Viajar, travel, voyager... com uma casa de rodas por essas estradas fora... AC, Campingcar, motorhome: por Portugal, Europa, Mundo. Relatos e imagens de como viajar com a casa às costas.E também palavras sobre coisas que gosto...
O sol é mesmo grande em Marrocos, daí certamente este camping estar, assim como outros, repleto de autocaravanistas, nas calmas…). E afinal os sanitários, apesar de denotarem usos e costumes do tempo da avó, permitiram um banho quente e rejuvenescedor (a cabina com água quente era apenas uma, a contígua ao esquentador e bilha do gás laranja, mesmo ali à vista de todos).
( Camping de Martil)
Pagámos – à volta de 9 € e rumámos até à Colômbia marroquina, conhecendo pelas estradas e caminhos verdes do Rif gente acenando para a venda da “pedra”. Quase tantos como os pastores, as ovelhas e as crianças sorridentes a acenar, tudo ia rolando harmoniosamente até à chegada a Tetouan.
O estacionamento foi fácil, é só vislumbrarem os veículos chamados camping-cars e logo os marroquinos sinalizam para estacionar, esticando a mão à espera de gorjeta… afinal, Portugal não está a anos-luz deste costume tão pedincholas… Dá-se-lhes 1€ e prometemos mais, se nos guardarem a “casa”.
Contrariamente às recomendações, demos dois passos e logo fomos engatados. Um simpático cinquentão, trajando à europeia mas claramente nativo, apresentou-se-nos, introduzindo a conversa com a menção ao irmão que trabalhava em Lisboa, “Rua do Ouro, da Prata, Chiado”… o inventário ia seguindo, diz chamar-se Ahmad, mostra a identificação…
( No canto direito, o nosso Ahmad)
há que lhe tirar o chapéu, sim senhora, polida e subrepticiamente se colou a nós, até percebermos que tinhamos ali um guia para todo o percurso, até porque este caminho só os moradores da medina o conhecem, esta não é a porta principal… E assim passeámos por uma medina de ruas escusas, coloridas, de odores mesclados e irreconhecíveis, de gente que trabalha, vende, fala uma língua cantada e enrolada.
Tudo se passou num ritmo sereno, apresentando-nos Ahmad a medina dividida em áreas: a dos judeus, azafamados nos seus ateliers de costura, onde as linhas de seda são antes enroladas ao longo das estreitas ruas, num zumbido inconfundível.
A medina dos árabes, com a suas padarias comunitárias, o seu mercado de legumes, carnes, pão, tudo misturado e ao lado os berberes tímidos de chapéus alegres; a medina de reflexos andaluzes com os seus hotéis, pátios e cores.
(A padaria de todos)
E sempre, sempre a mesclagem de raças, numa harmonia social pintada pelo tom verde, com nesta rua que nos apontou:
(Palácio Real)
(Um hotel)
Graças a Ahmad entrámos também no sítio escondido onde as peles dos animais são meticulosamente tratadas até serem mala, casaco, pele macia e luzidia.
(As banheiras onde as peles mergulham em água, farinha e sal)
O odor fustiga, a visão dura do trabalho também, só os gatos são inconscientes e dormem na rua - também aqui Fernando Pessoa teria invejado os felinos…
Um restaurante
O interior de um Medina
Mas nem tudo são rosas e, por isso, como baptismo de aterragem neste novo mundo, cedo Monsieur Ahmad (no final da visita é certo) nos levou à cooperativa… se o encontrarem fujam do engodo, a dita cooperativa é no rés-do-chão de uma inocente loja de artesanato que amavelmente te oferece chá de menta e logo de seguida, deliciosamente instalados no 1º andar, te dão lições sobre tapetes, até que, pela exaustão, apesar de sempre dizerem que não é obrigatório comprar, acabas por cair na armadilha, e te vês a braços com tapetes ou panos… caímos na esparrela, podemos voltar para casa de tapete voador.
Na descida da medina os 10 € euros da praxe ao malfadado guia, que certamente dali recolherá a sua comissãozinha, regalado.
Vamos mas é regalar-nos noutro lado, almoçando os restos da comidinha caseira e portuga, mesmo ali à beira da estrada. Mais tarde, houve quem nos dissessse que não é nada aconselhável piquenicar assim, mas desta vez a inocência não teve maus frutos. Esteve-se bem.
Rif
Continuando a rota da droga, chegámos a Chefchouan a tempo de um lugarzinho no simpático e rústico camping (no Gandini, categoria “correcta”, mas quanto a mim até merecia mais pontos).
Parece longe, mas, por um atalho de escadinhas sempre a descer, cedo se chega à vila ( o pior é a subida…).
Chefchouan pela colina
As expectativas eram grandes e de início goradas pela presença de tanto mercantilismo e vendilhões que ocultam o tão desejado azul das paredes.
O rei olhando-nos na esplanada
É preciso procurar e depois de encontrada, a “vila azul” encanta. Desta vez, já com a lição decorada, não nos deixámos seduzir pelas vozes doces dos guias e partimos sós à descoberta. Nada de labirintos como Tetouan, a vila é um reino pacífico, onde comprar se faz de modo tranquilo, onde contemplar sem comprar ainda é possível. Anoitecia e as cores fotográficas desvaneciam-se, era tempo de ver o riacho que corre alegremente no sopé dos montes, era tempo de provar numa esplanada turística o coscous, a tágine, os comensais todos da terra, 4,5 € por pessoa e a festa faz-se. Debaixo do olhar sedutor do rei, saboreámos a refeição e a noite terminou plácidamente, já esquecidos das peripécias charlatãs do início do dia.
Ficou-me na memória uma frase do Guide du Gandini: “deixa a tua mentalidade de europeu em Espanha e na passagem por Algeciras, recuperá-la-ás”.
Parecia um conselho fácil, mas veio a verificar-se de díficil concretização. Talvez se eu fosse como o normal dos autocaravanistas, que estão lá no mínimo um mês, chegasse a concretizar o lema, quiçá? Não o conseguindo, apreciei Marrocos pelo cenário natural, pelo exotismo dos usos e costumes, mas nunca me largou a sensação incómoda de que tudo é demasiado pobre, duma pobreza que indigna e cria outra pobreza ainda, maior do que a física.
1ª visão de terras marroquinas
A diferença de culturas e mundos é tão abismal que nos bate de chofre logo à entrada do porto de Tânger, na fronteira. O mais fácil para despachar os trâmites da passagem é compactuar com os gajinhos que usam colete e parecem da autoridade, mas são apenas os primeiros “colas” do percurso em Marrocos. A mão untada com 5€ e eles tratam das formalidades, apesar de mesmo assim se sentir logo na pele a espera e a dúvida sobre a entrada.
Porto de TÂnger 1
Porto de Tânger2
POrto de Tânger 3
Entra-se e as ruas de Tânger são um turbilhão de gente, nos passeios, na própria estrada. Há que desviar porque é como se eles fossem os Reis da estrada. O trânsito é caótico, sobretudo nos cruzamentos; a regra da prioridade é uma miragem europeia.
Voltando atrás: saímos de Évora às 6h15m da madrugada e chegar a Algeciras às 16 e pouco foi uma boa média, que nos permitiu entrar ainda no barco das 17,30, graças à rapidez e eficácia dos serviços da Agência Gutierrez.
Não estava mal a hora de chegada a Marrocos, não fora o caso mal pensado de as 19h30 serem já veladas pelo manto sombrio da noite o que nos fez, contrariamente aos nossos planos, andar na estrada de noite. Ainda por cima porque não largámos a ideia de seguir até à costa mediterrÂnica para no dia seguinte percorrer o Rif.
Percebemos imeditamente por que razão não aconselham a condução de noite: as estradas são escuras como breu, as marcas da bermas inexistentes e sempre, sempre, gente a caminhar à beira da estrada e às vezes veículos motorizados ou bicicletas sem luz!
Já em Martil, o GPS não ajudava na descoberta do camping Complexe Touristique Albastoune, seguimos à beira da praia como o Gandini sugeria, perguntámos a marroquinos e só depois de duas voltas descobrimos: afinal o problema é que a estrada estava em Marrocos, o guarda do Camping dizia que toda Martil estava em obras, viemos a verificar nos dias seguintes que toda Marrocos está em obras!
Apesar de constatarmos que o camping é classificado como “très correct” , deduzimos, a avaliar pelos sanitários, que em Marrocos o sistema de autoclismo era constituído por um balde que devíamos encher e despejar no respectivo buraco. Mal sabíamos nós que comparativamente com outros campings, aquele era, de facto, “três correct”!
De rastos e esfomeados, jantámos a comidinha portuguesa e pregámos olho em segundos.
Em 10 dias efectivos em Marrocos, com partida a 31 de Março e chegada a 11 de Abril, não havia hipótese de Permanecer, Relaxar, Estar, Conhecer muito. De início, as Dunas de Erzouga eram uma das metas, mas cedo constatámos que era difícil com o pouco tempo de que dispunhamos e uma autocaravana que não é voadora. Desconhecíamos ainda nós o estado das estradas (algumas nacionais bem piores que as nossas rurais) e os limites de velocidade altamente policiados com direito a multas fresquinhas de 40 € (sim, também as conhecemos quase na pele)! As dunas e o deserto terão de esperar por outra oportunidade, prevejo que na reforma (o que deve implicar o NUNCA)…
Aqui fica o itinerário realizado, mais ao menos pensado, mais ou menos improvisado (porque o que há de bom desta vida em AC é a possibilidade de alterar planos e traçar novas rotas), que poderá ajudar quem, como nós,tiver pouco tempo:
- Dia 1 – Évora- Algeciras (Gutierrez, Viajes Normandie, ticket.gutierrez@telefonica.net)-viagem no ferry – Tânger- pernoita camping ,emMartil, Complexe Touristique Alboustane – N 35º37, 76´ W 05º 16,56´).
- Dia 2 – Martil-Tétouan – Chefchaouen (pernoita no camping Municipal Azilan , N 35º 10,50´W 05º 16´).
- Dia 3 – Chefchaouen – Fez (pernoita no Camping Internacional de Fes).
- Dia 4 – Fez (pernoita no mesmo Camping).
- Dia 5 - Fez – Ifrane – Afourer (pernoita em parque de estacionamento do Hotel Tazarkount).
- Dia 6 - Afourer – cascatas de Ouzoud- Marraquexe (pernoita camping Relais de MarrakechN 31º 42 408´ W 007º 59 407´).
- Dia 7 – Marraquexe.
- Dia 8 – Marraquexe – Temara (camping).
- Dia 9 – Temara- lagoa de Moulay Bousselham- Larache (pernoita em área de repouso marroquina: Aire de la Comarite N 35º 09, 65´W 06º08,60´).
- Dia 10- Larache – Assilah(Arzila)- Tânger (pernoita camping Miramonte – N- 35º47,45´ W 05º 49,95´).
- Dia 11 – Tânger- Algeciras (pernoita zona Lidl/ Carrefour).
- Dia 12 – Algeciras- Aracena- Évora
Viaturas da viagem : AC de 6,50m e Van Westfalia.
Protagonistas: 4 adultos, dois adolescentes, duas crianças de 10 anos.
Guias e outros equipamentos indispensáveis:
- Guide J. Gandini, Campings du Maroc 2009-2010, Éditions Extrem´Sud (encomendei pela net , mas encontra-se em quase todos os campings marroquinos e logo no “Guttierrez”, em Algeciras).
- Guia verde da Michelin, de Marrocos (ou provavelmente outro).
- GPS (apesar do obtido pela net não ser o mais fiável – a estrada era sempre ao lado da desenhada), até se portou muito bem e foi uma ajuda imprescindível! Obrigada a todos os companheiros cibernautas que nos foram dando dicas para obter o modelo compatível com o nosso Garmin!
Total de Kms percorridos: 2,500 Km.
Despesas ferry: 250€ (ida e volta).
Média diária em campings (AC e 4 pessoas) – entre 100 (10€), 120 Dirhams (12€).
Enquanto as memórias, vivas mas meio difusas, não assentam calmamente, aqui deixo uma espreitadela por um novo mundo, do outro lado do mar, o outro monte lá longe.
Refiro-me a Marrocos, pois então, aquele alto monte que nos foi surgindo devagar e se revelou desde o primeiro passo, uma terra multifacetada, alucinante, exótica, diferente.
Marrocos é terra onde a opulência é opulenta e a miséria miserável.
Palácio Real -Fez
"Casas " de campo
Onde as paisagens lembram outras paisagens, mas são definitivamente outras.
(ao longo do Rif)
Marrocos é a terra onde os homens abraçam, seduzem, enervam, vigarizam… porque há sempre a outra face e essa é inevitavelmente a da pobreza, aliada a um tom de calma e “carpe diem” que roça a aparente felicidade.
Paragem de autocarro -Fez
Em Marrocos tudo é diferente: o andar na estrada, na auto-estrada, nos campos, na cidade (infelizmente não cheguei ao deserto para o mencionar e comparar aqui);
as roupas; as escolas; as casas (algumas deverão ser apelidadas de casas?); o sabor dos condimentos;
os cheiros; o afazer que perpetua a arte manual; o pregão para a oração sempre presente;
(Marrakech)
o negócio sempre a dominar na mais ínfima das acções…
até o adeus de quem quer ir connosco, para fugir dali, da terra quente, pobre, apesar da tímida e natural felicidade.
Prometo que mais contarei, deixem-me só habituar a estes ares turbulentos da civilização e fiquem-se com esta espreitadela…
Timidamente o sol apareceu, para imediatamente a chuva regressar, furiosa, matreira , às vezes depressiva.
Nada como recordar as flores, muitas delas de países que mal gozam o sol, mesmo nos meses onde aqui ELe abunda
(Londres, um jardim à chuva, Agosto de 2008)
(Stratford, as gotas do "bardo" pingam de saudade...)
O prazo para votar neste blogue no Super Bock Awards está a expirar. A todos quantos me acompanham e votaram neste blogue, os meus agradecimentos. A quem ainda não votou, ainda está a tempo.
A uns e a outros, dedico uma foto especial, de uma viagem especial, no primeiro dia de Primavera.