Viajar, travel, voyager... com uma casa de rodas por essas estradas fora... AC, Campingcar, motorhome: por Portugal, Europa, Mundo. Relatos e imagens de como viajar com a casa às costas.E também palavras sobre coisas que gosto...
Metade da tribo alentejana dirigiu-se a Rabat; a outra metade, menos citadina e à procura das últimas pérolas, optou por rústicos caminhos e lugarejos em menor escala.
Um vislumbre rápido por Moulay Bousselham, certamente um bom poiso para os amantes de lagosta e de relax frente às águas paradas da sedutora lagoa.
Sem grandes indicações de roteiros , decidimo-nos por Larache, talvez fosse o toque que nos faltava para terminar em cheio.
Talvez...
porque afinal Larache revelou-se pouco atractiva, com uma medina pobre e suja e casas à espera da hora da reconstrução.
Lá em baixo , o mar espreitava.
Perante a desilusão, decidimos imitar os autocaravanistas da Área de descanso: sopas e descanso, aproveitando o a relva, os sobreiros, o silêncio, os sanitários e os duches e... tudo grátis! Não admira que tantas AC ali estivessem com ar de estadia permanente.
Tocam campainhas feias gritando que está na hora de percorrer o caminho de regresso a casa.
Porém, “Relais de Marraquexe” convida ao repouso . Há ainda que aproveitar o sol, a piscina, a relva, o ar festivo de férias.
Camping: a possibilidade de se acampar numa tenda confortável
Inspirem-se: O interior-base da dita tenda!
O caminho é outra vez longo. É certo que poderíamos ter optado por uma directa até Tânger, até porque , ao longo do litoral, há uma auto-estrada que devora quilómetros , mas prevalecia a curiosidade de conhecer mais.
Conduzindo...
Para quem quer ficar perto de Rabat, o local mais próximo ainda era Temara, pequena localidade à beira-mar.
O Gandini anunciava o Camping Les Sablettes , mas aquele onde entrámos nada parecia com um camping. Descobrimos depois que não era o Mesmo assim, no terreno a céu aberto, uma roda de AC alemãs e austríacas, com um guia marroquino (que luxo!), acampava em círculo. Fora isso nada de sanitários, nem sítio para despejos, nem sequer uma bacia limpa para lavar a loiça. Com a desculpa que era o único camping nas redondezas , lá caímos na cantiga dos 120 dirhams. Não houve maneira de convencer o marroquino que, com os olhos brilhantes da erva esfumaçada, ria da nossa tentativa de negociar preços. Seja!
Os sanitários abandonados
Um passeio pedonal pelo “passeio marítimo” fez-nos concluir que em tempos Temara havia sido estância balnear importante. De momento, nem por isso...
(Pensamentos inspirados num filme leve e inspirador, com a actuação fabulosa de Marly Streep: Julie & Jule)
Quando o marido de Julie lhe perguntou o que gostava de fazer , ela respondeu “Comer”. Quando Jule pensou com o marido o que poderia fazer para se libertar do tédio do dia-a-dia, nasceu o projecto de Jule registar num blogue as suas experiências culinárias. No final, a primeira escreve um livro de culinária e torna-se famosa, a segunda desperta a curiosidade e interesse de múltiplas editoras e, depois do blogue, vêm o livro e o filme...
Se me perguntarem o que gosto de fazer, respondo sem hesitações “viajar em autocaravana”. Para me libertar do tédio rotineiro e profissional, escrevo num blogue de viagens. A diferença é que isto não é um filme, os meus visitantes até não são muitos, os comentários não são às dezenas e nenhum editor me contactou.
Aproveitar o único pão do mundo que tem as virtudes de se reutilizar de formas diferentes e sempre saborosas (o alentejano, claro), e cortá-lo em pedaços como se brincássemos aos puzzles.
Cozer entretanto pescada, numa cascata de água a borbulhar . Enquanto as gotículas de vapor enchem o ar, juntar o odor fresco , verde e adoçicado de coentros ternamente colocados num almofariz de madeira. Misturar ao perfume alhos e sal. O almofariz tocará outra música, até se obter umas pasta homogénea e alegremente verde.
Para finalizar, juntar à agua impregnada do peixe, ovos que irão a escalfar (Jule teve dificuldades neste experiência, aqui , mesmo sem ser especialista, caem sempre bem e sabem ainda melhor).
A primavera chega (apesar da chuva teimosa), as uvas poderão juntar-se ao colorido do prato e combinarem com a cor do copo. Simples, rápido e genuíno.
“Relais de Marrakech” assenta-lhe que nem uma luva, mas o imperativo de visitar a cidade é mais forte. Com táxi reservado de véspera, ele ali estava à porta, na hora marcada. Pelo caminho ecoava o ar feliz de outros turistas, num ambiente 100% marroquino, apesar de o deserto continuar a ser miragem...
Marraquexe é um hino aos sentidos e à evasão onírica...
Imagina-se o silêncio cantado da oração masculina ressoando através das paredes da Kotovia, a mais importante mesquita de Marraquexe...
Imagina-se o silêncio dos talheres de prata num dos mais caros hotéis do mundo...
Imaginam-se os sonhos de um ancião, quiçá a cores, quiçá doutro tempo a preto e branco...
E, chegados antes do meio-dia à Jamaa El-Fna, a imaginação povoa-se de cores, de imagens reais plenas do movimento das cobras e das danças,
do tam-tam das melodias exóticas, das formas redondas das laranjas sumarentas a escorregar por bocas ávidas de fresco,
das cores alegres e sadias...
O labirinto de ruas e opções perde-se, os passos também...
entre souks sempre diferentes...
lojas e mais lojas
legumes
Imagina-se sempre mais e, ao entardecer, a praça transforma-se , e o olfacto também se perde,imaginando novos paladares.
Definitivamente, um dia é pouco para tanto imaginar!...
Segunda-feira, sol... o que lá vai, lá vai... pelo caminho, fosse campo, aldeia ou vila, sempre crianças a irem ou a virem da escola e sempre muitas escolas e muitas crianças...
Afinal os polícias tinham razão, as cascatas de Ouzoud ainda ficavam longe e o caminho era moroso de subidas.
Mais uma vez a paisagem mudou. No meio da pequena e pobre povoação de Ouzoud, das suas barracas de artesanato e restaurantes improvisados, tudo ali vive e respira à custa daquela tromba de água, forte, vibrante e africana.
Até a velhota do moinho que estende a mão, se deixa fotografar com a mira na moeda, seja ela nacional ou o tão desejado euro. Tudo roça a pobreza, apesar do Belo invadir os olhos.
Lá em baixo o cenário é novamente distinto, desta vez a lembrar Vietnam...
Os vendilhões do templo cercam o local, o melhor mesmo é rendermo-nos a eles e aproveitar para almoçar. As tágines , nas suas louças alegres e festivas, são apelativas, bora lá comer!
Dali a Marraquexe parecia um ápice, mas mesmo assim demorámos, até porque desta vez foi a vez da “bruxa” bater à porta dos nossos companheiros de viagem. Enfim, nada que não fosse de esperar a avaliar pelo controlo cerrado que os polícias marroquinos instalam nas estradas... velocidade 72 em vez de 60, e lá se abriram os cordões à bolsa, 40 € fazem a festa...
Talvez a paisagem que se avizinha apague das memórias tais visitas do infortúnio, porque a entrada em Marraquexe é de facto inesquecível... linhas e linhas de palmeiras enfeitam o horizonte, e tem-se a sensação que apesar de as conhecermos doutros cenários, estas aqui são “As Palmeiras” ...
O camping de Marraquexe é também um ponto diferente no cenário de campings visitado. No plaino sossegado das areias cremes e das palmeiras reais, uma relva fresca com sofás prazenteiros , uma piscina apelativa, uma esplanada solarenga ... é claro que por aqui abundam autocaravanas, especialmente francesas, cujos viajantes dão ares de ali Estar há muito , conhecendo-se todos, como se fossem já uma família.
Decidimos imitá-los, criámos a nossa esplanada de mesas, cadeiras e toldos e instalámo-nos com ar de férias, admirando as buganvílias...
O caminho não era o melhor, mas era nossa intenção aproximarmo-nos um bocadito do Médio Atlas, desde Fez até às cascatas de Ouzoud, já depois de Beni Mellal e perto de Marraquexe. Ambição hiperbólica, como viríamos depois a constatar.
Antes de tudo a passagem por um outro olhar sobre Marrocos, a chamada “Chamonix” marroquina.
Depois da montanha aldeã, das barragens, e das mantas de verde, agora o cenário é outro.
Para quem já viu estâncias de ski, Ifrane não transcende nada, mas para quem não espera pinheiros, telhados inclinados, ruas pavimentadas e sinais de neve em Marrocos ( a neve imaginá-mo-la), Ifrane é sui generis .
Assim, parámos, demos de caras com uma corrida de ciclistas à europeia com banda e tudo e almoçámos “em casa”. Carne de vaca estufada com massa à portuguesa. Era um domingo, os marroquinos veraneavam, com ar cosmopolita, na estância de Inverno, nada mais havia a fazer, prosseguimos viagem.
Duas horas, três e a estrada é infindável, sempre o asfalto sem margens cuidadas, o cuidado com os excessos de velocidade, a polícia, os adeuses das crianças, quatro horas...
não esquecer que anoitece cedo e não se aconselha a estrada, e trás!, quando a meta parecia não ser mera miragem, algures perto de Afourer, em plena estrada nacional, outro olhar sobre Marrocos. Não tão grave como em Babel, mas a roçar a mesma criancice que pode ter final trágico. Ao cruzarmo-nos com um autocarro , alguém do seu interior atira um objecto não identificado que nos bate com toda a força no vidro e TRÁS!, duas mossas , vidro partido, vidro a estalar por ali abaixo.
Parámos uns metros depois , queixámo-nos à polícia que concluiu nada poder fazer, não vimos quem foi, eles até mandavam parar o autocarro , mas não havia provas concretas, enfim, o vidro não se estilhaçará, se acontecer não há vidros destes em Marrocos, boa viagem, para onde vão, o melhor é estacionarem no Hotel Tazarkount, já aqui ao lado em Afourer, subir até às cascatas não é agora o mais aconselhável, anoitece, as curvas, enfim... seguimos o conselho das autoridades, para mais uma aventura, desta vez num Hotel. O parque de estacionamento era banal , mas o Hotel de 4 estrelas, tivemos de pedir autorização e como sempre negociar, 200 dihrams por cada carro, ou então um jantar no Hotel... regatear para a esquerda, choradinho para a direita, telefonema para o gerente, vá lá, 150 pela noite.
Entre cervejas (portuguesas!), acajus, chouriços , pão e queijo lá afogámos as mágoas, creio que a visita da bruxa já passou, um dia escreverei sobre ela, que em cada viagem faz pelo menos uma visita.