sexta-feira, 8 de abril de 2016

Algarve: (quase) do barlavento ao sotavento

Quando bisamos os lugares, sai-se de casa com a ideia que já está tudo visto.  Serão certamente umas férias para pausar, descansar e imitar os inúmeros estrangeiros autocaravanistas que fazem de Portugal o seu porto de abrigo durante todo o inverno por essas áreas e campings algarvios afora… Também é verdade que quando começámos a viajar de casa às costas, desde 2002, achávamos incrível como havia gente que conseguia estar parada tanto tempo ao sol. O certo é que, ou pela falta de sol desde janeiro, ou pelo avançado da idade (estou em crer que mais pela primeira hipótese, alternativa escolhida  que roça a ironia…) , nestas férias soube-me bem imitar os estrangeiros autocaravanistas…
Ainda assim, entre sestas, banhos de sol em cadeira, leitura de livros, umas vezes na posição horizontal outras sentada,  ainda houve tempo para que o Algarve me surpreendesse com algumas pérolas desconhecidas.


Não me refiro a Silves, onde, apesar de tudo é sempre um prazer percorrer as suas ruelas até ao castelo. 



Mesmo assim, o paladar estreou-se com uma bela tarde de limão e merengue no acolhedor e simpático Café Inglês.










Em Lagos, tirando uns momentos de sol na Meia Praia, pouco mais nos entusiasmou, apesar de a cidade ter sempre um jeito elegante e feminino.
Em Portimão nada a registar … minto, reencontrar autocaravanas do ano passado no mesmo local “ancoradas”, já com jardim e tudo, foi uma sensação de repetição que nos deixou atónitos. Sim, porque o contrário, eu em França ou na Alemanha todos os anos , de Setembro a Abril, não seria muito plausível… Ah, esquecia-me! Aqui é o reino do sol, lá não e para além disso ainda não sou jubilada (expressão espanhola para “reformada”, muito mais feliz que a tradução portuguesa).






Entre Portimão e Armação de Pêra algumas descobertas. Parar na praia do Carvoeiro, uma pequena aldeia piscatória situada na acolhedora e colorida enseada e subir até a capela. 



Daí percorrer o passadiço à beira da falésia e ir entrando nos meandros das grutas fantásticas. Cenário de ficção científica ou deserto lunar?






No final do percurso o café “A Boneca” com o mesmo nome da gruta. Local acolhedor e familiar uma vez que ali até trabalha um amigo comum…


Pernoita na já conhecida praia da Marinha, cada vez menos esconderijo de AC . Até admira como as autoridades ainda de lá não os expulsaram…
Da Marinha usar e abusar do percurso pedestre pelos algares até Benagil. Desta vez a noite iria surpreender-nos, por isso não chegámos à simples Benagil.
Outro roteiro possível : da Marinha até Nª Srª da Rocha, apesar de termos feito batota e termos ido com a casa às costas. 




Estacionámos aqui, local onde por sinal uma vez dormimos com a “velhinha Sky”.


Finalmente,  um misto de aventura e descanso: “Motorhome Park” na Falésia (a 9 km de Albufeira). Cercados de alemães , franceses, ingleses e até dinamarqueses e noruegueses ( portugueses éramos só duas famílias!!!) fizemos como eles  o dolce fare niente . Mas não só, intervalámos com novas descobertas pedestres.


Descida para a praia da Falésia 

 Pela praia até ao Alfamar ou do lado oposto até Olhos de Água. Pela falésia, lá bem no topo, quase chocando com as pássaros humanos, admirámos a flora colorida e primaveril e a extensão do areal a perder de vista… de um lado até Quarteira, do outro lado até Albufeira , Portimão, Lagos ???




No regresso só uma paragem em Castro Marim (outra vez dezenas de autocaravanistas) para irmos admirar outro cenário de outras cores e tons: os tons secos da planície bordada de águas fluviais e ecos muçulmanos. Mértola, terra de mil encantos, de branco caiada, o sol e o cheiro da primavera, as ruas quase desertas ao entardecer , o chamamento dos tempo imemoriais… Foi pena outra voz , a da realidade, nos chamar à terra. Infelizmente era hora de regressar!







Pernoitas :
. Silves (parque de estacionamento grátis ao lado das Oficinas da Câmara Municipal, perto das Piscinas)
. Lagos (ASA, 2,50 pernoita – N 37º 06’ 57’’ W 08º 40’44’’. O abastecimento de águas falhou sempre! É necessário comprar ficha para sistema “Euro-relais”, a qual se compra na receção do estádio de futebol a uma hora específica, mas nunca conseguimos .Ou não estava ninguém ou o próprio Estádio fechava. Resultado: as pessoas enchem recipientes no WC público , o qual está sempre cheio de água e com pouca higiene).
Portimão - ASA da Marina , 2,50€, N 37º 07’ 08’’  W 08º 31’ 49’’  - Bom!
Praia da Marinha –Estacionamento grátis , sensivelmente N 37º 05’ 24’’ W 08º 24’ 46’’. Tranquilo!
Falésia – ASA Motorhome Park, 8,50 €, N 37º05’ 25’’  W 08º 09’’ 37’’ – 5 estrelas !!!

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Cidade tamanho XL e cidade do “gótico”

12 de agosto



De Rothenburg à cidade tamanho XL são menos de 100 quilómetros… Peço desculpa , a cidade chama-se   Dinkelsbühl     e a impressão XL só veio depois da impressão “gótica”.
Assim que lá “aterrámos”, um mar de gente, de negro vestida, deambulava pela cidade. 


O calor era outra vez sufocante , daí que tudo parecesse pairar na névoa do quente. Mas não era ilusão, em D. a maioria vestia de negro apesar do calor e a impressão não errava: de facto, decorria na cidade um festival de heavy metal de tal modo que, muita gente gótica, sobretudo na faixa dos “enta”, invadia as ruas em hora de pausa.


Para além dos “góticos” a catedral também o era. 



Chama-se catedral de S. Jorge e trata-se de um exemplar magnífico do estilo aqui tantas vezes mencionado, frente à famosa e fotogénica Deutsches Haus, a antiga casa de mercadores de estonteante beleza graças à sua fachada renascentista.


Depois é que veio a impressão XL. À volta desta vila medieval tudo é grande: a comprida rua principal e sobretudo as fachadas de 3, 4 e mais andares , com amplas portas e amplas janelas. Fica a impressão de que, ou as famílias eram numerosas, ou não deviam nada à pequenez .





Possivelmente a habitação dos pombos...

Como tantas outras cidades desta rota, esta também revela uma planta circular, cercada de muralhas medievais e quatro torres ainda intactas, com uma rua central, a qual divide o “ovo” ao meio.


Depois de um gelado e de sermos servidos numa simpática esplanada com empregados brasileiros, rumámos até ao ponto seguinte: Nordlingen. 




Chegámos tarde (ou seria que na Baviera alemã tudo fecha cedo?): a Rasthaus, o posto de turismo e o ícone da idade, a grande igreja de S. Jorge , com a sua torre sineira “Daniel” , de 90 metros de altura e 350 degraus já estavam fechados. A “Daniel” é o grande ícone da cidade uma vez que do topo da torre os visitantes podem admirar a famosa cratera do Ries, isto é, dali ver-se-ia, supostamente, se tivéssemos subido as centenas de degraus, a extensão verde da planície, onde um meteorito caiu há 15 milhões de anos. No impacto da queda, a pedra terá atingido uma profundidade de 1000 metros e originado uma cratera de 12 Km de diâmetro !!!





A ASA ficava num sítio aparentemente agradável , cercada de verde como tudo neste canto alemão, mas na prática, a meio da tarde, o local era carregado de poluição sonora com a sua vizinha pista de Karting e ainda a linha de caminho de ferro e os incessantes comboios. Já era tarde, ficámos. Afinal a noite foi tranquila. Ao início da noite, mesmo a uns bons largos metros da torre Daniel, ouvíamos o chamamento do guarda noturno, de hora a hora, gritando “So, G’ sell, so! “ – “está tudo bem!”


Em Dinkelsbühl também usámos a área de serviço, gratuita e com serviços, enquanto visitámos a cidade ( N 49º 03’ 51’’  W 10º 19’ 38’’).

Estava tudo bem !


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Paragem no tempo

 11 e 12 de agosto

Rothenbourg ob der Tauber; “ um museu da Idade Média a céu aberto”, diz o Michelin; “ uma cidade conto de fadas”, afirmam os tabloides publicitários. Um e outros não mentem, R. é tudo isso mais um texto cheio de adjetivos e uma memória carregada de emoções.
Rothenbourg é um palco ao vivo, um cenário de filme sem necessidade de efeitos especiais. Só falta, à exceção do guarda-noturno, andar tudo vestido com figurinos da época e acreditaríamos ter recuado no tempo. Ah! E retirar os carros das ruas e praças apesar de, ainda assim, dar graças à variedade e criatividade de outros meios de transporte…



Logo à entrada, ainda atravessando os campos verdes vindos de Bad Margentheim, um cenário de outra tipologia de filme, do género saga de zombies: os resquícios de um Festival de rock, qual Sudoeste português, com campos forrados de lixo, w.c. portáteis, tendas, sapatos abandonados, roupa…
Chegados a Rothenburg há duas ofertas de parques de estacionamento para AC, um a norte , outro a  sul. Aleatoriamente escolhemos um , 10 € dia em qualquer deles (N 49º 22´14´´  E 10º 11´00´´ ), sossegado, confortável.
Depois de alojados, não havia tempo a perder tal não era a adrenalina aos pulos pedindo para visitar o burgo. A porta (das múltiplas existentes) estava aberta, aguardando-nos. 


E, tal como o nosso íntimo nos dizia, não encontrámos um ponto feio (talvez os preços, o que para bolsos portugueses não será de espantar…). Cada casa tem um atrativo: ou a cor ou as flores ou as madeiras que as adorna, ou a porta ou as janelas; cada rua apetece ser calcorreada ; 







A casa do ferreiro, uma das mais antigas.




os estabelecimentos comerciais não se limitam a ser banalmente turísticos, alguns há com um toque bem pessoal e criativo; 



as praças – naquele dia banhadas de luz e cor – dão vontade de estar e ficar, estarrecidos a contemplar como a beleza às vezes dói porque o Homem é também esta máquina imensa , criadora de beleza e esplendor. Quer-se estar e abarcar o todo começando do ponto mais pequeno ao maior, com as mãos, o olfato, o corpo todo e aposto que (ao escrever isto  lembrei-me de Álvaro de Campos…) Fernando Pessoa nunca ali esteve. Mais perdeu, porque eu senti-me mais viva, ali sentada na Marktplatz, um local único, tão especial que não admira que naquele dia fosse o eleito para o “grande dia”, com a Rasthaus de cenário de fundo ou, ao norte da praça, o atual edifício do turismo , outrora o albergue reservado os notáveis, de seu nome Ratstrinkstube, e ainda hoje admirado pelo seu duplo relógio, o de sol e o animado , a dar o ar de sua graça às horas certas, das 11 às 15 h.



Noiva "in red"...



Rasthaus



Relógio com e sem figuras animadas. 



Na rua Herrngasse ergue-se a maior dose de hotéis, todos com aspeto elegante mas sóbrio, e,  para espanto de qualquer época do ano, mormente o verão, as  duas grandes  lojas-museus de Natal. Entrámos na já conhecida “ Käthe Wohlfahrt  “ ( lembram-se da Alsácia uns dias antes?) , lamentando mais uma vez não termos uma Merkel a pagar-nos o vencimento…


Se as ruas, ruelas e praças não mostram um local ou ponto que se apelide menos bonito, a cidade-museu tem ainda um outro ingrediente para a tornar excecional: a sua fortificação circular originária dos séculos XIII-XIV. 



O tempo recua outra vez e sentimo-nos personagens da Guerra dos Tronos, qual John Snow, percorrendo passadiços, escadas e muralhas interiores felizmente sem neve e sem zombies, apesar de às vezes os nossos olhares indiscretos entrarem na intimidade dos vizinhos que, p´la calada da tarde, vêm ao terraço regar as plantas…


( O senhor que nos desculpe a indiscrição...)

Não sei quantas vezes percorri as mesmas ruas e tirei fotografias a esta casa, uma das mais fotogénicas da cidade a avaliar pelos panfletos, 

o certo é que se pudesse voltar atrás, achar-me-ia no mesmo local a desejar voltar séculos atrás para ver o guarda-noturno verdadeiro, o Pai Natal e as renas, os trovadores, o rei e toda a corte, fosse verão ou inverno, com neve nos telhados ou sol e cerveja na praça…


(todos os finais de tarde o guarda-noturno conduz visitas guiadas)



Chega de devaneios porque Rothenburg ainda lá está e qualquer viagem de avião pode levar-nos até lá num fim de semana perto do Natal. De certeza que a vestimenta será outra ,mas ela continuará com aquele ar de conto de fadas a céu aberto, parada no tempo, vestida de dama da Idade Média. 

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Um intervalo musical


10 de agosto de 2015


Ainda agora começámos a rota (a Romântica) e já estamos a desenhar-lhe um desvio. Por uma causa nobre, é certo.
A 60 quilómetros de Würzburg situa-se a pequena localidade de Treppendorf (com 170 moradores!) que, apesar de pequena e aparentemente insignificante, alberga no seu seio uma das mais importantes lojas de música da Europa, a grande Thomann.






 Centro de artistas do reino musical, este imenso 
quarteirão estende-se ao longo de 5.200 m2 e contempla a loja da música – um edifício labiríntico com todas as secções musicais desejadas e estúdios de gravação - , e ainda armazéns e uma gigantesca cantina para funcionários e clientes. À volta, as ruas envolventes têm nomes de bandas e uma singular sinalética.









Dedicámos-lhe algumas horas do nosso dia para trazermos até Portugal uma nova amiga sonora, esta:



De volta à estrada romântica , 


retomámos o nosso roteiro para no fim da tarde estarmos em Bad  Margentheim , uma vila pequena, com o seu castelo da Ordem teutónica.





 Foi apenas uma curta paragem, para esta viajante nem chegou a sê-lo porque uma estranha dor de cabeça o não permitiu. Assentámos na ASA da localidade ( N 49º 29´31´´  E 9º 47´31´´), a 2 quilómetros da  “civilização” e ficámo-nos pelo sossego, sem nada a registar, salvo um novo som no habitáculo e uma frescura que substituía os abrasadores 40 graus.