quinta-feira, 8 de julho de 2010

Brisas alentejanas



Incrivelmente estivemos três meses sem viajar, fazer parte da intitulada “Geração Sandwich” prega-nos destas partidas.
Para inaugurar o Diário de Bordo IV e o mês de Julho, nada como voltar a tantos “dejá vues” e repetir Porto Côvo, mas desta feita com algumas novidades.
Primeira paragem obrigatória: S. Torpes.
A título de brincadeira familiar é a nossa Saint Tropez, a avaliar pelas tépidas águas azuis.
Desta vez nem tanto. O areal continua a ser bem melhor que a homónima francesa, assim como o horizonte até ao Malhão, passando pela lendária Ilha do Pessegueiro, com a excepção das chaminés e estaleiros sineenses e da água que ainda não teve tempo de aquecer, qual Mediterrâneo sem turbinas...




O vento , esse, é o habitual daquelas paragens – mas que bom, comparado com o braseiro alentejano da planície, de onde vínhamos, afogueados!...
Porém, ao entardecer, mesmo as colunas de ferro revelam a sua poesia, a poesia do Modernismo... sabe bem dormir embalado pelas ondas mesmo ali ao lado, é este o “preço” (grátis e único!!!) de viajar em autocaravana!








Porto Côvo, por seu turmo, continua igual (e diferente) no que se refere ao autocaravanismo. Ao que parece já ninguém procura a vila para pernoitar. Por mais proibições com ou sem luvas de pelica , as falésias continuam lá, à espera das AC que dela fazem a sua quinta, mansão , hotel. Também a “Praia dos Gatos” , a uns escassos metros da Praia Grande, parece ser agora a eleita.






Uns mais pacatos dormem ,ou tentam dormir a sesta ,enquanto outros considerados os reis do “pinhal” , tocam ruidosamente concertina ; outros “acampam”; outros estão, chegam, partem.






Para mudar um pouco o registo, desta vez decidimos “inaugurar” também o outro lado do autocaravanismo: inaugurar não seria o termo literal já que estar em campings é uma possibilidade que nem nos choca nem é uma prioridade. Mas estava na hora de nos baptizarmos em Zmar, pelo menos uma primeira abordagem. Breve, breve a “publicidade” AQUI!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Diários de viagem




Ao longo destes oito anos de viagem em AC, o acto (ato ??!!) de escrita tem ocupado páginas de folhas macias, recicladas , com linhas , sem linhas , mas sempre em branco, , claro, pardo... só a tinta , umas vezes preta outras lilás, percorre suave ou asperamente o levemente matizado papel .
Para isso é preciso viajar, olhar, sentir cada esquina, a maior parte das vezes num querer “sentir tudo de todas as maneiras” , com um nervosismo diário à flor da pele, sem conseguir estar quieto ou parado, porque tudo é novo, tudo é diferente e o tempo voa...
A maior parte das vezes o que se regista nem é tanto o que se sente, mas o objectivamente feito e observado. O resto fica gravado noutras folhas , noutras páginas que só o viajante conhece ou sente ou respira.
Seja como for , entre aquilo que vejo e o que sinto no viajar , algumas impressões estão gravadas em papel, por isso, já lá vão três diários, este - último - alusivo a Austrália (um sonho adiado...) será o quarto e iniciou-se neste mês de Julho.
A viagem de Julho já lá está registada, para passar a limpo para outra página, desta feita menos de papel, mais de tela e mais de blogue e mais de world wild web.
Diário I


Diário II (Alsácia e ao longo do Mosel e Rhein)




Diário III




Diário IV

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Wind, windows






O vento sopra,
a brisa suave afaga ternamente o cortinado de seda e deixa transparecer, por segundos, uma sombra.
Por detrás da janela, um vulto.
Por detrás da cortina de seda, uma vida.
Creio que uma janela ainda consegue ser mais poética que uma porta...
As de Marrocos também.



Algumas são também sérias, como convém às que testemunham estórias graves de famílias que labutam com afinco (Fez)


Outras têm um ar mais arejado, à espreita do mar e das eternas férias (Azilah)




Lembrando o branco algarvio (ou será o contrário)?


Acusando alegria da música árabe...




Brincando com as silhuetas





Revelando um ar triste e viúvo, por detrás da burka...




Dias festivos de uma moura aprisionada...



Sol, maresia, mistério .


sexta-feira, 18 de junho de 2010

De e para Saramago


“O viajante está em Évora. Esta é a praça famosa do Geraldo, aquele cavaleiro salteador ou salteador cavaleiro que, para lhe perdoar Afonso Henriques os desmandos e crimes, se determinou conquistar Évora. Por manha o conseguiu e inocência dos mouros, que tinham a velar numa torre um homem apenas e sua filha, cujos não velavam nada, antes a sono solto dormiam quando o Sem Pavor nem piedade lhes cortou a cabeça. Coitada da menina. No alvoroço do engano, supondo-se atacados noutro lado da cidade, deixaram os mouros abertas as portas da fortaleza, por onde entraram os mais soldados cristãos, com ajuda de mouriscos e moçárabes, que a seu bel-prazer mataram e aprisionaram. Foi isto em 1165. Que Évora fosse a que Geraldo conquistou, não é o viajante capaz de imaginar. Quantos mouros havia para defender a cidade, não sabe. (...) Isto são histórias que toda a gente conhece desde as primeiras letras, mas ao viajante não fica bem inventar outras. (...)




Em Évora há, sim, uma atmosfera que não se encontra em outro qualquer lugar; Évora tem, sim, uma presença constante de História nas suas ruas e praças, em cada pedra ou sombra; Évora logrou, sim, defender o lugar do passado sem retirar espaço ao presente. (...)




Metade de Évora ficou por ver, a outra metade sabe-se lá. Mas o que ao viajante causa impressão, perdoe-se-lhe a ideia fixa, é que tudo quanto viu (tirando as muralhas e o tempo romano) ainda não existia no tempo do Sem Pavor nem sequer dos revoltosos de 1383. O viajante acha que tem muita sorte: alguém lhe conquistou um bom sítio para construir esta Évora, alguém a levantou, alguém a defendeu, alguém lutou por que as coisas fossem assim e não de outra maneira, tudo para que pudesse aqui regalar-se de artes e ofícios. Agradece em pensamento ao Sem Pavor, apesar de não lhe perdoar a rapariga degolada....”

José Saramago, in Viagem a Portugal, 2ª edição, 1985


A crónica do viajante desta vez não é minha (nem poderia), é de Saramago . Agradeço-lhe aqui as palavras, estas e outras ensinaram-me a Ler e a Ser.

Até sempre!