sábado, 2 de junho de 2012

INSIDE




Sempre tive o fascínio das JANELAS. São elas os olhos das casas e é por detrás delas que está a alma. Esta, como qualquer alma, não se vê, adivinha-se, imagina-se...Aqui há dias, porém, aconteceu-me o contrário.
Na rua, nem reparei nas janelas (que me lembre era apenas uma porta alta, forte, escura). Quando dei por mim estava dentro da alma, dentro da casa, da “casa dos espíritos”. Cada um deles tinha uma história, cada canto, cada peça, cada partícula de pó, átomo ou célula tinha uma alma.

Realidade ou ficção, os fantasmas por lá andavam, desde o século XVIII até hoje, para onde haviam de ir se aquela é a sua casa? 


Uma “casa com vida própria”, como nos disse o seu atual proprietário. E assim que ele proferiu a frase, o tule transparente dos fantasmas começou nova dança do ventre e o relógio do tempo girou à volta de três séculos de estórias.



Foram os pés dos homens pisando a uva, os tonéis a encherem-se de tinto espumoso a par das vozes dos cantadores até à alvorada.

 Foi o homem do capote que chegou e bebeu mais um copo, aquecendo as mãos no bafo do frio que das paredes e pipas escorria…

Lá fora, na despensa, as mulheres na azáfama. Os cestos prontos para a ronda, o cantil à espera da fonte, o piquenique à espera do cante, os pardais na sua gritaria no limoeiro.



Lá em cima, na cozinha, os bolos crescem nas formas, e o dono da casa, outrora com cinco anos, espera para rapar o fundo do tacho, na mesma cadeira outrora do pai, do avô, bisavô outrora.



 Na sala do fundo passa-se a ferro, uma voz canta, podia ser soprano, podia ser o piano, o vento dispersa o som, as vozes, os pardais. Os fantasmas adormecem, os santos velam pelos vivos e pelos mortos.

   Algures no Alentejo. Uma casa de vidraças viradas para dentro, uma casa de terraço virada para fora.




terça-feira, 15 de maio de 2012

Ervas de cheiro, de ver, de tocar, de comer




Há viagens que são mesmo aqui ao lado, que apesar de curtas são longas e não necessariamente menos boas.
Esta foi ao longo da ecopista de Évora, a pé, pois claro, durante 13 quilómetros, no passado domingo de maio, naquele que está a ser, por estas bandas, um verão antecipado.
Os pretextos envolvidos eram as ervas, a meta final umas sopas à boa moda do Alentejo… com algumas das ditas. Os padrinhos (freguesia do Bacelo) batizaram-na (à viagem) de “passeio das ervas aromáticas.
Partindo da dita ecopista direção Sr. dos Aflitos, a nossa guia foi-nos apresentando, através de três sentidos, ervas como:

- a soagem, mais conhecida por língua de vaca;

- o funcho, com o seu cheiro a anis e altamente digestivo (não confundir com a férula, se uma é o bem a outra o mal).



Chegados a um cruzamento embrenhámo-nos por uma paisagem mais escondida, direitos ao “secreto” aqueduto da Água de Prata, por terras da Quinta de S. Pedro adentro.
O aqueduto, por D. João III “erguido”, está paredes meias com a floresta autóctone, de veia mediterrânica, qual bosque de druidas. Apesar de não os ver, aos druidas, pareceu-me vislumbrar o horizonte do mar. Visões à parte, as árvores e arbustos – carvalhos, medronheiros, sobreiros, loureiros, gilbardeira – eram, pelo contrário, bem palpáveis.


Aqueduto da Água de Prata



Floresta com mar ao fundo...



Mais à frente, a ponte sobre o ribeiro de Pombal. O pobre corria num fio de água, inaudível, quase invisível, apesar do musgo e da frescura do ambiente.
Vulgar e abundante é no entanto a giesta brava, intrusa marroquina que por aqui se instalou e foi ficando.




o ribeiro lá ao fundo...


A humanização começa a seguir, uma quintinha escondida aqui, outra acolá. 




E eis que surge uma hortinha biológica na verdadeira aceção do termo: um “camalho”, lá dentro destroços de madeira, pedras, água, rede, terra; e de lá brotam, sem rega e pesticidas, favas, tremoceiros, tomates, couves….


Qual a fava, qual o tremoço?


O sol esconde-se entretanto, o calor torna-se mais sufocante. É o caminho de regresso, pelo menos mais 4 ou 5 kms. P’lo caminho espreitam cores naturais, civilizacionais e olhares curiosos.


As ervas de cheiro, dos herbários e das fotografias ficam para trás, falta dar uso ao 4º sentido, saboreando-as no prato, na sopa, debaixo de um teto, à sombra.
A ementa apresenta-se: massada de peixe e sopa de tomate. Cheira a orégãos, hortelã da ribeira e sabe o nariz a que mais.



Massada de peixe

Sopa de tomate


Bom proveito, colherada que vai, colherada que vem, o tinto no copo, os corpos novamente quentes, só falta a sesta… com ou sem chaparro. 




segunda-feira, 7 de maio de 2012

Adenda a "E biba o Porto!"

O meu amigo A.D. acrescentou algo às palavras de ontem, que aqui coloco para que conste:

" 
O Porto é uma das Cidades mais antigas do Mundo;

Tem a 3.ª mais bela Livraria do Mundo - Lello
Tem o 6.º mais belo Café do Mundo - Majestic
Tem um dos mais perfeitos e inteligentes edifícios do Mundo - Burgo
Tem uma das melhores salas sonorizadas do Mundo - Casa da Música
Tem o único Parque citadino do Mundo ligado ao Mar - Parque Ocidental da Cidade
Tem uma das maiores construções em ferro do Mundo - Ponte D. Luíz I
Tem um dos maiores arcos em betão do Mundo - Ponte da Arrábida
Tem uma das maiores Torres do Mundo construídas em granito - Clérigos
Temos a atleta com mais títulos conquistados mundialmente - Rosa Mota
Deu o nome ao melhor vinho do Mundo - o Porto
É portuense umas das maiores violoncelistas do Mundo - Guilhermina Suggia

Agora, a Estação de São Bento foi considerada a 16.ª mais bela Estação
Ferroviária do Mundo.

Não há dúvida de que a Cidade do Porto é uma cidade fora do vulgar !"

Portanto, digo eu, a estação de S. Bento não ocupa o 5º lugar mas o 16º!
E biba o Porto, outra vez!

domingo, 6 de maio de 2012

E biba o Porto!



DE cada vez que vou à Invicta fica-me sempre a sensação de incompletude, talvez porque o Porto seja um mundo infinito de diferenças e variedades :


















começando pela musicalidade do linguajar com os seus ditongos a subir e o seu vocabulário – carago! -; passando pelas casas sombrias e fortes; pelas largas avenidas e pelas estreitas ruelas; pelo eclectismo do velho e do novo; pela serra de prédios, pela ribeira e o Douro; pelo passeio pedestre até ao mar; pelo verde aberto do Jardim da cidade… querem mais?


Desta vez  - a anterior já foi há uns anitos, como o tempo voa – foi um passeio diferente mas igualmente alegre e inspirador. Iniciando-se pela zona da Sé , subindo a rua íngreme do Cativo   , contemplando os seus recantos e estabelecimentos de outros tempos – drogarias, ferrarias, lojas de peles, casas de luz vermelha – até à Praça da Batalha.
Também a zona comercial na rua de Santa Catarina para nos infiltrarmos no cosmopolitismo das marcas e modas (até o filho da imigrante que pedia esmola, jogava ao lado na sua PSP).

Também um salto até aos Aliados para respirar largueza e ver passar o eléctrico para a seguir contemplarmos uma das cinco mais belas estações de caminho de ferro da Europa( nas palavras de A.D, perito em viagens pelas linhas férreas ) e não resistirmos a mais um marcador do tempo e a nomes que implicam partidas e chegadas: estação de São Bento.










E, como em “Roma, sê romano”, nada como uma francesinha (não deveria ser portuguesinha?!) para tapar a boca que dá horas do estômago. Seguindo o conselho de uma filha da terra, só no “bufete Fase”, pois então, no centro , logo ali na rua de santa Catarina , em Santo Ildefonso.
Um senão portuense: estacionar autocaravanas não é o mais fácil e prático. Ao longo do rio alguns lugares e espaço, ainda assim sem ter a certeza da segurança. O parque de estacionamento da Alfandega  com sinal de proibição a AC, por isso fomos ao longo do rio até  à Foz onde a Casinha ficou todo o dia sem problemas e onde à noite dormimos o sono dos justos, para no dia seguinte acordarmos, aproveitarmos o sol numa esplanada a ver os barcos passarem e a pôr em dia as conversas do/com o  pisco (entenda-se por pisco o que quiserem, a piada é familiar , o dito pássaro palrador deve perceber se até aqui voar…).







E biba o Porto!



terça-feira, 1 de maio de 2012

Capital europeia II



De Guimarães a Braga é um pulo, quase que daquela se vê esta “por um canudo”. Entremos pois na 2ª capital europeia portuguesa, a da juventude.

Logo à entrada fomos presenteados, na Avenida Pires Gonçalves (perto do pavilhão de Exposições), com um parque de estacionamento simpático e verde, onde já várias autocaravanas olhavam o riacho em frente. Viemos a saber depois no facebook, pelo companheiro A. Resende,  que esta “zona” havia reaberto ao público AC recentemente. Em boa hora!


Dali ao centro é só subir a Av. da Liberdade e em 10 minutos estamos no coração comercial e monumental da cidade da juventude.

Aconteceu isto na Páscoa, por isso, para além das cores naturais da primavera,


a cidade enfeitava-se com a cor da paixão, com as flores dos altares de portas abertas de par em par e ainda com sons e cheiros de uma feira-quermesse logo ali, frente ao café Vianna.




Respirava-se energia que misturava juventude com o espírito da quaresma tão típico desta cidade fortemente católica. A Sé brilhava, por fora animada por canais televisivos que reportavam a iniciativa de parceria entre a polícia portuguesa e a espanhola; por dentro, decorada com flores frescas e centenas de velas. A austeridade do sacristão, para não dizer antipatia, não nos deixou, porém, captar nem uma réstia daquele brilho.
À noite, contudo, o “Ecce Homo” com as suas congregações, hierarquias, pecados capitais e virtudes, Cristos e Marias deixou-se fotografar por crentes, curiosos e turistas. Até espanhóis, como se na sua terra natal não fossem as procissões o “pão nosso de cada dia”, pela Páscoa, bem entendido.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Na fronteira entre...

 ENTRE o passado e o presente, entre Portugal e Espanha, entre a cultura e a pimbalhada.
Foi mais uma  edição da reconstituição histórica da Batalha de Atoleiros, na vila de fronteira, local onde D. Nuno Álvares Pereira, com a inovadora técnica do quadrado, conseguiu derrotar os castelhanos apesar de possuir um exército em franca desvantagem numérica.

 Para o efeito, apesar do pasto seco e não da lama histórica para honrar o nome  “atoleiros”; apesar de serem centenas a pé e a cavalo, e não os milhares a pelejar, gritar e morrer, ainda assim , em pleno campo aberto dá-se a ilusão do que poderia ter sido a batalha por  entre montes e vales. Faltam os efeitos ilusórios do cinema para fazer passar dezenas por milhares e para transformar em mortos aqueles que no teatro logo ressuscitam para aplaudir de pé.
Ao lado da batalha, reconstitui-se ainda a defesa do castelo (pena este ser uma parede e duas muralhas de cenário) e, pelo burgo fora, aquilo que poderiam ser os divertimentos da plebe: mercado de comes e bebes, artesanato, “touradas”, pregões, saltimbancos e malabares embora tudo muito ao gosto da atualidade: os deliciosos crepes, a rua dos mouros ali, lado a lado, sem rivalidades, convivendo com outras crenças e credos, e outros que tais, mais ou menos deste tempo, mais ou menos artesanais, porque volta e meia o produto chinês é mais forte que o manual e do que o nacional. A organização nesse aspeto terá que ser mais selectiva. Para além do lado mercantil, há ainda o divertimento de rua, sem dúvida a parte mais criativa e interessante de todas. Dela falarei depois de elogiar o geral e de vituperar a pimbalhada.



Comes e


 e bebes

a arte do malheiro



o forcão


A organização destes eventos recriados do passado, para quem não sabe e portanto convém esclarecer, é da companhia de teatro Viv ’arte, natural de Oliveira do Bairro, a qual prima pelo respeito às fontes e à História, recriando-A desde 1988, recorrendo a colaboradores criativos nacionais e internacionais. Ou não fosse o responsável criativo licenciado em História…
E tudo estaria muito bem, se o município comprador do evento, não resolvesse também aceitar a invasão no território da festa medieval, o vulgar e modernaço espetáculo das massas intitulado televisão comercial.  A TVI , no caso, com a apresentadora Fátima Lopes, num daqueles programas de domingo à tarde em que todos gritam, batem palmas , enquanto sons pimbas e moças armadas em semi-nuas brasileiras exibem soutiens, estrias e fartas carnes.
Se o sábado escapou à poluição sonora, o domingo, porém, rompeu as costuras com um público que fervilhava, não porque o medieval os atraísse, mas porque , do outro lado, a feira ciganal era mais forte. Assim vão as massas em Portugal, mesmo depois da revolução, a instrução ainda vai no rés do chão.
Resta-me elogiar, para além de quem fez de Fronteira aquilo que lá leva as massas em direto ou indireto, todos os criativos (alguns que não fixei os nomes), que durante dois dias animaram espíritos e imaginações:
Os “Corda Lusa”, de Coimbra, pequenos génios da música medieval com amplificadores da modernidade;

a italiana Roby   sempre à espreita de uma oportunidade para fazer voar facas e massas;

o egípcio fascinante da saia rodada;


os “Saltimbancos de Évora” e as suas esculturas corporais;


a voz forte do teatro e da lenda, vinda de Loulé;

o homem e os gansos;


os italianos de Finale Ligure (ou seria Ancona?) com as suas bandeirolas voadoras;



o bobo -ilusionista da moldura;


a dança do ventre com o encantador bailarino da máscara;

a encenação mágica dos “Guardiões do tesouro”, mais um momento Viv´Arte…

Tudo isto em dois dias (21 e 22 de abril) num ambiente que, para quem se deixa Estar e procura cumprir o programa das festas, hora a hora,  tem o condão de nos transportar para outro tempo, como se de facto, o presente se apagasse e mergulhássemos na máquina do tempo, pena os tais lapsos “demoníacos” como programas televisivos de domingo à tarde que estragam o cenário…
Pernoita – largo frente à escola primária nos braços quentes de Morfeu.