domingo, 13 de janeiro de 2013

Zarautz, conhecem?




Afinal os bascos sabem, era dia  4  de agosto, sexta feira, quase fim de semana e à noite as pingas gordas caíram, uma pequena sinfonia no teto da autocaravana.
Estavam 27º mas um céu cinzento. O fim de semana estava no ar, os bascos é que sabem.
Percurso: Zumaia-Getaria- Zarautz. As últimas duas distam uma da outra 3.800 metros que os locais percorrem ao longo de uma “ecopista” cosida ao lado do mar.
Atravessámos Getaria de carro, pareceu-nos azafamada e movimentada e não nos apetecia confusão. Vista de Zarautz , Getaria é como um rato e assim falam dela : “El Raton”. 

Já Zarautz é o reino dos surfistas e a rainha das praias vascas em extensão e popularidade. Cosmopolita, com as suas barracas às riscas (no dia fechadas porque a chuva ameaçava), geladarias, turistas, movimento…


Afinal descobri agora – quase 4 meses depois – que toda a gente que eu conheço, já conhecia Zarautz… pelos vistos, chegámos atrasados. E em má hora, porque era 6ª feira , queríamos (coisa rara) ficar em parque de campismo e estava tudo esgotado.
Estacionámos numa avenida ao acaso, desde que se pagasse, nada contra.
Zarautz é elegante, chique, ampla, limpa. Na parte velha da cidade, alguns exemplares medievais como a Torre Luzea e a Igreja de Santa Maria Real. 




O comércio é também abundante e com gosto (caro!) ; as calles simpáticas, certamente um local que não é para todos os bolsos… ainda assim pululava de gente, rios de gente. Nas praças o cheiro viciante dos pintxos, a alegre cavaqueira das conversas alegres, mas claro, antes ou depois da siesta, durante, tudo é um deserto…
E tudo isto graças (ou culpa) da rainha Isabel II, desde que aqui se instalou , nas suas férias de verão.
À hora do almoço, seguindo a intuição, estacionámos “fora de portas”, na zona desportiva. Afinal era também uma zona de pic-nic onde cozinhámos o nosso saudável almoço. Depois da siesta (“Em Roma, sê romano”), voltámos à povoação. O céu tinha evoluído de cinzento para branco, a chuva não tardaria. Bandeira amarela e “olas” de se lhe tirar o chapéu, chegavam até ao passeio. Dentro de água só surfistas e suas pranchas e dois alentejanos doidos que faziam do corpo a própria prancha…

A chuva começou. Lá longe o “El Raton” mal se via , borrifado pelo nevoeiro e pela água da chuva.
No regresso rendemo-nos a uns pintxos, só para abrir o apetite para o jantar. A montra fazia crescer água na boca, a cozinha em miniatura é um festim para os olhos e para as bocas.





Pernoitámos sossegadamente na zona de pic-nic da hora do almoço, ao lado de vários surfistas em Vans, só nos faltava a prancha…


domingo, 6 de janeiro de 2013

Zumaia, outro nome musical…




Menos de 50 km de estrada e, sempre acompanhados de um belo cenário, chega-se de Leketio a Zumaia.


Íamos na esteira do flysch costeiro, uma paisagem lunar presente em todos os guias e manuais turísticos, mas, mais do que o curioso fenómeno natural, Zumaia tem outros atrativos. E o maior de todos é o ambiente, o ar simples de veraneio, o mergulho de outros tempos saltado da ponte, aqui vou eu, como se nem houvesse praias por perto.




Mentira, Zumaia tem, pelo menos, duas belas praias. A de Zumaia, onde se exibe o vaidoso flysch. Parámos para umas fotos e, no meio do nevoeiro, fomos vendo chegar, da esplanada, os veraneantes locais. A rua até à praia parece uma rua de cidade, com o seu túnel e uma vereda de olmos, como se fossemos a ver as montras e, de repente, zás, está-se na praia imensa. Do outro lado da dita rua, a povoação. Uma ampla avenida a olhar o rio, aliás , dois rios, o Ur e o Narrondo; vivendas simpáticas e, frente ao cais, um simpático passeio fluvial.



o flysch!!!



Ao longo do caminho para peões e ciclistas uma zona para AC (N  43º 17’ 37’’  W 2º 15’ 1’’)   . Primeiro estranha-se (no meio da zona fabril), mas , com a subida da maré e o verde ali ao lado, entranha-se. Com água, área de despejos e grátis.  O caminho até à vila faz-se bem a pé ou de bicicleta .

(caminho até à zona AC)


De bicicleta até à praia mais próxima (Santiago) foi uma bela opção. Esta, sem rochas e sem flytches, é uma enorme extensão de areia, com umas belas ondas para os amantes de surf.
Antes da praia uma paragem obrigatória: o pequeno museu do pintor Ignacio Zuloage, um basco que viveu em Paris, contemporâneo de Lautrec, Degas e Rodin. A casa corresponde a uma capela tradicional basca votada ao mar e à pesca, e duas salas , uma delas o antigo atelier do artista, com coleções e obras suas e também desenhos de Goya e uma escultura de Rodin.





Contrariamente à espanhola que saía do museu-casa irritada pela insignificância da coleção, (“não há nada para ver”, disse), a mim agradou-me a simplicidade e o ar familiar do espaço. Cá fora um jardinzito… deixei-me seduzir pela pacatez e pelas teias de aranha artísticas.





Depois da visita ao museu restava um mergulho nas águas sempre surpreendentes do Cantábrico. O sol às vezes abre e sorri.
(Disseram-nos  que chovia sempre ao fim de semana no país basco, e o sol abriu…. Claro, ainda só era quinta-feira…. Os bascos é que sabem!)



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Lekeitio




O nome é musical, não é?
E a povoação também, com a sua pequena e elegante baía e a “passarelle” de madeira até à ilha de San Nicolás. 




O mar, esse, é o Cantábrico, pois então; o protagonista destas férias (em agosto passado…), azul forte e tépido, com praias de todos os géneros, para todos os tipos de gostos. As de Lekeitio são duas, pena a chuva “molha parvos” e a maré cheia que não nos deixou desfilar até à ilha.


O passado de Lekeitio é também de tradição piscatória, como Bermeo. No cais, o barco “playa de Ondarzabal” , ali “dado à costa” , depois de muita azáfama na pesca do atum e das anchovas, desde 2001. 




No casco antigo, junto ao porto, a basílica gótica e a simpática praça do Ayuntamiento. 

Quem quiser admirar melhor a simpática povoação, tem do topo um cenário impressionante: suba até ao Monte Calvário (as três cruzes são bem visíveis) e, no meio do verde silencioso, deixe-se encantar pelo cantinho traçado pelo Cantábrico.





Depois da subida, nada como um elixir vasco – um copo de txacolino numa das suas muitas esplanadas, ou, para bolsas mais modestas, que tal comprar toda a garrafa num estabelecimento local e saboreá-la dentro da AC, na confortável e simpática ASA da povoação (N 43º 21’ 30’’  W 2º 30’ 26’’ ).
A uns bons metros da vila, é considerada de 1ª categoria, à boa moda “française” e com muitos autocaravanistas franceses, como não podia deixar de ser.




sábado, 15 de dezembro de 2012

At last… a costa vasca




Tínhamos pela frente um longo percurso. Ou não, dependendo da interpretação do termo “longo”.
Na  realidade uns cento e tal quilómetros de costa, mas que, consoante a inspiração e os encantos, tanto poderiam levar muito ou pouco tempo a percorrer.
A ideia era conhecer os principais recantos turísticos seguindo conselhos de mapas, guias e livros, mas também deixarmo-nos surpreender por qualquer mágico e inesperado chamamento.
Deixando Bilbao e iniciando o percurso pela praia mais próxima, Plentzia, não se pode dizer que tivemos sucesso. Plentzia  estava , a 1 de agosto, em festa, (vimos os foguetes de longe ainda em Bilbao)mas no dia seguinte, sem que o soubéssemos, (quando se está de férias tende-se até a esquecer o dia da semana…), era feriado no país basco.
Talvez por isso e aliada ao facto de estar sol, as filas eram intermináveis e os locais de estacionamento inexistentes. Saltámos, pois, Plentzia, Armintza, Gorliz, e, irritados com a confusão, decidimos respirar em Bermeo (pelo caminho deixámos também para trás a exígua Elantxobe, lançando-lhe apenas uma espreitadela do alto do morro).
Em Bermeo, num pequeno e sossegado jardim, ao lado do cemitério (N 43º 25'23  W-02º 43' 32    ) uma zona ASA com o essencial.
Estava calor, faltava a praia. Apesar do porto piscatório e da sua ancestral tradição da caça à baleia, a praia não se vislumbrava. Uma simpática sexagenária lá nos revelou o mistério, não sem antes se perder numa longa conversa sobre o seu país - o basco, sobre o outro (Espanha), sobre a crise, a Merkell, Portugal… não me esquecerei da expressão, a propósito da atualidade revoltante e miserável em que vivemos:  “há mais chouriço do que pão” e do seu ar afável , como se nos conhecesse de há muito. Depois de uma boa  hora de conversa, lá fomos à caça (seria mais adequado “à pesca”) , da praia. Primeiro um super-relvado, cadeiras de praia, banhos e sol… seria aquilo a praia ? E o mar?


Descemos por um trilho íngreme ladeado de pequenas hortas, descemos, descemos, e, num sopé ínfimo, ali estava a Hondartza (a praia). Dá licença, desculpe, “perdon”, já agora um espacinho para pôr a toalha, dá-me licença que mergulhe e … foi certamente a praia mais pequena onde já estive, mas com água revigorante e uma soberba alcatifa em vez de areia. A praia de Aritzatxu , para que conste e a encontrem!


Já refrescados, partimos à descoberta da outra Bermeo, a do mercado, a do porto de pesca, a  dos bares e esplanadas de pintxos, a do barco baleeiro  “Aita Guria “, réplica do séc. XVIII.







Um canto pequeno, de capital importância para a região, de beleza sobretudo natural, a parte humanizada menos interessante, mas ainda assim um conjunto bem simpático.

Dias da visita: 1 de agosto


domingo, 9 de dezembro de 2012

O berço basco





Não se pode falar do País Basco sem ir ao berço da sua nacionalidade, imortalizado por Picasso no famoso quadro intitulado “Guernika”. A cidade-berço é, obviamente, Guernika…
Hoje “cidade da paz”, outrora (há bem pouco tempo, em  1937 ) a cidade bombardeada pelo exército nazi, com o acordo de Franco, o ditador homónimo do nosso (salvo seja) , Salazar.
A partir do Mestre (Picasso) as suas ruas tornaram-se também uma escola de pintura mural ao ar livre.




Mas não é por isso que Guernika é o berço. Muito antes de Picasso e muito antes do bombardeamento nazi, em tempos imemoriais, (provavelmente ainda da Idade Média) Guernika era sede de governo e foi a mãe de todos os parlamentos, mais concretamente o primeiro parlamento ao ar livre.
Ali, sobre o genuíno manto verde da mãe-natureza, à sombra de uma grande árvore, vinham dos quatro cantos,  para a difícil tarefa de decidir os destinos dos seus “pueblos”, da sua região, do seu país.

A árvore original, a Mãe, ainda lá está, depois de  300 anos de História. Já velhinha, agora é amparada e guardada pelas colunas do temp(l)o.



Em 1860 foi substituída  por outra, apesar de  Conselho se reunir já sob um teto diferente.  A mais moderna Casa de las Juntas , um misto de Igreja e de Parlamento,  ergueu-se a partir de 1826, e os seus oradores, ainda hoje se sentam sob um teto de vidro onde a antiga árvore espreita simbolicamente , pintada.




Lá fora, no jardim, a árvore plantada mais recentemente (em 2005) lá está. E, quando cair de velha, outra a substituirá. Ali , em Guernika, o berço parlamentar da nação basca.








sexta-feira, 16 de novembro de 2012

tempo de pausa por causa de uma nuvem

Eu sei que já lá vai quase um mês e as páginas teimam em continuar em branco. Não é que não existam, não. Elas estão na memória, nos diários de bordo, nas prometidas férias de verão , nas fotos. .. Muito ainda há para  dizer sobre o amado país basco  (onde estás tu, verão?....): Vitória, San Sebastian, Guernika, a costa azul, o verde, a família a sorrir sem a nuvem a pairar.
Infelizmente, a nuvem paira sobre as nossas cabeças desde 1 de novembro ,o que me impede de ter um espaço aberto para brincar com palavras e com as viagens. O mais normal também é que a Casinha deixe de rolar por uns tempos...
Quem me lê (ou lia) , espero que tenha paciência (que é a palavra que mais ouvimos nesta nuvem que nos sobrevoa), o " tempo tudo cura" (outras que ouvimos amiúde...).

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Impressões de portas




Toca ao longe uma gaita de foles, pode ser Irlanda, pode ser Astúrias, pode ser um qualquer reino da fantasia, da realidade , do passado ou do presente.
O som vem de dentro de uma porta, daquelas que parecem ter olhos em, no entanto, não são janelas, são portas.
Quase o mesmo, dirão. Não, a porta abre-se  e deixa entrar as vidas, encerra-se e, lá dentro, há outras vidas que não se vêem cá de fora. As janelas nem sempre se abrem.
Esta tem ar de olhos, é certo, mas quem lá vive ou viveu, abri-la-á?

(Vila Real de Sto. António, Portugal)

A gaita de foles calou-se num sopro de carnaval.

É a vez de um piano suave, azul marinho, com gente feliz lá dentro.


 (Hondarribia, País Basco)

E gente de tempos tão idos que sonhamos com a tela do cinema, rei Artur, Excalibur, cavaleiros e anéis de poderes mágicos…
A gaita de foles enche o ar novamente...

(Burgos, Espanha)

O passado, o presente. Pode ser ontem, pode ser hoje.
A porta abriu-se…

(Burgos)


 e logo se fechou.