segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Na peugada dos franceses





Menos interessantepaisagisticamente, mas mais rico em História, é o PR4, de nome “Pela linha da Defesa”, outro percurso a assinalar da rede de percursos pedestres do município de Proença-a-Nova. No total são 14,5 km, de Sobreira Formosa à Ponte de Alvito.
A ideia é impregnarmo-nos do espírito das invasões francesas, embrenhando-nos em trilhos escondidos e secretos, por onde as tropas do general Junot (e as nossas) andaram. Digo “embrenhando-nos” porque, no breve trecho percorrido (sim, confesso, fomos preguiçosos e não fizemos os 14,5 km), o mato era denso e certamente, há muito, pouco explorado.

  









(Ponte de Alvito)


Aventurámo-nos no sentido contrário (desde Ponte de Alvito) por ser a parte do percurso que, logo à partida, escondia um forte e uma bateria, do tempo da dita linha de defesa. 


A bateria já não existe, claro, mas percebe-se o ponto estratégico escolhido; a visão , lá de cima, abarca bem longe o possível inimigo… o mato é denso, mas rico em medronhos para saciar a fome de qualquer “soldado”.















O forte tem ainda a estrutura retangular e a visão abrangente é a de um corpo verde gigante a pulsar.


 















No percurso inverso fica a praia fluvial de Froia e as aldeias de xisto Figueiras e Oliveiras, que aqui ficam apalavradas para as próximas crónicas.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Percursos pedrestes no centro



Com sol e frio de inverno, nada como metermo-nos a caminho, a pé, por esses campos fora. Está na moda porque é saudável, mas é também uma forma de conhecer a flora, a fauna e o nosso património rico em História, cultura e vida. O nosso luso-património.
O mote é Proença-a-Nova, no “ centro do encanto” dos percursos e rotas pedestres, no “centro do encanto” das praias fluviais e aldeias de xisto, ou seja, no centro do país. Basta ir ao Posto de Turismo (ou internet) – e aproveita-se logo para colorir e refrescar os sentidos no recente parque do Comendador João Martins  - e trazer um saco cheio de folhetos ilustrativos. Depois é difícil escolher o percurso certo, tanta é a oferta.
 
Parque em Proença


Conosco, a escolha recaiu no intitulado “PR2 – os segredos do vale de Almourão “. O percurso inicia-se em Sobral Fernando, aldeia situada numa encosta a contemplar a vizinha Foz do Cobrão, ambas separadas pelo rio Ocreza, cenário idílico e místico.
Da aldeia partem vários percursos, apeteciam todos, mas a foto das “portas” de Almourão tinha-nos aguçado o apetite.


Sobral Fernando
Partamos pois. Atravessa-se a aldeia, umas ruas a subir (percurso de dificuldade média) e lá se vai por um estreito caminho sempre com os olhos postos no Ocreza e suas curvas, até se chegar às ditas portas que, afinal, se afiguraram beneficiadas pela lente mágica de um qualquer Photoshop ou assim. A garganta tinha-nos feito lembrar os caminhos míticos do Sr. dos Anéis, mas afinal o quadro era outro e de elfos nada encontrámos, a não ser que contemos as agilidades acrobáticas dos escaladores da rocha. A sobrevoar-nos, bem que podia ser a águia de Gandalf, apesar de o folheto falar em abutres e cegonhas. Lá no alto, porém, voava uma mancha negra, dominando os céus.
A duração é de cerca de 2 horas para 6,5 Km até Carregais, nós ficámos a meio do percurso, o que significa que gastámos o mesmo tempo e as mesmas solas.




 escalada
 rio Ocreza

 garganta de Almourão
 versão photoshop
 
Anoitece cedo, é a desvantagem do inverno, mas no calor de verão será uma sugestão impensável. Experimentem pois na primavera.
(Para os autocaravanistas: há a possibilidade de estacionar à beira da estrada, à entrada da aldeia Sobral Fernando. Para pernoita: o parque Comendador João Martins ( N 39º 45’09,1’’ W 00.7º 55’38,8’’   ), em Proença-a-Nova).




 pernoita

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Dornes (que poderia ser "dormes", porque a calma é um sono divinal)



Apesar de não fazer parte do rol das aldeias de xisto às quais nos dedicámos nas férias do verão e do natal, Dornes é outro local longe da civilização gritante e da correria feita de stress, onde o tempo dura e pára. As imagens são de março de 2011 e estavam algures na minha mente como se fossem de há séculos. Lembrei-me delas neste final de ano quando passei sobre a praia de Fernandaires .
Dornes é uma península; as águas são as da Albufeira de Castelo de Bode, as mesmas, portanto, de Fernandaires.

Para além das águas e do verde circundante ( o que na realidade me atingiu e permaneceu), outros dois marcos falam alto: a igreja de Nossa Senhora do Pranto com os azulejos e o seu órgão de tubos; a torre templária pentagonal.







À volta, repito, o verde das águas e dos montes e um aperitivo na varanda….


domingo, 1 de janeiro de 2012

Caminhos de xisto - Água Formosa: que perfeita sinestesia!




Uma boa maneira de terminar o ano, ou porque estava frio e era natal (ou porque era natal e estava frio), foi pisar caminhos e trilhos de outrora, entre pedras e pedrinhas, com o som dos riachos, entre o cheiro dos sargaços e o doce paladar dos medronhos.



Tudo isto na região Centro, pelo trilho das aldeias de xisto e praias fluviais.

Sabem o que é uma sinestesia? É uma figura de estilo que relaciona planos sensoriais diferentes, por exemplo, a audição e a visão, como na aldeia de xisto Água Formosa. A ode ao som da ribeira da Galega que é a música de fundo que nos acompanha ao longo do passeio pela aldeiazita que, visualmente, tem um enquadramento paisagístico todo ele formosura. Fica a poucos quilómetros de Vila de Rei, distrito de Castelo Branco, entre Sertã e Ferreira do Zêzere (N 39º 38’6’’  W 8º5’55’’).


A placa que a homenageia reza ” Esta é uma aldeia que vive de esperança. Tem poucos habitantes (que) vieram atraídos pelo som da água a correr na ribeira da Galega”, o que deve ser bem verdade; mas, para mim, encantou-me a toponímia que lhe assenta como uma luva e toda a ternura que dela emana.  A ternura do cenário envolvente, o caminho ternurento até à fonte com o nome que honra a aldeia (por um caminho calcetado e uma espécie de lagoa apetitosa para mergulhos de verão) e a ternura dos seus habitantes que, cada um por si e sem apoios de espécie alguma (sobretudo financeiros), vão erguendo paredes, desbravando terreno, cultivando  as suas hortinhas, semeando o belo e o artístico. Como nos testemunha o sr. “X”, jovem aventureiro a morar na terra, neste momento já na construção da 3ª casa, a última delas para turismo rural. Quem sabe se não esquecerei uns tempos a Casinha, para me lançar por duas noites no sonho de pernoitar num teto e paredes de xisto, ouvindo o som das águas formosas? 


 fonte



lagoa



chaminé de xisto, claro!



ruas de outros tempos


 pormenores




 casa do sr. "X"


 futura casa de fim de semana?
 
AL (alojamento local)

Não esquecer também o ar natalício da aldeia, não só nos presépios encantados dos habitantes, mas ainda no enquadramento da aldeia visto do lado da ponte. Não parece mesmo um presépio de natal?

 presépio artificial

presépio natural





ponte


(para autocaravanistas: seguir as coordenadas acima indicadas e estacionar aí – são as traseiras da aldeia, onde há uma pequena rotunda boa para inversão de marcha e estacionamento. O passeio na aldeia faz-se a pé, aliás, nem de outra forma poderia ser, o espaço é curto, só mesmo pessoas, carrinhos de mão e burros puxados pela mão).


 anda burriquito...

traseiras da aldeia

Consulte ainda: www.aldeiasdoxisto.pt


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Frida Kahlo - "as suas fotografias"



Para quem ainda não viu tudo em matéria de exposições e só até dia 29 de janeiro, no pavilhão Preto, do Museu da Cidade, Lisboa.
“As suas fotografias” é a primeira itinerância, um arquivo privado da enigmática e sofrida Frida, sobretudo de fotografias que estiveram adormecidas 50 anos depois da morte da artista. Hoje, ali, ao toque da mão, mostram, a quem a considera um mito, um enigma, um exemplo da força bruta da arte e da poesia feminina,  um outro olhar de e sobre Frida: o olhar de outros, nomeadamente de seu pai Guillermo e o seu próprio olhar sobre si mesma,  os outros e a realidade mexicana.
“…pinto a mim mesma porque estou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”.
São 257 fotografias das quais escorre surrealismo e tão somente porque o surrealismo era a sua realidade: “ pensavam que eu era surrealista, mas não fui. Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade” .







quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

"A perspetiva das coisas"

 



(individual à venda na exposição, reprodução de Fantin-Latour)
QUEM ainda não foi, é melhor despachar-se, só cá está até dia 8 de janeiro. Poderá ainda optar por fazer dela uma prenda de natal original… e barata, apenas uns meros 5 euros.
Falo obviamente numa perspectiva muito consumista, mas não se trata nada disso; a perspectiva é mais do que isso: é a das coisas, ou seja, da natureza morta na Europa, traduzida em telas e cores, básica e totalmente.
De 1840 a 1955, de um Courbet até Vieira da Silva (só para dizer que alguns portugueses também lá estão), passando por Monet, Picasso, Magritte, Dalí (meu deus, aquele telefone creme com auscultador de lagosta, foi “esculpido” pela tua mão!!!)
É incrível percebermos como a pintura se apropriou do real tão mimeticamente, no volume, na forma, na cor , na textura (e quase cheiro e quase sabor) e depois perceber que transformou a realidade e a reinventou… Por que não um hino futurista à energia? Por que não um cubismo picassiano? Por que não o subconsciente de relógios moles à Dalí?
“O que significará para um objecto ser transformado numa ordem pictórica, que género de pintura será capaz de representar a sua realidade inexorável?”
Ou ainda: Que há de mais surreal e abstracto que a própria realidade, o próprio mundo?
Questões que me bateram à porta, enquanto deslizava de um quadro para outro, de um jorro de cores e formas para outro…
Na Gulbenkian, até 8 de janeiro de 2012.


Outra perspetiva de outras coisas ... só que com vida...

domingo, 27 de novembro de 2011

Vilas alentejanas ao abandono


 


No Crato viveu e teve peso, desde 1340 até à sua perseguição, a Ordem do Hospital , mais conhecida por Ordem de Malta ( oriunda de Malta, mesmo Malta, na Itália). O Crato foi a sua sede e seu emblema heráldico assenta ainda hoje em todas as placas toponómicas das ruas e em muitas das fachadas de palácios e palacetes. Aliás, no Crato, imperam palacetes, infelizmente alguns em elevado estado de abandono, assim como outras casas menores, que, ou estão em estado crítico de venda ou em estado do mais puro abandono.

Na praça principal, a varanda do Grão Prior, o último testemunho do imponente Palácio dos Priores do Crato.


 
Frente ao Pelourinho, a casa de turismo rural, Casa do Largo.





No topo da vila, o castelo do Crato, antigo castelo da Azinheira, data do século XIII. Foi doado no século XIII à Ordem do Hospital e parece ter sido destruído aquando das invasões napoleónicas. Hoje abandonado e de branco pintado, encontra-se vedado e, segundo a população, é pertença de um particular, aguardando obras de revalorização.

A vila, num domingo à tarde, revelou-se pacata -  para não dizer quase fantasmagórica - mais um exemplo de desertificação e de envelhecimento populacional, tão ao jeito do nosso interior alentejano.

Outros pequenos pormenores, como o branco e o ocre alentejanos em declives ascendentes ou descendentes, conforme as perspetivas, encheram o olho…

Fica apenas a 22 km de Portalegre.