domingo, 17 de julho de 2011

Que rei, que demanda em Almourol?



Pé na estrada? Nem por isso.
A última vez foi em Junho perseguindo rios e águas. O Tejo, por exemplo, Almourol por que não? Nome desde logo a evocar árabes (de Almonolan, ou seja, “Pedra alta”), Almourol é uma massa de granito que, numa primeira visão parece flutuar no ar, para depois nos apercebermos que flutua nas águas do Tejo. Que mistérios ocultará? Que demandas reais, irreais, surreais? Das águas emerge Excalibur, Artur cavalga ao longo da margem…
A ilusão desfaz-se, na margem apenas a barcaça sem barqueiro, o óbolo dos vivos é meio euro e em menos de um “ai” já se está a pisar novamente terra. Uma pequena ilha, agora deserta, outrora habitada. O castelo, esse, (dizem, no mundo cibernauta), chegou a ser de D. Afonso Henriques (passou lá um fim de semana?) que o roubou aos mouros e o ofereceu aos Templários. Mais tarde, outro o ofereceu à Ordem de Cristo, assim foi passando de mão em mão, ainda hoje está na posse de outras armas (Exército Português), fiel ao rio, mirando-se nele, vendo as águas passarem, recordando sabe-se lá que misteriosas estórias, que ilusórias demandas…
É já ali, entre Barquinha e Constância, entre as águas.



sábado, 18 de junho de 2011

A voz de Saramago

A voz de Ricardo Reis (uma voz de Fernando Pessoa), pela voz de Saramago, hoje dia 18 de Junho, 1º aniversário da morte de Saramago:


"... a partir de certa idade nem nos governa a cabeça nem as pernas sabem aonde hão-de levar-nos, no fim somos como as criancinhas, inermes, mas a mãe está morta, não podemos voltar a ela, ao princípio, àquele nada que esteve antes do princípio, o nada é verdade que existe, é o antes, não é depois de mortos que entramos no nada, do nada, sim, viemos, foi pelo não ser que começámos, e mortos, quando o estivermos, seremos dispersos, sem consciência, mas existindo."

in O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago

e pela voz de um amigo que escreve por imagens: Fernando Campos.

Improviso à água




Improviso para uma fonte

Boca da terra.
Ao longe pressentida
mas discreta.
A quem te procura
entregas-te aberta.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Festas na Barquinha


Não é só na divina Constância que as festividades ocorrem entre 10 e 12 de Junho. Um par de quilómetros rio abaixo, a Barquinha (Vila Nova) também dá o ar de sua graça, não para imortalizar os versos do Poeta, mas para imortalizar outro tipo de poesia. Chama-se Festival de Animação e Teatro de Rua, e decorreu num espaço fabuloso “destoutra” vila piscatória das Tágides, no parque da vila à beira-rio, galardoado com um prémio de arquitectura em 2007.



O relvado é imenso, convidando ao passeio, lazer e divertimento.
Isto mesmo sem Festival, porque com ele as surpresas aumentam: gente que pinta caras, artesanato, cheiros das tasquinhas que espicaçam o apetite, gente que faz das árvores casa, e até duendes e cavalos gigantões.













Esta última atracção, vinda de Espanha (Carros de fer), animaram a relva e a noite da Barquinha com a poesia dos efeitos visuais.




Também hospitaleira, a Barquinha saúda autocaravanistas com uma zona de serviço inserida no referido parque (na data ocupada pela área da festa, mas não será assim todos os dias…).

terça-feira, 14 de junho de 2011

Camões escolheu Punhete ou Constância?


Não é de admirar que em Constância, vila do distrito de Santarém, debruçada no cruzamento entre o rio Tejo e o Zézere, a organização e o aprumo sejam uma “constante”. Depois que limpou o seu nome de baptismo menos próprio – Punhete -, já no século XIX, Constância enfeitou-se de esmeros. Coisas de nomes…
As ruas são limpas e a sua geografia e arquitectura organizadas, lá do alto do casario tudo pende airosamente até aos rios, o branco das casas mira-se nas águas e o verde espreguiça-se por ali afora, num clima ameno e gentil. O encontro entre os dois rios ajudou certamente a que fosse abençoada pelas Ninfas e ultrapassasse, assim, o original e infeliz nome. Camões, certamente inspirado pelas Tágides, Zéfiros (ou seria pelo maroto nome?) e outros que tais, escolheu-a como residência e, hoje, a terra retribui-lhe. Com esta, foi a 16ª edição das “Pomonas Camonianas”, à volta do 10 de Junho, claro.

A deusa do mesmo nome (Pomona), dos frutos e flores, também celebrada pelo Poeta, é aqui saudada, enchendo-se as ruas de vegetação e odores, vendendo-se, num mercadinho, flores e frutos da época.




o mercado


animado pelas gaitas de foles de "Os Gaiteiros da Golegã"

Este ano, não só a comunidade local e escolas se vestiram a rigor, como também, no seio dos desfiles, homenagens, animações, bailes e comezainas (uma “ceia do povo” oferecida - pernil de porco no rodízio), um par se casou de facto e de fato à época (ainda bem que ainda não adoptei o Novo Acordo Ortográfico, ficaria sem trocadilho).



as escolinhas do desfile




os noivos de facto e de fato



viagens no Tempo



posições (atrás, ao telemóvel...)



tecidos de outrora





os convidados do casamento




pernil de porco para a ceia do povo











danças a abrir com o casal






Lá do seu pedestal, o Poeta teceu certamente mais um conjunto de estrofes dedicado ao “fogo que arde”…



E não esquecer que a hospitalidade constanciana é também uma constante: no cimo do monte, olhando o Zézere, um largo parque de estacionamento com área de serviço para AC.




domingo, 5 de junho de 2011

BIME, a poesia das coisas pequenas







Vai acabar daqui a momentos a 12ª edição da BIME (Bienal Internacional de Marionetas de Évora). Era eu uma "teen" quando assisti à primeira... entretanto , como já uma vez referi e agora repiso, os meus filhos cresceram com ela...e nunca como neste malogrado 2011 português ela certamente se debateu com tantas dificuldades financeiras. Fez-se na mesma, mas sem dúvida com menos . E infelizmente menos qualidade, reflexos dos contingentes, já se sabe.

O PSD acabou de ganhar, a BIME a terminar. Daqui a dois anos o cenário das marionetes estará mais vivo ou vivo de ainda mais dívidas?Ou nem sequer terá cenário? Não querendo mostrar o meu pessimismo (que é sempre mais cepticista que pessimista), aqui vos deixo um dos momentos fortes desta que é a 12ª edição da poesia dos gestos, sobretudo dos pequenos, das coisas simples e belas, pequenas elas também e que nos tornam grandes, por dentro: Alex Barti Show, um dinamarquês que faz de um boneco um novo Pinóquio.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Ainda o Algarve


Ainda o Algarve, e desta vez, para finalizar em cheio, com a cereja no topo do bolo, Lagos.
Lagos tem outra aura. Outra energia. Até os mais jovens comentaram: “Isto sim, tem outro ar”. Ar, aura, energia, lá está!
A luz é mais brilhante, o rio sorri, os passeios polidos reflectem essa luz, esse rio… as pessoas são mais arejadas, as cores mais coloridas … por mais que use superlativos e provavelmente exagere, as palavras dificilmente traduzem. É Lagos e pronto, só experimentando e… repetindo.
Aqui ficam os “mais”, apesar de contextualmente contornados por uma Páscoa já passada.



Provavelmente as imagens cristalizam mais que as palavras…