segunda-feira, 15 de junho de 2015

Lago e música, vinho e tomatada , sem esquecer a aldeia mais bonita de Portugal e arredores



Às vezes há improvisos e decisões inesperadas que podem ser mais felizes que uma planificação bem projetada e delineada.
De repente “Vamos !”, e eis que fomos na disposição de ver algo inovador e criativo. Um concerto no Grande Lago do Alqueva , literalmente no lago ! O anfitrião seria o grande barco “O Guadiana”, o seu terraço serviria de palco à Orquestra Clássica da Universidade de Évora. 


Concerto à noite




Raios laser




Artes plásticas, obra de um ex-aluno que redescobri


 Ensaios à tarde




No espelho de água refletir-se-iam o barco, as luzes, o som, as cores e formas. E assim foi na sexta-feira passada, um espetáculo organizado pela Escola de Artes da Universidade de Évora, com o apoio da Câmara Municipal de Portel.
A partir das 21.30 (pena foi o frio que se fez sentir) a dita orquestra tocou de lá, do grande lago, para o lado de cá, em terra, onde poucas dezenas de pessoas assistiam. Uma outra orquestra, a de sopros, tocou depois num palco frente ao cais onde iates azuis e brancos baloiçavam ligeiros. O frio arrepiou, mas a ambiência e a originalidade do espetáculo tudo superaram.
 Assim como o vinho tinto da Ervideira, assim como a tomatada com ovos, na autocaravana estacionada. A única por aquelas bandas.


Noite cerrada foi percorrer os poucos quilómetros até Monsaraz, no seio do escuro que, no dia seguinte acordou cinzenta e opaca, a paisagem lembrava a Noruega, talvez uma visão de quem nunca lá esteve e de quem não está habituado a ver aqui tanta água.



Quando o sol espreitou, voltou a ser Alentejo naquela que indubitavelmente é uma das mais belas aldeias do mundo…

Há melhor “museu aberto” que este? Melhores cores que estas? Melhor poesia visual que esta?



Se calhar também podia ser África








A antiga escola transformada em Wine shop... tudo no Alentejo se rende ao palato








 
 A lareira da escola primária







sábado, 13 de junho de 2015

O barato sai caro ou ainda a discriminação de cães



Estava calor aqui onde moro. Quase 40 graus e era apenas início de junho.
Nada como ir refrescar um pouco mais a norte. Portugal é pequeno, mas poucos quilómetros a norte e a coisa pode implicar menos 10 graus no termómetro. Na Foz do Arelho assim era: fresco alternado com calor, mas não este calor. Nevoeiro também e , à noite,  casacos , meias e cobertor. No Alentejo mais 10 graus!
De facto, a publicidade sobre a nova área de autocaravanas em Foz do Arelho, mesmo em frente à Lagoa de Óbidos tinha cá chegado, mas não conhecíamos. Na segunda ou primeira linha de estacionamento a água da lagoa está sempre lá à espreita, e ainda há casa de banho, tanque, lava-loiças e churrasco. Tudo pela simpática quantia de 3 € dia.





 A vila fica a poucos metros da foz mas sem nenhum Arelho, assim como a foz, antes de desaguar no Atlântico, passa pela lagoa que  ainda fica longe de Óbidos…
A vila é rica em alguns palacetes, fruto de no passado ter sido estância balnear de algumas personalidades ilustres e abonadas, uma delas Francisco Grandella, que chegou ali a deixar a sua marca com a construção da escola primária e por isso hoje tem direito a estátua.


A lagoa é apetitosa e acolhedora, os moluscos que de lá provêm também, os bares e cafezinhos têm alguma personalidade, num deles aparentemente bem simpático, no alto da praia, a ver o mar revolto e surfistas, precisamente na ala norte e assim apelidado, a personalidade era tão forte  (ironia ) que vivenciámos a nossa primeira discriminação dirigida à  nossa cadelita. Mesmo com a esplanada assente em pleno areal, vieram delicadamente pedir-nos para sair porque os animais de quatro patas não podiam estar próximos de mesas. Pena para eles, os da esplanada, fomos comer o gelado a outro sítio e nunca mais lá voltaremos.





É este o café que não aceita cães nem na esplanada, que é a praia onde não há sinais a proibir cães.




Também no parque de autocaravanas – segunda discriminação - tive de ouvir um francês refilar porque a cadela ladrava, queria ele saber se ela ladraria assim todo o santo dia… (quando foi a última vez que tive cão ? Há mais de 22 anos, de facto já não me lembrava como as pessoas podem ser ridículas e insensíveis) .

Apesar destas pequenas ninharias, o descanso foi bom, o sol e pouco calor também, os moluscos recomendam-se, o preço a pagar também… Ah! Já me esquecia (mentira!) , o pior de tudo foi termos perdido o título da autoestrada e na hora de pagar… tivemos de pagar a totalidade com o acréscimo de sermos veículo classe B. Nem me apetece redigir aqui a totalidade da cifra, apetece-me antes chorar e gritar de raiva “ só não acerto o euromilhões !!!”. 

domingo, 10 de maio de 2015

Recantos saloios



Aqui há uns anos atrás fomos ao nosso primeiro encontro de autocaravanistas. Eram mais de 50 autocaravanas Sky e a fila de "casinhas" brancas com motivos azuis , numa estrada entre Tomar e a barragem Póvoa e Meadas, foi a imagem que me ficou na cabeça.

No fim de semana passado fomos ao nosso segundo encontro, desta vez já sem Sky e sem rolar por estradas em fila, porém com o objetivo de inaugurar a área de serviço de Mafra e de estarmos com os nossos conterrâneos, também eles amantes de viagens em AC. Iniciativas desta são sempre de louvar, principalmente porque a resistência de certas freguesias e câmaras a esta forma de turismo continua a ser grande, assim,  cada área que se consegue é mais uma batalha ganha. 











A área de Mafra fica no antigo espaço de uma escola primária centenária, por isso, no pátio onde outrora crianças corriam, agora há uma zona de despejos e 3 ou 4 lugares para AC. A escola é a  sede do Clube Autocaravanista Saloio.



É claro que o encontro não albergou na área todos os participantes, nem metade lá cabia, o espaço onde ” morámos” estendeu-se pelo parque de estacionamento do Continente, assim à partida uma coisa impessoal e sem beleza especial.
O almoço, no dia da inauguração da área, foi brindado com discursos e um moscatel de honra e , claro, não faltaram os grelhados, por conta de cada um. 



Ao final do dia, a rimar com o ambiente e cenário saloios, um passeio salutar, a pé, até à aldeia típica de José Franco.  Esta aldeia é fruto do trabalho e sonho de um oleiro da terra, que aqui ergueu nos anos 50 este museu ao vivo com figurinhas de barro e profissões do seu tempo; uma aldeia em forma de presépio, um retrato em miniatura do Portugal daquele tempo. Pena que, uma visita que é gratuita não mereça a consideração por parte de muitos visitantes que em pequenos gestos, como beatas no chão, não pagam da mesma moeda a quem tão dignamente os acolhe. Merecia haver um preço fixo em vez da “garrafinha” de esmolas à saída, até porque, dessa forma,  talvez se pudesse contribuir para uma reforma no espaço que já vai sendo necessária.






A ida à aldeia era perto e bom caminho, já o mesmo não sucedia com a histórica vila de Mafra. Uns bons três quilómetros fizeram-nos desistir de ver de perto o grande bloco de pedra branca, ex-libris e cartão de visita da vila, o Palácio Nacional de Mafra. Além disso, a visita não seria novidade, noutras andanças que não estas viagens de casa às costas, a mesma já se realizou e bisou. Deixámos, portanto, de parte, o grande monumento mandado erguer por D. João V para pagar a promessa da gravidez de D. Maria Ana de Áustria , sua esposa e rainha, e dedicámo-nos a um espaço mais aberto, igualmente fruto caprichoso de sua magnânima Majestade. Refiro-me ao seu espaço particular de caça e de veraneio, as dezenas de quilómetros de terra intitulada “Tapada de Mafra”.

Flora e fauna constituem uma riqueza tremenda, tudo visitável e podendo ser usufruído por qualquer cidadão, em todo o tipo de visitas: pedestres, em comboizito, em carro elétrico, com guia ,sem guia. 






Logo à entrada, no parque de estacionamento, uma hospitaleira receção com um farto javali habituado a conviver com seres de duas patas. O nosso serzinho de quatro patas teve de ficar encerrado na casinha, o instinto de caça é mais forte e ainda por cima o javali chamava-se Bacon…




Optámos pela visita mais rápida – de carro elétrico – e tivemos o privilégio de uma visita VIP… éramos os únicos clientes àquela hora…

Os habitantes do parque são  várias espécies : aves de rapina (e espetáculo que não vimos, há horas específicas para o efeito e não coincidia com a nossa) , muitos e muitos javalis , sobretudo crias fofinhas vestidas de pijama às riscas; veados e gamos (infelizmente vimos apenas três , um deles que se deixou afagar, coisa rara segundo o guia… é  o meu jeito especial para animais…), texugos e cobras que felizmente não vimos.


O meu amigo gamo.




Ao lado do pavilhão de caça real , uma olaia gigante com as suas folhas roxas, também conhecidas por árvore do amor (as suas folhas são em forma de coração)  ou de Judas ( diz a lenda que, ao enforcar-se numa olaia por ter traído Jesus, as folhas teriam  chorado lágrimas de sangue).




Pavilhão de caça do rei.






Outras espécies decidiram esconder-se , nem mesmo o grande sapo que habita no tanque-piscina deu o ar de sua graça.

Atraídos pela proximidade do mar, e porque apesar de querermos inaugurar a área não o podíamos fazer, só depois da atuação do rancho folclórico, partimos em busca de outras paragens rente ao mar. Em Ericeira foi passar ao largo , já que são pouco simpáticos com autocaravanas , não nos dignámos parar , esvaziámos na área de serviço de Santana Susana /S. João das Lampas e fomos almoçar a ver o rio e o mar. Logo após a praia de Ericeira, entre duas encostas, lá muito a descer, brilha  um pequeno e simpático recanto: a foz do rio Lizandro.




 As casas de pescadores estão agora a começar a ser recuperadas e à beira da praia ergue-se um conjunto de cafés e lojas para surfistas, num passadiço agradável. À beira rio já se tomava banho, tépido por sinal e a nossa Ária inaugurou a época balnear em rio. 
Depois de almoço continuou o périplo pelas praias: da Maçã e Azenhas do Mar; mais um recanto saloio, uma aldeia em socalcos qual presépio, por onde se semearam azenhas e poemas e por onde corre um riozito em cascata que cai no Atlântico. Lá em baixo, na praia, uma piscina de hotel e antes uma outra oceânica, agora creio que a ser transformada em esplanada (???).









 Casas ao estilo Estado Novo com azulejos azuis e brancos , airosas e elegantes a olhar o mar…









Para dormir, praia Grande , num parque de estacionamento, acima do hotel da piscina. Passeio noturno e matinal pelas areias longas da praia. Para fechar o fim de semana, uma chuva traiçoeira bateu nos telhados toda a noite e o domingo nasceu choramingão e sem sol.
Retornámos a casa sempre percorrendo a costa até Lisboa, num almoço rápido ao lado de outro marco histórico, aquele onde foi assassinado o general Gomes Feire de Andrade , o Forte de S. Julião da Barra.


Almoço a ver o mar , para a  despedida...


domingo, 26 de abril de 2015

Vila Franca, a de Xira


Há locais aos quais vamos porque a sua História é rica e imensa, outros porque a paisagem envolvente é deslumbrante, outros porque amigos esperam por nós, outros… porque as contingências não nos dão escolhas apesar de já sabermos que nem a beleza nem a riqueza são o seu forte.

De Vila Franca de Xira apenas me lembrava da linha de caminho de ferro e tenuamente das palavras de Almeida Garrett  em Viagens na minha terra. Fui reler agora ; palavras sobre a Restauração e , claro, a vilafrancada. Em Vila Franca , relacionado com história e política, vi apenas uma placa anunciando que foi a primeira vila a proclamar a República.



Confirmei que a linha de comboios continua a ser é o seu ponto forte, em qualquer lado onde se esteja o som dos comboios faz-se anunciar. Não vale portanto a pena pensar em dormir numa autocaravana nos locais possíveis, ao lado da praça de touros, por exemplo, passa o comboio, mais à frente perto do cais o mesmo som e em Alhandra , perto da praia dos pescadores, novamente a linha. Quando não é a linha é a estrada de paralelos por onde circulam carros.




Melhor sítio para dormir, creio que fizemos a escolha certa, é o parque de campismo municipal. Inserido num parque verde onde também ficam as piscinas (afinal o nosso destino), revelou-se a  opção certa. Pena que logo depois da relva o intitulado parque de campismo tenha um solo menos viçoso  e anuncie um  ar  pouco cuidado e já ultrapassado, de imediato espelhado pelas caravanas residentes cobertas de ferrugem, plásticos e jardins degradados de madeira.



 Ficamos logo a desejar sair dali, mas perante a hipótese de ouvir o piar dos pássaros ao invés dos silvos dos comboios, aceitam-se os factos. Apesar da pouca beleza, foram, ainda assim, duas noites bem dormidas.


Decididos a explorar a vila que afinal é cidade , deparou-se-nos afinal um simpático cais com animação e um caminho pedonal à beira rio até à povoação de Alhandra que aproveitámos na totalidade.



Cais da Jorna




Um novo marco reluzente e extremamente apelativo é a recém inaugurada biblioteca, com o sugestivo nome de “Fábrica das Palavras”. Um bloco gigante de cimento virado para o rio, de seis andares, e com olhos grandes a ver as águas. Quem está lá dentro é banhado de luz, não só pelas palavras dos livros , revistas ou da informática ,mas ainda pela brilhante cor do rio a espelhar o céu.








Houve quem adorasse o passeio à beira rio



No centro da vila, alguns recantos com um ar simpático no que toca à restauração , nomeadamente algumas “tertúlias”, apesar de não  podermos confirmar porque não exercitámos o paladar.



Como veem, vale sempre a pena entrar e explorar, a Vila que pensámos ter pouco para oferecer , não fossem as contingências que nos lá levaram, acabou por satisfazer.