Hoje o dia acordou limpo, azul, esplendoroso!
“Ela podia continuar a impressioná-los (aos turistas), o raio desta velha cidade, e Brunetti, seu verdadeiro filho, com um sentimento de protecção em relação a ela, já de idade tão avançada, sentia uma vaga de orgulho e prazer misturados, e esperava que aquelas pessoas que passeavam por ali pudessem ver e de alguma forma pudessem reconhecê-lo como veneziano puro e portanto, em parte, herdeiro e dono de tudo aquilo.”
(in Morte e Julgamento, Donna Leon)
É assim que Donna Leon se refere ao dualismo venezianos / turistas. Os primeiros vêem as suas vidas reduzidas aos interesses comerciais da cidade que se veste para se alimentar dos turistas, esquecendo-se dos que lá moram; os segundos invadem-na, sujam-na, usam-na como se elas lhes pertencesse, para depois voltarem às suas vidinhas, longe dali.
Este é dos poucos excertos em que ainda luz alguma simpatia no olhar do Guido Brunetti, porta-voz do ponto de vista da autora.
Ao contemplar a Sua beleza, fui certamente turista. Mais uma estrangeira embasbacada, disparando fotos e quase tropeçando nos venezianos, sem os ver.
Por outro lado, quanto invejei os venezianos e percebi o desejo íntimo de Brunetti, porque a impressão causada por Veneza não se repete diariamente, e nunca a poderei abarcar na totalidade porque não sou sua herdeira.
Tentámos na manhã deste 3º dia em Veneza disfarçarmo-nos de venezianos (como se tal fosse possível) percorrendo logo pela manhã (que é como quem diz...) dois dos campos certamente mais belos e vivos da cidade, ambos situados em Dorsoduro: Campo Santa Margherita e Campo San Barnaba.

No primeiro percorremos com os olhos e o olfacto as bancadas de peixe e frutas; no segundo encontrámo-nos frente a San Barnaba com o nosso amigo alentejano António - e “sus muchachas” - que igualmente extasiavam perante tanta beleza, antes de partirem para um cruzeiro pela Grécia, os finórios!
Armados em seguir as pisadas dos venezinos (e Guido Brunetti também o frequenta) fomos logo antes de almoço deliciar-nos com os gelados do café Paolin (em Campo San Stefano, já em San Marco), conhecido pelos seus maravilhosos gelados caseiros. Era verdade, desta vez o minúsculo guia não se enganou!

Pelo caminho , até ponte Accademia, há sempre algo a admirar...


Vista da ponte Accademia


Istituto Veneto di Scienze Lettere ed Arti
E pronto, a partir daqui estragámos tudo, fazendo o que certamente os locais jamais fazem: sentarmo-nos numa gôndola e percorrermos meia hora de exíguos e poucos canais, disparando com ar de parvos fotos atrás de fotos, quais japoneses boquiabertos (Donna Leon está sempre a rebaixar os pobres dos japoneses!).

A "nossa" gôndola
Nós, na dita
Como éra
mos 8, conseguimos uma redução de 10€ e lá vogámos pelas águas, fugindo aos estipulados e consensuais 80€, pagando, portanto, apenas (!?) 70!!! Entrando na pele de turista, é fácil não chorar a choruda quantia, porque pensamos “é uma vez na vida” ,”Veneza é única”, etc. De facto, o passeio é único, porque só no seio daqueles fios de água, é que é possível ver o outro lado de Veneza, lado esse que significa contrastes: opulência, poluição, beleza, salitre e bolor, riqueza, decadência...
Traseiras do Teatro La Fenice
O breve passeio dá ainda lugar a enfiarmo-nos pelas águas mais largas e agitadas do Grande Canal, penetrando na confusão aquática do sui generis tráfego, e admirando a riqueza das fachadas dos palazzos , como o hotel mais rico de Veneza ou, lá longe, a casa de Peggy Guggenheim, nos nosso planos de visita.

O hotel mais caro de Veneza

O tráfego no Grande Canal

Dali, quer queiramos quer não, todos os caminhos vão dar a San Marco.
“Os pombos, normalmente estúpidos e odiosos, pareciam-lhe (a Brunetti) quase encantadores, quando se sarcoteavam aos pés dos seus inúmeros admiradores (os turistas)” (ibidem)

E, uma vez em San Marcos, para além de fazermos como os demais e chocarmos com os pombos, também decidimos fingirmo-nos clientes do café mais caro da praça e da cidade: o Florian.
“Ele subiu os três degraus baixos e atravessou a porta de vidros duplos e trabalhados do Florian”. (ibidem)


Se Guido e Barbara ainda lá beberam um café, no tempo das liras- hoje 6,50€ - nós ficámo-nos por atravessar a porta de vidros, admirar as salas e eternizar o momento nas câmaras, gozando ainda da música que saía do pequeno palco acetinado da esplanada.
O resto do dia não chegou para tanto contemplar , tanto querer conhecer. Aliás, se muitos turistas consideram que as férias são sinónimo de descanso, eu partilho da opinião do meu colega LSeco, autor de “Fotoviajar”: viajar é sempre um stress, porque o tempo não chega para abarcar tanta coisa.
Veneza pode ser um stress, porque a cabeça gira a tudo querer ver, querer conhecer e às tantas os pés recusam-se a caminhar.
Este dia foi assim, repleto de emoções de cantos e recantos, gente, sol, beleza, cansaço com um sorriso nos lábios, sofrimento prazenteiro e masoquista...
“Hard Rock Café” para um café depois do almoço.
Visita à Biblioteca Corrier, Rialto e zona comercial, Canarregio, Fondamenta Nuove, Campo San Giovanni e Paolo...




Em cada "CAmpo" há sempre um poço, verdadeira obra de arte
....voltas e mais voltas nos enredados fios de ruas e canais venezianos.
A piazza de San Marco preparava-se para uma passagem de modelos a decorrer à noite, mas o cansaço venceu-nos uma boa meia hora antes e declinámos o convite do município.
Amanhã há mais, há momentos em que tanta beleza também cansa...