domingo, 2 de janeiro de 2011

Ano Novo, vida Nova?


No início do ano, diz a tradição (ou superstição) , deve estrear-se uma peça nova de vestuário. Não vou dizer qual, mas estreei uma. No início do ano, diz a minha tradição, deve ir ver-se o mar. Estive lá perto e não o vi. No início do ano, deve começar-se por fazer algo que se quer repetir durante o resto do ano. Diz quem? Digo eu, outra vez!
Por isso, como me custou separar-me da casinha, horas antes, sem o mar e sem outros elementos pessoais e íntimos, por que não ficar em casa na casinha?
Para quem não entende de enigmas, descubro o véu: a solução é sentarmo-nos na nossa autocaravana (sem GPS, afinal estamos na nossa terra que conhecemos como a palma da mão), conduzir até ao local onde gostaríamos de pernoitar e dormir lá! A ideia era boa, só havia um senão: o local eleito era o ponto de encontro do fogo de artifício, do champgne, das buzinadelas, da euforia, da gritaria. Foram 5 minutos de confusão, de urras, já está , “viva o ano novo”, enterremos o velho, melhores dias virão (?!) e ala que se faz tarde até um poiso mais sossegado. Ao lado dos Arcos (N38º 34.578 W 7º 54.889 ) , ouvindo de madrugada os sinos místicos dos Cartuxos, que tal?
Pronto, espero com isto prenunciar boas e muitas viagens para o ano tão badalado como crítico, ou quererá isto dizer que não sairei mais do que 5 km de cada vez?

Escapadela romântica a Monserrate


O Pai Natal foi generoso: depois da câmara fotográfica, foi a vez do GPS. Já podemos, pois, ser 100% amáveis com os nossos seguidores, guiando-lhes/vos os passos com precisão, para além de lhes/ vos ilustrar as palavras com as devidas imagens.
Para início de ano aqui vos deixo o final de 2010 deste viajantes, entre rastos amarelos de GPS recém-estreado e o verde romântico de Sintra (Cintra ainda no século XVIII). Não admira que Eça tanto a apreciasse e a elevasse em títulos e tramas (O Mistério da Estrada de Sintra) e em fugazes momentos de recreio na acção central amorosa entre Carlos da Maia e Maria Eduarda (em OS Maias). Também nós (apesar de em nada me poder comparar com o grande Mestre...) volta e meia não lhe resistimos. Como é possível, a escassos quilómetros do bulício de centros comerciais, auto-estradas e pontes, que Sintra ali continue parada no tempo, verdejante, fresca, intacta? A avaliar pelo número de turistas – alguns apeando-se na estação apeadeiro – não éramos os únicos a ter boas e salutares inspirações. Para quem vem de Lisboa há , pois, essa possibilidade de percorrer o caminho da grande cidade até ao verde, via linha férrea. Para quem, como nós, viaja de casa às costas, é mais confortável entrar em Sintra e poisar a casa, por exemplo, no Parque do Rio (“novas “ coordenadas: N 38º 47.796 W 9º 23.278) e fazer o percurso a pé ou de autocarro. Cultural e historicamente falando, os palácios são um dos grandes motivos de qualquer visita a Sintra: logo no centro da vila, o palácio da vila. Saindo da vila , logo ali à esquina, a Regaleira, depois Seteais, mais longe, (se for a pé ) a Pena e o Castelo dos Mouros. Mais longe ainda (4 km a pé), o parque e palácio de Monserrate, o eleito desta escapadela. Nós apanhámos o 435 (2€ por pessoa ida e volta) , de meia em meia hora, e lá fomos, curvas acima. O dia estava incerto, entre o sol tímido e a chuva densa e chata, mas mesmo assim conseguimos apreciar o denso verde.

À entrada de Monserrate, 17 € bilhete familiar (ou 5 € individual). Virando logo à esquerda, seguindo a seta “Cascata” ,
antes que chova e não se visite o exterior , a paisagem é tipicamente romântica: densa vegetação, espécimes botânicas exóticas e de vários pontos do mundo, cheiros distintos, lama a escorrer pelos trilhos escusos e sempre a descer... enfim, a perspectiva singular de um milionário megalómano e com gosto, Mr. Cook. Certamente, se fosse deste tempo, seria uma espécie da moda, um acérrimo defensor do meio ambiente, um aristocrata verde! Exemplos de exotismo são: o jardim do México, do Japão, o Arco Indiano, árvores e arbustos da Nova Zelândia, África, Austrália, ...e tudo com grande detalhe e rigor britânicos...


Ao que parece até o sistema de rega do grande relvado foi ímpar em Portugal, conseguindo a proeza de a manter verde todo o ano.



James Cook, 1º Visconde de Monserrate, adquiriu o espaço em 1856, já depois de um outro inglês (Wiliam Beckford) ter começado a criar o jardim. Cook desenvolveu-o e aplicou-se no palácio. Este, residência de verão da família Cook, é um misto de estilos, cantos e recantos, colunas, arcos, inspiração gótica, mudéjar, um estilo eclético só possível no espírito romântico. Esta excêntrica mansão passou a ser propriedade do governo português em 1949 (tempo depois de a família tudo ter vendido), para ficar ao abandono meio século, só em 2008 começaram as obras de reconstrução, ainda longe de concluídas. O espaço exterior, jardins e afins, já reluzem, mas o palácio vai andando, morosamente, até porque, o estuque em madeira trabalhado de tudo quanto é parede e tecto, deve demorar eternidades. Na cave, os azulejos azuis e brancos já reluzem e o fogão dos cozinhados da família Cook ainda lá está... No piso térreo, reluz a Biblioteca e a sala de Música com um piano de cauda. A sala de jantar, a de Bilhar ainda estão em fase de restauro. Do 1º andar apenas se olha cá debaixo até à cúpula imensa do átrio principal, imaginando-se os quartos e os aposentos de Mr. Cook... Das mobílias nada resta, a não ser um registo em vídeo e em fotografias.




Tudo o resto se imagina. O som da música no teclado do piano, o tilintar das porcelanas e o fru-fru das sedas, o sotaque cristalino do british accent (certamente igual ao da simpática senhora que por ora está na loja de souvenirs e vai falando orgulhosamente do palácio aos turistas ), o crepitar das lareiras (cada divisão possui uma) , até à pena ágil e leve do poeta Lord Byron que por ali também se inspirou. Futilidades que o Eça criticaria, mas, paradoxalmente, desfrutaria...
Cá fora o tempo não era o mais convidativo e o anoitecer prematuro e com maresia levou-nos a partir. A primavera será uma melhor ocasião para o passeio pelos recantos superficialmente explorados, os perfumes da natureza serão também mais apelativos.




Uma noite em paz no Parque do Rio, embalados pela cascata, seriam o idílio, não fossem as fortes chuvadas mesmo por cima do nosso frágil telhado, toda a noite.
Ficou a faltar o som gravado da cascata. Até ao uso e download das novas tecnologias, fiquem-se, como Lord Byron, pela imaginação... e deliciem-se com as estátuas de Sintra.






quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Dia 17- a escuridão


Estamos no Natal e a crónica que hoje revisito não tem nada de natalício. Mas como o meu espírito natalício cada vez é menos grandioso, esqueçam a primeira frase. Além disso, provavelmente por ser Natal é que não faz mal relembrar atrocidades , para que não se repitam. Por isso , continuemos com o relato das férias de Verão de 2010, antes que o ano acabe e tudo se evapore no ar ...
No nosso décimo sétimo dia de férias , estando ainda em Munique, pusemo-nos a caminho de um marco histórico, bárbaro, atroz, feio. Refiro-me a um campo de concentração, no caso Dachau, a escassos minutos de Munique, bastando para isso apanhar o comboio desde a cidade até lá. Ao que parece foi um dos primeiros , ou talvez mesmo o primeiro campo de concentração nazi. Tinha capacidade para 200 pessoas, mas, no fim da guerra, chegaram a estar lá 2.000.
Para falar a verdade, apesar de funcionar lá um Museu , como chegámos perto da hora do fecho, não aprofundámos dados históricos. Limito-me, pois, aqui, ao mais óbvio, o que lá vi e agora aqui publico já pesa o suficiente. Bastam as imagens do que ainda lá se ergue, bastam as passadas - de quem nem perto está de imaginar o que por lá se passou - ao longo das árvores agora libertas dos pavilhões ( apenas restam dois), para nos sentirmos tristes, humilhados e revoltados contra a raça humana . Na época, contra aqueles que se diziam oriundos de uma raça superior; agora, contra tantas outras que continuam a espezinhar, aterrorizar, massacrar, explorar, matar, por questões políticas, religiosas, económicas, gente da mesma raça , da mesma ou de outra cor, de outros credos, de outras ideias, ou seja, gente, pessoas, vidas.
E o Natal continua a 25 de Dezembro de todos os anos, até em Dachau deve ter continuado, pois.










sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Outra “cosa” , ou outra “nostra”, depressa!




Ainda bem que vivemos num Estado de direito, em plena e franca democracia.

É por assim vivermos que é possível o franco e ameno convívio entre republicanos, carbonários, comunistas e simpatizantes de esquerda sem filiação definitiva – amigos dos 110 anos de uma Sociedade Operária -, num espaço com decoração fascizante, certamente que reflexo das ideias de quem o habita e ergueu.




Provavelmente, num Portugal aberto, num Portugal filho da revolução pacífica das flores, num Alentejo apesar de tudo pacato, numa Évora tradicional, todos convivem e coabitam sem discórdias de maior.

Mas, convenhamos: até posso conviver amenamente, até posso tolerar A, B, ou C, mas , quando os hippies são convidados a sair, começo a ter dúvidas;




quando o Ultramar me saúda, já me coço;



e quando finalmente o Salazar me sorri lá da parede dos fundos, o caldo começa a entornar-se...






Vivamos pois em democracia, mas o meu direito de expressão e o meu direito de escolha levam-me a dizer “não” e a escolher , de futuro, outra “cosa”, ou especificando, outro restaurante ao qual possa chamar de meu ou “nostro/a”. (Claro, isto é conversa mole de alentejano pacífico, mas também é afronta, afinal sou eu que pago...

Claro que ninguém me obriga a lá ir. Mas, eu tenho o direito de poder e querer entrar. Tenho o direito e dever de achar que é uma afronta ao Portugal Democrático. E não, o estabelecimento não tem o direito de expôr tais atrocidades. Não o permite a Constituição.

Sim tenho o direito de poder reclamar, no livro respectivo se tal me der na gana...

Não, não me apetece ter tal trabalho.

Digo, portanto, “Não” a tal “Cosa”!