Viajar, travel, voyager... com uma casa de rodas por essas estradas fora... AC, Campingcar, motorhome: por Portugal, Europa, Mundo. Relatos e imagens de como viajar com a casa às costas.E também palavras sobre coisas que gosto...
O tiquetaquear do tempo é um dos verbos onomatopaicos mais expressivos da nossa língua. Assim como o aprecio, aprecio também os ponteiros, o redondo ou oval da forma - não do tempo - mas do objecto que o encerra e o dá a conhecer ao homem.
E, no entanto, vivo na angústia de não conseguir gozá-lo em pleno, saboreando cada carpe diem grego. Ao invés, saem-me da boca vulgares expressões como: “não tenho tempo”, “as e vinte e quatro horas não me chegam”, tomara que o tempo passe”, dependente das circunstâncias e até do tempo.
“Parar o tempo”, aqui e agora, é outra expressão que, felizmente, soa bem em momentos nos quais imagens como estas são captadas e ficam paradas no tempo a registar… bem, a passagem do tempo.
"É tempo de " ...
Badajoz, Espanha
"Há quem brinque com o tempo"... Basel (Basileia), Suiça
"Ao mesmo tempo" admira as cores... Basel, Suiça
"dar tempo ao tempo" é certamente um bom remédio Concarneau, França
A "tempo inteiro" Copenhaga, Dinamarca
"com tempo" Floresta Negra, Alemanha
"sem tempo"? Genéve, Suiça
Em part-time? (há expressões que soam melhor em inglês)... Gouda, Holanda
Com "tempo extra" ainda seria melhor. Gouda,Holanda
Há quem corra atrás do "tempo perdido",
Lisboa (parlamento), Portugal
Pontos de passagem entre o cá e o lá, barreiras fechadas possíveis de abrir do cá para o lá.
Prefiro pensar que são pontos, ou melhor, pontes de passagem. Do outro lado, mistérios se abrem, folheiam-se páginas de livros, de álbuns, de memórias…
São as páginas das vidas dos outros, às vezes alheias, às vezes tão como as nossas…
Ao longo destes anos, olhando através da lente, sempre tive a ideia de ter captado muitas portas. Ilusão. Poucas portas afinal registei, por mais que tenha tentado sempre preferi as janelas… vá-se lá saber por que inconsciente impulso…
Bate-se ou tilinta-se à porta e... quem sabe?
(Andreus , Portugal)
Alguém sorria, porque acabou de passear na "Feira da Ladra".
Brighton, Inglaterra
Ou venha alguém zangado, pouco hospitaleiro...
Chinon, França
Ou não, porque as flores simpaticamente dão sorte a quem dela precisa...
Dinan, França
O passado também espreita, algum sultão ou princesa apaixonados, perdidos...
Granada, Espanha
Um cheiro antigo a maresia... a esposa aguardando o marinheiro.
Marken, Holanda
Nas portas há sempre um número, ou um número e meio...
Porto Covo, Portugal
Ou matronas esquecidas preparando toiletes de procissão...
Ronda, Espanha
Nalgum 53...
Strasbourg, França
Ou encondido em caves de mistérios...
Veere, Holanda
Com ar maroto de criança a brincar nas ondas do circo.
O mote foi o “Breve Sumário da História de Deus”, pelo TNSJ, do Porto (pois então!), no cartaz e palco do TND. Maria II, em Lisboa, como não podia deixar de ser.
Apesar da curta duração da viagem (menos de 24 horas), o mote deu pano para mangas.
Primeiro: estacionamento na nossa “quinta” à beira- rio (frente à residência cor-de-rosa do Presidente de todos nós - salvo seja!).
Logo, logo, um segundo pequeno-almoço saborearando os pastéis mais lisboetas de sempre.
Pastelaria "Belém"
Dali, um salto sobre as rodas de um moderno eléctrico até à Praça da Figueira, para calcorrear ruas e avenidas.
Logo uns metros mais à fentre um testemunho terrífico e agreste do passado: a igreja de S. Domingos, lateral ao Teatro Nacional.
Os destroços do interior, qual cenário dantesco, reportam a um imenso incêndio, em 1954.
Antes disso, no célebre terramoto de 1755, já a igreja tinha desabado.
A estes relatos de catástrofes naturais, associam-se ainda outros menos natura pela mão da Santa Inquisição, como autos-de – fé , onde milhares de judeus foram chacinados. Reza a história que na praça em frente da Igreja,em 1506, centenas de judeus foram queimados por causa de quatro deles que tiveram a ousadia de afirmar que um certo raio de luz, ao incidir na custódia da Igreja, teria sido fruto de fenómenos científicos e pragmaticamente explicáveis e não de um milagre. Por causa dessas blasfémias (note-se: de quatro alminhas!), milhares foram perseguidos e queimados. A homenagem ainda lá está, no dito largo .
A marca está lá e, felizmente, para amenizar o cenário e as recordaçõe s dantescas, outras marcas suavizam as mágoas…
Ainda antes do almoço, nem a propósito, a fábrica que está na origem de muitas destas imagens…
Para ganhar calorias, digo, energias, nada como um almoço num outro marco histórico da “azulejaria” lisboeta: a Portugália, outrora sede da fábrica Germânia, antes ainda cerveja Imperial. Influência germânica, num edificio Estado Novo.
Sala de refeições
A bica, essa, toma-se depois do passeio digestivo, já mais abaixo, no Hard Rock lisboeta, um marco actual de cultura e lazer, um café quase museu…
Hard Rock café
E depois há outros museus fora do tempo como a Casa do Alentejo. No rés-do-chão ecos mouriscos, mas, subindo ao 1º andar mergulha-se no estado d’alma alentejano.
rés-do-chão
Consulta-se o cardápio e apetece ficar, miram-se os azulejos e tudo respira a planície húmida e cantada. No palco , ilusoriamente assente sobre uma “mesa”, apetece representar, nas cadeiras apetece descansar, nos sofás apetece uma sesta…
Sonhando com Inês de Castro...
Sala de refeições de motivos alentejanos
o bar genuinamente alentejano
Mais uns passos e está-se no Chiado, mais uma memória de outro incêndio, porém renovada, cosmopolita, arejada.
Para jantar, nada como outra memória do passado: café Gelo, por cujas paredes espreitam surrealistas e republicanos. Daqui partiu Manuel Buiça, a fim de cometer o atentado contra a família real. Aqui se juntavam intelectuais, como Fernando Pessoa e depois Mário Cesariny, entre outros.
Ao serão realiza-se o mote e as voltas terminam. É tempo de revisitar Gil Vicente, no seu (do TNSJ) “Breve Sumário da História de Deus”. Uma preciosa encenação de Nuno Carinhas, com um elenco que faz do texto e das personagens bíblicascas uma partituta na qual as palavras tocam límpidas e melodiosas.
Fecha-se o sumário deslizando no amarelo até à quinta, para dormir com Diabos vicentinos em anjos de sono transformados.
Não foi neste eléctrico, mas num idêntico
Ao acordar, o rio, o sol tímido, as pessoas domingueiras em ténis, sapatilhas, fitness e biclas.
Foi um breve passeio transformado em breve sumário!