Viajar, travel, voyager... com uma casa de rodas por essas estradas fora... AC, Campingcar, motorhome: por Portugal, Europa, Mundo. Relatos e imagens de como viajar com a casa às costas.E também palavras sobre coisas que gosto...
Apesar de ainda estar frio, o sol lá deu o ar de sua graça, arrancando-me a uma breve “viagem na minha terra”.
Ao som de António Variações, “Muda de vida se tu não vives satisfeito/ Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar/ Muda de vida, não deves viver contrafeito/ Muda de vida, se a vida em ti a latejar” e apetecendo-me fazer justiça às suas palavras, dei de caras com alguém que de certeza o ouviu e soube dar graças ao engenho e criatividade.
Não se tratava, porém, de uma qualquer porta de madeira.
A porta deu lugar à casa … e a casa também gira sobre rodas.
À busca da mudança, provavelmente sem estarem contrafeitos.
De Inglaterra até aqui chegaram,
Em Évora estavam , quais saltimbancos…
Lembrei-me ainda do livro e filme “Chocolate”, só que estes viajantes não vieram rio abaixo e sinal de Johnny Deep nem vê-lo…
Continuei viagem, cantarolando “Muda de vida se tu não vives satisfeito”….
Uma peça decorativa? Publicidade? Um galardão que transporta consigo a marca pessoal, a marca do espaço, a marca do tempo? Em Portugal não se vêem, não existem mesmo, pelo menos com estes tamanhos, cores, variedade. O nome possivelmente não é o melhor. “Tabuletas” não deve ser o mais fiel àquilo que são. Talvez o nome francês ou inglês seja mais sonante, mas desconheço quer a tradução adequada , quer o termo português certeiro para o que pretendo ilustrar.
A partir de França são um reino de cores e formas, verdadeiras obras de arte.
A primeira vez que tive o prazer de extasiar perante a beleza dos seus efeitos foi na Austria, país barrocamente enfeitado destes e doutros adornos, onde a riqueza parece espreitar de cada canto, imperial e principescamente. Apesar de tal viagem ter ficado noutro capítulo da minha vida onde a Autocaravana ainda não fazia parte, aqui ficam, mesmo com pouca qualidade, algumas memórias daquele passeio em 1997.
Salzbourg (A), a rua do comércio num bulício vivo
Salzburg
Estes outros adornos (estou a preferir este nome) vieram depois, já nas rodas da Casinha, na exploração, a quatro, da estrada , dos recantos com beleza, sobretudo vilas simples, vilas autênticas, simpáticas e risonhas. Como esta e as outras que se seguem:
Alsácia(F), o Santo.
Alsácia, a liberdade...
Alsácia, Natal em Agosto, é quando o homem quiser.
Alsácia, Baco
Dinan(F), que fome!!!!!
Pont-Aven(F), homenagem a Gaugin.
Algures ao longo do Mosel (ALemanha), uma pausa para o "tea".
Odense(D), o incontornável contista.
Odense(Dinamarca)
Vannes(F), o tempo parado de perto e de trás
Vannes, o tempo parado de longe
Alsácia, terra do vinho
Concarneau(F), o mar sempre presente, uma pérola!
Mont-Saint Michel (F), dedicado ao peregrino que somos todos nós, cada um à sua maneira...
Stratford-upon-Avon(Reino Unido), o pecado do vinho...
Stratford-uopn-Avon, bolas de verdura em madeira
Regressados de Espanha em Agosto (Astúrias- Galiza), a entrada em Portugal é, regra geral, pretexto para visitar os amigos do Norte. Desta vez, um dos pontos de paragem era obrigatoriamente a “Invicta”.
Mas antes disso, para recuperar forças e temperar os calores, porque numa AC cada itinerário pode ser alterado ou complementado, o desvio foi até uma praia fluvial logo ali à mão de semear da fronteira. Já há muito tempo atrás, em 1994, Vila Nova de Cerveira tinha sido reino de férias ainda longe de sonharmos com a vida autocaravanista, já nesse tempo a dita praia estava lá, mas por qualquer raciocínio mais incauto ou por falta dele, tinha-nos escapado. Agora ali estava a praia da Lenta, fresca, apetecível e com um número sofrível de veraneantes.
Depois do bar relaxante e bem decorado, havia um “acampamento” de Vans, mas nós ficámos logo à entrada, na zona de pic-nic. Uma AC espanhola já lá estava. Ali pernoitámos também (N41º57’31.0’’ W008º 44’46,2’’), depois de um banho refrescante e de outro de sol. Durante a noite, mais ao fundo, soava alegre um acampamento de tendas. Ao acordar, descobrimos que se tratava do Encontro anual da família Brandão, a restante família chegou no autocarro da RN, os primeiros a chegar haviam adiantado as brasas para as febras. Estávamos, enfim, em Portugal, olaré!
Só depois deste preâmbulo voámos rumo à Invicta, aqui tão perto mas poucas vezes referida nestas páginas viajantes. E merece-as, aliás, o que mereceu mesmo a nossa atenção foi a travessia para o outro lado do rio até à Afurada, um território parado no tempo, para o qual nos empurraram, em boa hora, as manas C. e F.
Ao longo do rio: entre o Porto e a Afurada
Aqui fica a dica:
Depois de um percurso pedreste desde o Passeio dos Alegres até ao cais, é só apanhar o barquito e deixar que nos levem para olharmos, atónitos, para a aldeia da roupa branca, ali tão perto e tão longínqua no tempo.
No lavadouro municipal, decerto dos poucos a funcionar neste país solarengo, as mulheres lavavam a roupa com a conversa cantada do dia-a-dia, enquanto o sabão azul borbulhava e pintava de fresco os trapos. Lá fora, debaixo do sol, a roupa esvoaçava a céu aberto e a mãos alheias.
Na Afurada o tempo parou. Cada porta, portado ou passeio brilha e rebrilha de limpeza, a vassoura estacionada num breve descanso. As portas abertas, a chave no trinco, “seja bem-vindos, mas limpe os pés no capacho”…
As tasquinhas também apeteciam, mas era Agosto e a oferta escasseava.
(Não experimentámos, mas tinha cara de um sítio para a pernoita)
Despedimo-nos, não sem antes olharmos com nostalgia o “Aniki-Bobó” da criançada que mergulhava nas águas do Douro com as mães a gritar lá longe, a chamar para a janta.
A nossa janta também chamava, a barriga a dar horas. Entre ruelas, ruas e becos lá penetrámos na castiça Foz.
“Lá vai Água”, parecem dizer as estreitas ruas, mas não, o que rolou foi o vinho caseiro, acompanhado de belas iscas, trouxas e papa de serrabulho nos “Carteiristas”, uma tasca a ir e a recomendar.
Em Freixo de Espada à Cinta a história é quase como uma BD em tamanho grande e a três dimensões.
A 14 de Fevereiro de 2010 ninguém nos contou estórias da vila, esta era um deserto de frio, com dois ou três turistas como nós, a dar de caras com a imagem em 3D.
(Freixo de Espada à Cinta)
Em Mirandela, a história era outra. Demos lá um salt, influenciados por aquela série televisiva portuguesa duma família que vive numa autocaravana (tinhamo-la visto na véspera, no calor da nossa “Casinha”).
Afinal as imagens televisivas revelaram-se mais fotogénicas do que a própria cidade. Mas a alheira da série e a real que comprámos, acabou por se revelar uma fonte de inspiração e de almoço, ali ao lado do parque, logo acima do Tua, onde agora, infelizmente, se fala do miúdo desaparecido.
Mirandela
Mirandela
Castelo Rodrigo impôs-se mesmo sem estórias, imaginámo-las nós dentro das muralhas do seu castelito agora renovado e pelas ruas íngremes e arejadas do lugarejo. Também a lojeca de sabores regionais se impôs pelos cheiros e sabores, nada como um azeite puro e virgem para o pitéu da noite...
Do castelo de Castelo
A capela, bem bonita...
A estória mais empolgante ficou para o fim, na 3ª de Carnaval, depois de um apaladado cozido à transmontana à beira da estrada, no Restaurante Quinta da Terrincha, perto de Torre de Moncorvo.
A dita estória mora mais à frente, em Marialva, “que nome giro, vamos lá ver!”. Lobrigámos de longe o castelo (o frio não convidava à subida alpinista) e pareceu-nos ver, entre a torre e o vento, a veste da bela Maria de Alva que, por terem descoberto ser uma dama com pé de cabra, dali se atirou ao vento. Dali? Da torre , diz a lenda. “Talvez da janela daquela casa!”, dissemos nós.
“Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto”….
Da torre?
Ou desta janela?
Ao longo deste Carnaval e por estes caminhos portugueses dormimos em:
·Sameiro, frente ao fechado Camping do Skiparque, com uns simpáticos figueirenses autocaravanistas que nos acompanharam na pernoita (N40º24’41,6’’ W7º 28’ 07,1’’).
·Vila Flor, no económico e nevado camping (4 €, 2 adultos e meio).
·Na quinta do Sr. Presidente da Junta de Podence.
·Na Guarda, frente à GNR (N40º37’7’’ W7º16’03,5’’)
Neste tempo inclemente de catástrofes naturais, aqui , lá longe, e minutos antes de se saber se o Haiti voltará ou não a ser atingido pelo Fado da desgraça, por que não uma sinfonia calma, amena?
É certo que o frio marca as imagens, mas nada que não seja natural num Fevereiro deste século. Menos natural é a acção do homem na Natureza e a passividade com que governos de todo o mundo olham em redor.
Por mais quanto tempo teremos um leve manto de geada?
Por mais quanto tempo correrão calmos regatos e rios?
Por mais quanto tempo as cores serão cores? Como estas..
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Neste Inverno rigoroso e inclemente, na semana do Carnaval, a chuva, o vento e a neve atacaram o país de Norte a Sul. No Sul apertava o frio e a chuva, no Norte a neve, algum sol e frio. Optámos pelo frio do Norte.
O sol brilhava timidamente, mas ainda assim era alguma luz.
Na serra da Estrela o manto de neve cintilava, a subida até à torre ia revelando uma forte luz branca.
Mais para baixo, do sopé da serra até o Sameiro, os contrastes de cor e o deslizar tranquilo do Zézere e das ribeiras.
E, ao longo do Douro, as amendoeiras iniciavam a sua Primavera em flor.
Os socalcos vinhateiros estendendo-se pela s ribas , com o Douro bem lá ao fundo.
Os castanhos e os verdes em diferentes tonalidades...
(Mirandela)
E sempre, o frio, às vezes uns flocos de neve, em Vila Flor, por exemplo, ao acordar, num camping caseiro de pinheiros , ou em Podence, à noite, no meio de uns casamenteiros Caretos, no lusco-fusco das tochas.