sexta-feira, 18 de junho de 2010

De e para Saramago


“O viajante está em Évora. Esta é a praça famosa do Geraldo, aquele cavaleiro salteador ou salteador cavaleiro que, para lhe perdoar Afonso Henriques os desmandos e crimes, se determinou conquistar Évora. Por manha o conseguiu e inocência dos mouros, que tinham a velar numa torre um homem apenas e sua filha, cujos não velavam nada, antes a sono solto dormiam quando o Sem Pavor nem piedade lhes cortou a cabeça. Coitada da menina. No alvoroço do engano, supondo-se atacados noutro lado da cidade, deixaram os mouros abertas as portas da fortaleza, por onde entraram os mais soldados cristãos, com ajuda de mouriscos e moçárabes, que a seu bel-prazer mataram e aprisionaram. Foi isto em 1165. Que Évora fosse a que Geraldo conquistou, não é o viajante capaz de imaginar. Quantos mouros havia para defender a cidade, não sabe. (...) Isto são histórias que toda a gente conhece desde as primeiras letras, mas ao viajante não fica bem inventar outras. (...)




Em Évora há, sim, uma atmosfera que não se encontra em outro qualquer lugar; Évora tem, sim, uma presença constante de História nas suas ruas e praças, em cada pedra ou sombra; Évora logrou, sim, defender o lugar do passado sem retirar espaço ao presente. (...)




Metade de Évora ficou por ver, a outra metade sabe-se lá. Mas o que ao viajante causa impressão, perdoe-se-lhe a ideia fixa, é que tudo quanto viu (tirando as muralhas e o tempo romano) ainda não existia no tempo do Sem Pavor nem sequer dos revoltosos de 1383. O viajante acha que tem muita sorte: alguém lhe conquistou um bom sítio para construir esta Évora, alguém a levantou, alguém a defendeu, alguém lutou por que as coisas fossem assim e não de outra maneira, tudo para que pudesse aqui regalar-se de artes e ofícios. Agradece em pensamento ao Sem Pavor, apesar de não lhe perdoar a rapariga degolada....”

José Saramago, in Viagem a Portugal, 2ª edição, 1985


A crónica do viajante desta vez não é minha (nem poderia), é de Saramago . Agradeço-lhe aqui as palavras, estas e outras ensinaram-me a Ler e a Ser.

Até sempre!






domingo, 13 de junho de 2010

Portas com estórias




Irresistivelmente as portas e as janelas continuam...
(http://viajantedecasaascostas.blogspot.com/2010/02/portas-de-a-z.html)


Mesmo noutro continente, no africano, portas e janelas falam. Outra língua, outra religião, é certo, mas talvez por isso o mistério ainda seja mais misterioso.
Vale a pena olhá-las e tentar imaginar as suas estórias.

De príncipes em cavalos alados e princesas encarceradas (Fez)



De vilões fortes, cujas aldrabas necessitam da palavra mágica (Fez)



De moiras encantadas em feitiços de gelo (Chefchouan)



De sonhos enquanto se trabalha a tesoura, o chá, as vendas...(Chefchouan)




De esposas tímidas ansiando por uma visita (Tetouan)


Do Emir rodeado de esposas e filhos à espera do chá do Oriente e suas especiarias (Tetouan)



Do judeu esperançado em melhores dias (Tetouan)




Do árabe gordo e simpático que ri com o sol (Tetouan)




Do emigrante armado em marroquino à espera da época balnear (Asilah)


Do Árabe chamado Joseph (Asilah)




Da menina das casas de bonecas (Asilah)



Do francês amante do mar e do deserto marroquino (Asilah)




Da família ancestral fechada a sete-chaves (Asilah)





sexta-feira, 11 de junho de 2010

À espera de melhores dias

A AC tem estado estacionada.
À espera de melhores dias.

Mesmo sem ela uma breve fugida.

O mar é sempre o anseio de quem vive rodeado de plainos abandonados.



A casa à beira-mar tem um interior com o mar a tocar-lhe,




e no exterior o mar toca a casa...


em dias de grandes marés.


Na calma de Maio tudo passa com uma leve maresia e as gotículas da suavidade.

Onde?

Adivinhem, se conseguirem...

sábado, 29 de maio de 2010

Adeus Marrocos, olá Espanha!





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Dia 11
Não vou falar das horas longas na fronteira, não vou falar do polícia que não nos queria deixar passar porque o bilhete não “funcionava” para aquele dia, não vou falar do polícia que me gritou e que me fez pensar “só falta multar-me ou prender-me porque ousei responder-lhe”, não vou falar das idas e voltas pela fronteira, ... e tudo para conseguir trocar os bilhetes, porque naquele dia o mar estava agitado e só os grandes ferries circulavam... depois de horas e horas, filas e filas, inspecção do interior da AC.. não vou falar de uma viagem agitada em pleno alto mar, das ondas salgadas a fustigar os convés e janelas, das insisposições, dos enjoos, da longa espera em pleno mar alto antes de se conseguir atracar em terras de Espanha.
Não vou falar disso (!) porque assim se gastou o décimo primeiro dia.
Acabámos armados em europeus pseudo-capitalistas , algures em Algeciras, ceando pizzas. Já não tivemos coragem de nos meter à estrada e deixámo-nos vencer pelo cansaço, ali mesmo, no parque ao lado do Carrefour cheio de outros autocaravanistas... que afinal já conhecíamos de outros estacionamentos... de outros estacionamentos de Marrocos... como o mundo é pequeno!
Dia 12
Este, sim, foi o derradeiro dia de estrada, de férias, de liberdade.
Já em Espanha, a hora do almoço deu ainda para uma paragem em Aracena, uma vila simpática entre outras da Serra com o mesmo nome, por onde tantas vezes passámos a caminho de Sevilha e sobre a qual dizíamos invariavelemente “estas vilas devem ser giras...”, mas nunca paravámos.
Alguma vez tinha de ser a primeira.
O cenário contrastava com aquele que ainda vinha feresco nas nossas memórias, este parecia tão arrumadinho, tão menos natural e ao mesmo tempo agradável...
Foi a primeira visita , sem palavras históricas, sem roteiros culturais, apenas impressões frescas, coloridas, de uma terra que nos pareceu animada, com vida, e muita arte...





Fica agendada para uma próxima oportunidade.











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terça-feira, 25 de maio de 2010

Dia 10 - O toque final




Em contagem decrescente, Asilah (antiga Arzila) foi a pérola , o toque final pelo qual esperávamos.
As ruas lavadas, as paredes pintadas de branco e às vezes até com grafittis (!), as janelas a evocarem chaminés algarvias que afinal de árabe pouco têm (onde estão as chaminés em Marrocos?), o azul, o azul-marinho, o azulão, o azul-esverdeado, o mar, as pedras portuguesas, o brilho sadio da luz...






































À beira-mar (que pena a praia poluída!)
muitas AC,uma tenda improvisada com o pacato marroquino que cobrava o equivalente a 50 cêntimos, um vento assobiante a varrer as areias, um mar agitado...
Foram estas as memórias que perpetuarão.



Já com a tribo toda reunida, lançou-se a ideia de partir para Tânger, afinal seria o último dia em solo africano, havia que apanhar o ferry cedo.
Lá partimos, sem grandes sonhos sobre Tânger que, de facto, logo à entrada , nos deixou poucas saudades. As imagens dizem tudo, adivinha-se depois a miséria e o desejo de lhe fugir.
O camping de Tânger (Miramonte), apesar das indicaçõe s “accés un peu délicat pour les camping-cars” é, na prática, mais difícil do que “delicado”, felizmente que a saída se faz por outro acesso.
No ar, as ameaças de uma avaria ( a Van queixava-se de problemas na correia da ventoinha) e das travessias canceladas devido à forte agitação marítima fizeram-nos cabisbaixos e sem vontade de descobrir Tânger. Deitar cedo e cedo erguer , amanhã seria a odisseia da partida.