terça-feira, 6 de julho de 2010

Diários de viagem




Ao longo destes oito anos de viagem em AC, o acto (ato ??!!) de escrita tem ocupado páginas de folhas macias, recicladas , com linhas , sem linhas , mas sempre em branco, , claro, pardo... só a tinta , umas vezes preta outras lilás, percorre suave ou asperamente o levemente matizado papel .
Para isso é preciso viajar, olhar, sentir cada esquina, a maior parte das vezes num querer “sentir tudo de todas as maneiras” , com um nervosismo diário à flor da pele, sem conseguir estar quieto ou parado, porque tudo é novo, tudo é diferente e o tempo voa...
A maior parte das vezes o que se regista nem é tanto o que se sente, mas o objectivamente feito e observado. O resto fica gravado noutras folhas , noutras páginas que só o viajante conhece ou sente ou respira.
Seja como for , entre aquilo que vejo e o que sinto no viajar , algumas impressões estão gravadas em papel, por isso, já lá vão três diários, este - último - alusivo a Austrália (um sonho adiado...) será o quarto e iniciou-se neste mês de Julho.
A viagem de Julho já lá está registada, para passar a limpo para outra página, desta feita menos de papel, mais de tela e mais de blogue e mais de world wild web.
Diário I


Diário II (Alsácia e ao longo do Mosel e Rhein)




Diário III




Diário IV

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Wind, windows






O vento sopra,
a brisa suave afaga ternamente o cortinado de seda e deixa transparecer, por segundos, uma sombra.
Por detrás da janela, um vulto.
Por detrás da cortina de seda, uma vida.
Creio que uma janela ainda consegue ser mais poética que uma porta...
As de Marrocos também.



Algumas são também sérias, como convém às que testemunham estórias graves de famílias que labutam com afinco (Fez)


Outras têm um ar mais arejado, à espreita do mar e das eternas férias (Azilah)




Lembrando o branco algarvio (ou será o contrário)?


Acusando alegria da música árabe...




Brincando com as silhuetas





Revelando um ar triste e viúvo, por detrás da burka...




Dias festivos de uma moura aprisionada...



Sol, maresia, mistério .


sexta-feira, 18 de junho de 2010

De e para Saramago


“O viajante está em Évora. Esta é a praça famosa do Geraldo, aquele cavaleiro salteador ou salteador cavaleiro que, para lhe perdoar Afonso Henriques os desmandos e crimes, se determinou conquistar Évora. Por manha o conseguiu e inocência dos mouros, que tinham a velar numa torre um homem apenas e sua filha, cujos não velavam nada, antes a sono solto dormiam quando o Sem Pavor nem piedade lhes cortou a cabeça. Coitada da menina. No alvoroço do engano, supondo-se atacados noutro lado da cidade, deixaram os mouros abertas as portas da fortaleza, por onde entraram os mais soldados cristãos, com ajuda de mouriscos e moçárabes, que a seu bel-prazer mataram e aprisionaram. Foi isto em 1165. Que Évora fosse a que Geraldo conquistou, não é o viajante capaz de imaginar. Quantos mouros havia para defender a cidade, não sabe. (...) Isto são histórias que toda a gente conhece desde as primeiras letras, mas ao viajante não fica bem inventar outras. (...)




Em Évora há, sim, uma atmosfera que não se encontra em outro qualquer lugar; Évora tem, sim, uma presença constante de História nas suas ruas e praças, em cada pedra ou sombra; Évora logrou, sim, defender o lugar do passado sem retirar espaço ao presente. (...)




Metade de Évora ficou por ver, a outra metade sabe-se lá. Mas o que ao viajante causa impressão, perdoe-se-lhe a ideia fixa, é que tudo quanto viu (tirando as muralhas e o tempo romano) ainda não existia no tempo do Sem Pavor nem sequer dos revoltosos de 1383. O viajante acha que tem muita sorte: alguém lhe conquistou um bom sítio para construir esta Évora, alguém a levantou, alguém a defendeu, alguém lutou por que as coisas fossem assim e não de outra maneira, tudo para que pudesse aqui regalar-se de artes e ofícios. Agradece em pensamento ao Sem Pavor, apesar de não lhe perdoar a rapariga degolada....”

José Saramago, in Viagem a Portugal, 2ª edição, 1985


A crónica do viajante desta vez não é minha (nem poderia), é de Saramago . Agradeço-lhe aqui as palavras, estas e outras ensinaram-me a Ler e a Ser.

Até sempre!






domingo, 13 de junho de 2010

Portas com estórias




Irresistivelmente as portas e as janelas continuam...
(http://viajantedecasaascostas.blogspot.com/2010/02/portas-de-a-z.html)


Mesmo noutro continente, no africano, portas e janelas falam. Outra língua, outra religião, é certo, mas talvez por isso o mistério ainda seja mais misterioso.
Vale a pena olhá-las e tentar imaginar as suas estórias.

De príncipes em cavalos alados e princesas encarceradas (Fez)



De vilões fortes, cujas aldrabas necessitam da palavra mágica (Fez)



De moiras encantadas em feitiços de gelo (Chefchouan)



De sonhos enquanto se trabalha a tesoura, o chá, as vendas...(Chefchouan)




De esposas tímidas ansiando por uma visita (Tetouan)


Do Emir rodeado de esposas e filhos à espera do chá do Oriente e suas especiarias (Tetouan)



Do judeu esperançado em melhores dias (Tetouan)




Do árabe gordo e simpático que ri com o sol (Tetouan)




Do emigrante armado em marroquino à espera da época balnear (Asilah)


Do Árabe chamado Joseph (Asilah)




Da menina das casas de bonecas (Asilah)



Do francês amante do mar e do deserto marroquino (Asilah)




Da família ancestral fechada a sete-chaves (Asilah)