma paisagem de luxo.
Ficámos num deles em Losnich, frente ao rio, com w.c. para sanita química, água e luz (5€ noite+1,50€ luz).








A zona do Mosel é ainda rica em castelos e solares medievais, muito distintos, por exemplo, dos franceses. Parte das nossas economias foram-se em bilhetes familiares porque não resistíamos ao apelo: em Cochem, por exemplo, ou o mais espectacular de todos - Burg Eltz, um castelo isolado, no interior de uma floresta, por uma descida a pique entre o denso e misterioso arvoredo.


 





Mosel foi também tempo de conhecermos o camping tradicional alemão. De modo a estarmos perto dos nossos campistas de tenda, e como já era tempo de lavagens, o camping Moselbogen foi o eleito, já que ficava perto de Koblenz. 








Esta cidade era um dos pontos de interesse uma vez que albergava um Festival de Mimo, fantástico!!! E o povo alemão, apesar de não ser mediterrânico, é de uma grande alegria. O festival terminava num recinto ao ar livre, com comida e bebida e um écran gigante. Nota-se que sabem viver, ou se calhar rendem-se bem aos prazeres mais mundanos, como comer e beber (grandes canecadas de cerveja, pois!




A partir de Koblenz, com o Reno ao lado, as vilas e a paisagem deixa de ser tão cativante e única, é mais um rio largo e navegável (com os seus grandes navios é certo), mas menos fantástico que o Mosel. O mesmo sucede com a paisagem das vilas. Paragens em Boppard, St. Goar Bingen. Os castelos, esses, proliferam: Burg Rheinfels, por exemplo.




A passagem no Reno foi rápida, avistava-se nova meta já em território francês: Strasbourg.







Talvez por ser Agosto e a cidade não se encontrar sobrelotada, conseguimos estacionamento no centro – parking do Palais Universitaire (onde outras AC já estavam). O parking era grátis e pernoitámos lá.
Seria o ambiente, a cor do céu, o pouco movimento mesclado com serenidade, sossego e segurança, ou mais ingredientes ainda, o que é facto é que senti que podia morar em Strasbourg.
O centro é mais um conto de fadas (sobretudo La Petite France, óbvio). Assistia-se, na Catedral, a um show de luz e som soberbo.









A noite na praça foi sossegada e o rio (não sei porquê os rios produzem-me esse efeito, deve ser porque me falta um na minha terra…) inspirava.




(La Petite Venice)








A modernidade conjuga-se com o antigo, numa nota consonante; o metro à superfície é prova disso.





A cidade foi também tempo para nos rendermos à gastronomia francesa, no caso a leve tarte flambée, numa brasserie tradicional.









Era tempo de penetrar na Alsácia, mais um dos pontos fortes que nos tinha feito sair de casa, em Julho, e já estávamos em Agosto. ..
Obernai, ainda por cima com uma grande festa na praça central, com gente animada, música ao vivo, comes e bebes, folclore tradicional, ficará como destino de referência. As janelas e portas ainda festejavam a passagem da Volta ao Mundo em Bicicleta.




 







Para montar estadia, os nossos amigos, repetentes neste percurso alsaciano, foram bisar em Villé, um camping rural com piscina e montanhas esverdeadas, no seio da Alsácia, a meio caminho dos melhores pontos de interesse. Dormimos lá uma noite fria (11graus à noite), debaixo de uma chuvada que nos fez atascar e necessitar , no dia da saída, da ajuda de todos os franceses em redor e de um “quatre-quatre” a rebocar-nos.

Ir até à Alsácia implica necessariamente fazer uma peregrinação pela Route des Villes. O problema é que, seguindo roteiros, sites, fotos de outros viajantes, ainda antes de as vermos, já sabemos que dificilmente haverá uma menos bonita ou interessante que outra. São todas terrivelmente fotogénicas, como se rivalizassem num concurso de misses.
Não há outro remédio a não ser deixar algumas de fora, quiçá, para outra viagem. Não ficaram de fora desta “pena” e lente as seguintes:

Bergheim, berço de um homem chamado Lach’mi, personagem que gozava os adversários e mostrava o traseiro aos seus perseguidores . Isto no séc. XIV-XV. Uma vila tosca e colorida.


Ribeauvillé – mesmo debaixo de chuva com muita gente (turistas) fotografando as suas ruas, lojas, janelas…
Riquewihr, de longe a mais concorrida (até com outros portugueses turistas) e provavelmente a mais esbelta.



















Kaysersberg, afinal ainda mais bonita que a anterior, “ville fleurie”, com um pequeno rio e pequenas pontes, um castelo em ruínas, completamente rodeada de vinhas. E foi ao lado das vinhas que dormimos.




Tal com na Alemanha, os alsacianos tratam bem os autocaravanistas criando pequenos/grandes parkings que sabem receber (por 4€, com w.c. e água, referenciados em sites e em qualquer livro de camping para AC).
Foi a conselho de uma autocaravanista francês, num site que sempre apreciei http://pagesperso-orange.fr/bernard.tartois/
que entrámos em Eguisheim.






As suas palavras destacavam-na como a sua preferida. Também a ela nos rendemos. A vila assenta num plano circular, que nos faz percorrê-la partindo e indo de encontro ao mesmo ponto. É um relógio parado no tempo, onde tudo é de outro tempo…

Colmar, de maiores dimensões é também um espaço procurado… na sua catedral registo as questões teológicas levantadas por um filho inocente (ou herege, segundo alguns: “ Deus é tipo, um presidente?” , “ Por é que não se diz “em nome da mãe”?). À parte os apartes aos quais não resisti, Colmar impõe-se.




(Bergheim) 





Também as actividades culturais nas redondezas, como o Corse Fleuri em Selestat. A festa da Natureza comemora-se ali, como aqui se comemora o Carnaval. Aqui, uma imitação do Brasil com nudistas envergonhados e congelados, lá um desfile de carros com aquilo que a natureza lhes dá: flores de todas as espécies, cores e feitios.








Já estava nos planos de ambas as famílias, desde o Inverno em que tínhamos sonhado e planeado a viagem, dar um salto à Floresta Negra, já ali ao lado. Mas o tempo não nos sorriu. Em plena Europa, se o Alentejo ardia de febre com o calor, já ali, na Alemanha, o tempo era chuvoso, friorento. De Inverno. Houve quem de nós tivesse de comprar uma parka acolchoada!
A Floresta Negra estava condenada a esse adjectivo. Para termos uma ideia do seu fulgor e beleza, fizemos a visita-praxe dos turistas – a quinta e o museu 















rural, Ecomuseu Vogtsbauernhof.
Foi uma visita da qual retirámos muitas informações, prazer e… até tivemos direito a transportar connosco uma carraça alojada numa perna, entre pêlos e carne. Permitiu-nos conhecer o sistema de saúde alemão, num hospital público, em Waldkinch (para eventualidades semelhantes, nada como levar connosco o Cartão Internacional de Saúde)..





(Waldkinch, local de pernoita







Depois de uma injecção e carraça removida, estávamos prontos para novo passeio: Freiburg. Aproveitámos por fazer algumas compras, nomeadamente roupa mais quente ( o clima atraiçoou-nos e o Inverno parecia ter chegado). Com Inverno ou sem ele, decidimos aproveitar a água, não somente da chuva, mas a água armazenada num parque aquático (piscinas interiores, claro), em Weilam Rheim.


E porque a Floresta Negra não se abria ao sol, partimos rumo à Suíça, mais concretamente à nossa Basileia, deles Basel. Uma cidade cosmopolita, mas interessante. Aconselha-se um passeio de eléctrico.











Para além de Basel, ainda conhecemos Neuchatel (no cantão francês), onde pernoitámos perto de um cinema ao ar livre e vimos gratuitamente, graças ao brasileiro da bilheteira, excertos de Poseidon. Paragens breves em Vaumareus e Yverdon-les- Bains.
Genebra foi a última visita. O melhor guarda-se para o fim, diz-se. E a Gèneve suíça, pela sua luz e movimento, vale esta e outras visitas. E os chocolates, também.












Foi o fim da pequena excursão na terra dos relógios, canivetes e chocolates e foi também, praticamente, o fim das férias entre a família sobre rodas e a família de iglos ensopados. Em Vienne (já em França) separámo-nos, eles com destino a Portugal o mais rápido que conseguissem, nós, nas calmas, ainda por França e depois Espanha.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Recordando outros carnavais

O tempo passa a voar e, se ontem foi a passagem de ano, daqui a nada está aí o Carnaval. (Lembro-me ainda, quando era adolescente, que uns dias a seguir ao Ano Novo, a garotada começava a rebentar bombinhas de Carnaval, quase cosendo as duas datas festivas…).

Provavelmente para fazer justiça a esses tempos, ocorre-me agora a viagemdecasaascostas de 2008, em épocas de Entrudo. O pretexto era mesmo viajar; a temática a tradição das máscaras, das carantonhas, dos mascarados, dos caretos.

Desta vez o Carnaval comemorou-se cedo (dia 3 de Fevereiro era domingo Gordo), pelo que o Inverno ainda se fazia sentir e bem! O frio acompanhou-nos sempre e, infelizmente, a chuva.
No sábado, preguiçámos na viagem e, se o destino era Podence, talvez com pernoita em Foz Côa, optámos por parar mais cedo, por volta das 17.30, em Freixo de Numão, naquele que é um local já consagrado a AC. Lá estava uma francesa e nós. Água e local de despejo. Dedicámo-nos, com o frio, à vidinha caseira: copas, “olho do K”, leituras…

No dia seguinte, a chuva instalou-se de vez , mas mesmo com ela as visitas ao Vale “rupestre” do Foz Côa estavam esgotadas até dia 5. Felizmente que as lojas dos chineses não conhecem feriados sejam eles gordos ou magros, já que o esquecimento dos chapéus-de-chuva nos levou a Marcos de Canaveses à procura dos ditos cujos.
Dali a Podence a excitação era grande porque a vontade de ver a chocalhada era muita.

“Os Caretos representam imagens diabólicas e misteriosas que todos os anos desde épocas que se perdem no tempo saem à rua nas festividades carnavalescas de Podence – Macedo de Cavaleiros.
Interrompendo os longos silêncios de cada Inverno, como que saindo secretos e imprevisíveis dos recantos de Podence, surgem silvando os Caretos e seus frenéticos chocalhos bem cruzados nas franjas coloridas de grossas mantas."

O programa das festas (previamente consultado na net), dizia-nos que o desfile seria por volta das 15h, creio. Até lá, havia tempo, qual Óbelixes, para um belo almoço de leitão assado no, certamente, melhor (e creio que único) restaurante da terra. Mas se o gaulês comemora no fim da festa, a nossa comemoração foi antes e não nos deu muita sorte. A partir dali a chuva foi basicamente o som que se fez ouvir. O desfile dos Caretos que, segundo a tradição, se despede do Inverno e saúda a Primavera, não pôde mostrar-se nem renovar as estações.
Graças à chuva, os trajes coloridos, feitos de colchas franjadas de lã ou linho, não se atreveram a soltar-se ruas fora, ensopando-se em mantas pesadas e impossibilitando a correria e a energia máscula dos homens que as vestem. Se os chocalhos à cintura têm como finalidade assinalar os dias do calor que se aproximam, era óbvio que o tempo lhes cortava as voltas. Mesmo assim, soava aqui e ali um chocalho mais afoito que nos fez correr até à tenda gigante montada para a exposição da Festa. Lá dentro, aquecedores gigantes e muita animação: gaiteiros da nuestra hermana España e os tão esperados acabaram por dar caras, ou melhor, dar às ancas em cima do mulherio que ria de prazer e dor. Bem esperámos que o sol os aplaudisse e aparecessem, mas acabei a levar com os chocalhos mesmo ali, debaixo de chuva e frio.

A esperança extinguiu-se e a noite foi passada em Bragança, debaixo de frio, num local pacato e simpático: frente à antiga gare de comboios. Apesar das expectativas furadas, na Casinha reinou a boa disposição, à excepção de algumas reticências do mais jovem que não olhou com bons olhos a energia e as carantonhas dos caretos.
Afinal há sempre locais a conhecer cá dentro, Bragança era um dos que nos faltava. A manhã de segunda foi passada ao longo do seu centro histórico.

Para rimar com a temática da viagem, aprofundámos os nossos conhecimentos sobre as máscaras e trajes de Carnaval tradicionais, no Museu Ibérico da Máscara, simpático e acolhedor.
Incrível como a tradição se repete por essas aldeias espanholas.Quem sabe um bom roteiro para outros carnavais…







À tarde, visita rápida a Murça para ver de perto a sua porca.





Final de dia em Vila Real para um banho de sétima arte: o último com Johnny Deep – Swenney Todd, um musical fabuloso mas tenebroso.
Pernoita mesmo ali perto do shopping Dolce Vita, ao lado de uma zona residencial, com algum barulho de música de noite, mas sofrível.
Terça-feira de Entrudo e desta vez a chuva não ia estragar a festa. Era a nossa secreta (e bem apregoada) esperança, já que o plano era seguir de perto outras andanças carnavalescas de ar livre. Às 11.30, com medo de perdermos o lugar, já estávamos às portas de Lazarim , uma aldeia ao longo de estrada magra com pouco espaço para AC. Coubémos.
Na padaria (a única da aldeia) fazia-se fila para o pão e bola de carne. Foi o nosso almoço, apesar de a tenda gigante no centro da aldeia, nos acenar com um belo cardápio regional. Das 14.00 às 19.00 vimos desfilar um grupo singular de máscaras e de trajes, numa manifestação de alegria invulgar e insólita. Contrariamente a Podence, aqui a mulher também participa e, pelo que vimos, concorrendo em força.









(abertura do desfile pelos padrinhos)












De trapos velhos, de palha e outros constituintes da mãe-Natureza, a criatividade e o engenho mostra que não é preciso seda e riquezas para criar o belo e colorido. Para além do desfile toda a manifestação é original: a abertura do desfile pela madrinha e padrinho lida de um balcão, a leitura dos testamentos, com a sua linguagem pícara e picante visando alvos conhecidos da aldeia (e a corarem ali ao nosso lado), o concurso das máscaras e a queima dos bonecos de palha. Ao que parece os testamentos são redigidos ao longo do ano, logo a seguir ao dia de Entrudo. Os deste ano certamente já estarão destinados e redigidos, provavelmente não às escondidas, em velhos barracões e palheiros, mas quem sabe, na troca de e-mails e sms já que muitos dos jovens participantes estudam na cidade e vão à “terra” pela altura das festas.


(leitura dos testamentos)










(queima do boneco)

O epílogo da festa é de barriga cheia, já que se oferece a todos (aldeãos e forasteiros) um caldo de farinha e feijoada ali mesmo cozinhados, em panelas de ferro, ali, no centro da praça e ao vivo. O calor das brasas, do vinho e da alegria acompanharam-nos até Viseu, onde cortámos o banho pagão com um Ásterix na tela da sétima arte, in Fórum Viseu. Pernoita no antigo Rossio, quase ao lado do Viriato e de duas carrinhas itinerantes.

(preparação da feijoada)

Já de regresso, a nostalgia do passado acenava e não resistimos ao apelo da voz coimbrã, mas à beira-rio já não há lugar para AC. Aliás, a senhora do parque de estacionamento esclareceu-nos que toda aquela zona não é aconselhável a pernoitas, dado que o amigo do alheio por ali já actuou algumas vezes com estrangeiros e portugueses. A ideia era só almoçar, mas registámos, com pena. Afinal em Coimbra tem de se pernoitar no Camping? Não há outros locais exteriores possíveis?
Era o fim das curtas férias, não havia tempo para indagar… se alguém souber de algo interessante naquela que é uma das nossas cidades eleitas, que diga.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Carnaval de 2003, na Serra da Estrela




Não que tenhamos lá ido agora, recentemente… mas o frio inspirou-me a ir buscar imagens do passado, não muito longínquo é certo, mas quando olho para a evolução das crianças parece que foi há tanto tempo…
Afinal foi só ali, em 2003, na Serra da Estrela, por volta do Carnaval, sentado nas páginas do início de Março.
A curta estadia permitiu-nos apenas a visita a alguns pontos, apesar de o objectivo chave ser a neve.
Para “hotel” ficámo-nos pelo “SkiParque”, com pista de alcatifa branca e camping .
É claro que um de nós experimentou as malfadadas lições de sky, para concluir que o seu futuro estava mais ligado à água.

Fora esse pequeno percalço, meramente pontual, um capítulo da história familiar completamente encerrado, ficou na memória a paisagem circundante e o fazer-de-conta que a neve da pista e o nosso “profissionalismo” era à séria.

A pernoita não se revelou, no entanto, muito prática: caro relativamente às condições (provavelmente por alguma circunstância ocasional, a água corria num estreito fio que mal dava para lavar a loiça, quanto mais para o banho…). Mas a paisagem conquistou-nos, repito, e como por aquelas bandas nada mais há (achámos nós – se houver digam-nos…) de interessante para AC, ficámos duas noites.
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É claro que cedo nos fartámos da neve artificial e partimos para “the real one”. Como as aulas de sky não fizeram milagres, optámos pelo “sku” em sacos e pranchas de neve. Mais divertido, sem dúvida.
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O almoço foi mesmo ali, estacionados ao lado da neve, num terreno lisinho de terra ainda não inundada de neve, o pior foi quando quisemos sair e a Casinha decidiu atascar-se. Não fora um rol de homens musculosos e ainda lá estaríamos…
Uma das noites ainda experimentámos o Parque Pião, mas decididamente não compensa e não prima pelo interesse e beleza.
Almoçar a gastronomia regional é sempre algo que se deve desfrutar, por estas bandas: trutas, migas de bacalhau e, evidentemente, requeijão com doce de abóbora!!!
O regresso foi por Côja e, pela segunda vez na vida, apanhámos o desfile de Carnaval. Sempre ouvimos boas referências do camping de Côja, mas infelizmente fecha no Inverno. Optámos por o de Arganil, onde já havíamos passado uma semana há uma eternidade, ainda sem filhos, apenas com o Fox (o nosso saudoso pastor “melga”).

Um bom ponto de relaxe, com alguns holandeses que, pelos vistos, passeiam todo o ano. Pois, eu faria o mesmo se já estivesse na reforma…

Até lá, contentemo-nos com estas pequenas saídas, nem que seja como hoje, cinco anos depois , a recordar uns diazitos de férias “Cá dentro”.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Outros primeiros de Dezembro


Em 2006, por mera coincidência certamente, também procurámos o poiso de Lisboa para dormir e os pastéis de Belém para saborear. Há prazeres que se instalam como as rotinas…



Dessa vez aproveitámos para visitar a exposição de Star Wars , “em cena” no Museu da Electricidade.







No 2º dia, à tarde, voámos rumo a Óbidos e, sem sabermos, a pequena vila era palco de outra feira, desta feita “Óbidos, vila-Natal”.



Digo, “desta vez”, porque no 10 de Novembro (apenas umas semanas antes) tínhamos lá ido visitar a Feira do Chocolate. Mas, se a primeira teve alguma graça por ser novidade, e pelo cheiro colante do chocolate; desta vez, apesar do nosso espanto ao vermos a versatilidade e rapidez com que os comerciantes se adaptaram a nova temática, não lhe encontrámos qualquer tipo de criatividade. Momentos houve em que roçava o pimba e o vulgar.



(montra apetecível)
Impressionante é ver também como o clima muda radicalmente em menos de um mês. Da primeira vez ainda aproveitámos para ir à praia, na Foz do Arelho.
Até fizemos um piquenique na área onde costumam parar as AC (frente ao Inatel), onde dormimos, e as crianças molharam os pés na água do mar, depois de um “Maria dá licença, quantos passos dou…”. Nesse dia tínhamos visitas connosco e a Casinha tornou-se numa vivenda… Da segunda vez, para sorte do evento vila-natal, o frio acompanhava a neve artificial lançada pela máquina faz-neve.
Em Óbidos, as alterações têm sido também frequentes no que respeita à pernoita de AC: em Novembro ficámos quase ao lado da entrada principal da vila, em Dezembro rente à muralha do outro lado e, dois anos mais tarde, a proibição rente à muralha já era “lei”.

Agora, mais ao fundo, após a muralha, existe um pequeno parque privado, explorado por um funcionário da Câmara de Óbidos. É vedado, paga-se (6€), e tem as condições essenciais. Estreámo-lo quatro dias depois da sua inauguração, em Março de 2007, quando vínhamos, de passagem, do Norte. (N39º21’22’’W9º09’25’’)
Depois de vasculhar o diário de bordo da Casinha, constato agora que também no 1º de Dezembro de 2007 nos ficámos por Lisboa. Andaremos nós a ficar sem imaginação?
Comemorava-se, frente à Torre de Belém, o Dia Internacional da Sida e vislumbrámos ao longe o vocalista dos Da Weasel. Os mais novos acham sempre o máximo, ver ao vivo o que aparece na TV…


Fizemos a visita ao interior da Torre e pela primeira vez fomos até à Colecção Berard, no CCB. Algumas peças e obras interessantes, por exemplo, Paula Rego, claro.
As noites, essas, foram passadas mesmo frente ao rio, a sentir a maresia e a música das gaivotas. Este local era, de facto, mais interessante do que o actual.

(Não é Paula Rego, mas causou certamente alguma polémica)






Será que a Câmara de Lisboa tem para breve a construção de uma zona para AC? Ouvi dizer…

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Fim-de-semana do 1º de Dezembro, 2008


Um fim-de-semana frio, chuvoso, de neve até. Mas não foi isso que nos impediu de dar um giro.
À semelhança de outras etapas, a 1ª noite seria dormida em Lisboa. Não já no sítio do costume, mas uns metros antes, perto do Museu da Electricidade. Só porque reparámos que era por aí que parava a malta e no outro local não havia vivalma. Quer isto dizer que se confirmam os rumores de que ao lado do Padrão já não é possível?! Ficámos sem saber, porque não chegámos a ir lá.
Lisboa é sempre espaço e tempo para fazer rotas históricas, culturais, ou comerciais. Para além da praia, das caminhadas, do andar de eléctrico, metro, comboio…
Desta vez foi a vez do cinema.


Ensaio sobre a cegueira, baseado na obra de José Saramago, que é em tudo muito mais que o filme: mais palavras num estilo inconfundível (o de Saramago) que ali nem se vislumbra; mais romance (o filme toca ao de leve a história de amores da prostituta e do velho negro); mais violência; mais sofrimento; mais dor… mas normalmente entre o filme e o livro, prefere-se sempre o livro, por isso não é nada de novo.
Mas ainda assim a brancura do leite da cegueira, os ângulos e planos de Fernando Meireles são únicos. O filme é para ver, sim senhor. E gosta-se.
A música da chuva no tecto da Casinha dá-lhe aquele tom de balada mesmo boa para embalar e… adormecer.
Acordar e ter como pequeno-almoço uns pastéis de Belém também é outra espécie de balada… gustativa.
Se não fossemos preguiçosos, poderíamos ter visitado o Palácio da Pena pela manhã de domingo, o que implicava visita grátis. Assim, da parte da tarde, armados em indolentes e dormentes, há que puxar os cordões à bolsa e pagar20€ (bilhete familiar).
Com o frio nada como subir o íngreme caminho até ao Palácio. Debaixo dos polares e das lãs, a humidade sua e aquece.
Chegados ao topo do portentoso edifício, até nos esquecemos que faz frio e não está sol, porque os cortes e recortes, formas e cores são um apelo à fotografia. Pena que a Pena não esteja mais brilhante de cores. Umas limpas e renovadas demãos não seriam pedir de mais. D. Fernando II agradeceria.








Que rei foi este que no alto do monte espesso e denso de vegetação se lembrou de erguer tão insólita construção?
De nome Fernando Augusto Francisco António de Saxe-Coburgo-Gota, passou à história como "O Rei-Artista".
Não terá sido ele o artista de tão sublime castelo, mas a sua mente artista maravilhou-se do topo escarpado, das ruínas (por essa altura o que existia era um velho convento), do Castelo dos Mouros, das matas.

Em pleno romantismo o espaço não podia ser mais romântico e daí que, o Rei-Artista, casado com a Rainha D- Maria II, o mandasse edificar, como sua residência de Verão. Um paço acastelado romântico, verdadeiramente eclético, no qual se encerra um autêntico manual de estilos arquitectónicos: neogótico, neomanuelino, neo-islâmico, neorenascentista, com outras sugestões artísticas como a indiana.
Era a moda do exótico, do insólito, da paixão pelo “horror ao vazio”, ou seja, o Romantismo.
Visitar as suas salas e decoração até dói. Cada canto e recanto conhece mais uma cadeira, um otomano (sofá oriundo dos otomanos), mesa, cadeira, arca, cofre, e em cada mesa mais bricabraque, mais madeira, mais almofada, mais madrepérola. A vista sai dali cansada. Olha-se através da vidraça e a profusão continua, até a vegetação ocupa tudo sem deixar um espaço vazio. Novamente ideias do monarca que até na vegetação pensou, encomendando-a de outros países e até continentes.
(Tritão simbolizando a alegoria da Criação do Mundo.)
Do palácio até à praia, basta seguir a linha do eléctrico. Mas na praia (das Maçãs) estava um vento ciclónico, pouco simpático para embalar o sono…
Optámos por Sintra.
Pernoita num relaxe profundo (coordenadas: N38.79688º W009.38849º)

A Câmara de Sintra podia pensar em arranjar aquele parque de estacionamento com algumas facilidades para AC: bastava um ponto de água e sítio para despejos. Mas se calhar não vão achar boa ideia, porque ao que parece vão construir ao lado um novo museu. Por outro lado, se Sintra tem mais museus por metro quadrado do que qualquer outra vila ou eventualmente cidade portuguesa, talvez acolhesse bem a ideia. A avaliar pela procura (mais 3 AC estavam por lá e duas eram estrangeiras), talvez fosse mesmo uma boa ideia. Afinal Sintra é uma pepita e pérola turística.


O mau tempo agudizou-se, o que não favoreceu muitas mais saídas.
Ao cair da noite (ainda por cima tão cedo…), por que não actualizar leituras?
O mais recente de Anne Perry, por exemplo: O cadáver de Bluegate Fields.
Na capital londrina de finais de séc. XIX, um novo crime emerge. Apesar da passagem dos séculos, um tema eterno e tão actual: um jovem de boas famílias assassinado, abusado homossexualmente. A primeira suspeita recai no preceptor, mas conhecendo a faceta crítica da autora, suspeito que a balança vai pender para um outro culpado, no seio da aristocracia britânica.
A veia crítica de Anne Perry retrata sempre a hipocrisia da dita “society”, regida por uma ética absolutamente fingida e falsa, cujo verniz salta ao longo da narrativa, para vermos os lords e as ladies, a serem os maus da fita.
«Anne Perry tem duas forças: personagens memoráveis e uma capacidade única de evocar com uma enorme minúcia a sociedade victoriana.»
The Wall Street Journal
«Anne Perry consegue escrever policiais vitorianos de fazer inveja até a Charles Dickens.»
The New York Times Book Review

Sintra ainda assim com alguma luz...
No regresso, paragem em Setúbal para uns chocos fritos acompanhados com batatas fritas. Um outro modo de terminar os passeios sem sol: apurando o paladar com a boa gastronomia portuguesa.