sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Galiza, A mão de Deus – parte I



Ao construir a Terra, longe de saber que, àquele pedaço, o Homem lhe chamaria Galiza, Deus afagou-o suavemente e, com os dedos, formou as Rías Baixas.

Esta lenda é, indubitavelmente, uma introdução mais poética e melodiosa, do que chegar aqui e afirmar logo que as Rías Baixas são vales fluviais invadidos pelo mar, cuja origem se deve a movimentos tectónicos que provocam o rompimento das costas e o avanço do mar. Convenhamos!

Portanto, graças aos dedos de Deus, as Rías Baixas são uma suavidade de cores, paisagens, clima, Natureza e , talvez  sem Deus se dar conta, cansado como estava de obras numa semana de trabalho infindável, as Rías Baixas – assim mesmo, no plural – abriram-se em quatro partes : a ría do indicador, ou seja, a de Muros e Noia; a ria de Arousa; a de Pontevedra e, por último, a de Vigo, sulcada pelo dedo mindinho, mas nem por isso a mais pequena .

Vindos de Portugal, o nosso périplo começou pela do mindinho (não confundir com ornamentos caraterísticos da “Guerra dos tronos”), mais propriamente por Baiona. Há muitos anos atrás, em 2002 para ser exata, até sei a data de cor, a imagem desta cidade foi conspurcada por um incidente feio e depois caricato que nos fez, até hoje, cortar relações com a cidade. Sumariamente: naquele Verão de 2002, os amigos do alheio, num restaurante, lançaram mão da minha mala quando estupidamente a coloquei nas costas da cadeira. Aprendi  -  depois me ter visto sem documentos, telemóvel, óculos e o mais grave, senti eu na altura, os rolos das fotografias de todas umas férias, justamente pelos dedos de Deus até à Corunha! -  que as costas das cadeiras se fizeram para encostar e não “enmalar” ou “ensacar”. Anedoticamente, no final do dia, já em Portugal, a própria Polícia me telefonou, do meu próprio telemóvel (!), a dizer que haviam recuperado  a mala e o seu conteúdo, à exceção da fortuna de 5€ !!!!

Faltava-nos, pois, fazer as pazes com Baiona e, começámos por nos reconciliar com um belo lugar defronte das pacíficas águas, para depois visitarmos o que os ladrões não nos deram tempo para ver. O local fica ao lado da capelita de Santa Marta, ali onde Drake, o corsário inglês, incendiou a capela como forma de se vingar por não conseguir tomar a povoação.




De Baiona abrem-se as vistas até às ilhas Estelas e as famosas Cíes, onde Drake ainda permaneceu planeando o ataque a Baiona.

Passeio marítimo

 Percorrendo o arejado Passeio Marítimo e passando pelo airoso cais, chega-se à emblemática fortaleza de Monte de Boi, onde se ergue o seu magnífico castelo de peculiares ameias. Em seu redor, num percurso de quase três quilómetros, estende-se o Passeio de Monte de Boi, pintado de soberbas paisagens e praias. De dentro das muralhas espreitam os frondosos e altos pinheiros, no seu exterior as águas espraiam-se azuis.






Fortaleza




  ilhas Estelas






No centro da vila, respira-se um “pueblo galego” que mais se parece com uma aldeia da Beira Interior, fazendo-nos esquecer que o mar está mesmo ali ao lado.  Destaca-se a igreja de Santa Maria e as ruas empedradas com as suas múltiplas tabernas. Na igreja, os preparativos para um casamento glorioso com a chegada singular dos convidados em autocarro “vintage” e uma noiva que ameaçava entrar antes do noivo…













Ainda nesta Ría do “mindinho”, elegemos uma outra praia, guiados, confesso, pela aplicação “Park4night”. Procurávamos a  área privada em Igrexário (15 € num terreno inclinado, sem luz, e fechados entre muros) quando descobrimos, na praia da aldeia Aldán, um cantinho apetitoso, a três passadas, literalmente, da praia de Vilarinho. 


Estrada, pedras, areia, mar...


Mar, banho.


A ver o vizinho de esguelha


A aldeia nada tem de extraordinário mas o cenário natural é sublime e agradável com um passadiço de madeira sempre a ver o mar. Bom sítio para pasmar, como um viajante de casa às costas merece.






os eternos espigueiros da Galiza... tal como no Minho, mas sem mar.


Para início de passeio, o primeiro dedo não esteve nada mal.

Dicas para autocaravanistas:
Em Baiona dormimos tranquilos, o local é um parque misto que nos pareceu seguro ( N 42º 6´54. 36 W 8º 50´10.428´´).
De manhã não fomos multados ( em nenhum local dizia que era proibido o estacionamento e a pernoita) , mas a Polícia veio amavelmente oferecer-nos o seguinte aviso:


Em Aldán, praia de Vilarinho ( N   42º 16´ 29.3´´ W 8º 49´22.7´´), num “chiringuito” ao lado, um local queixava-se de que as autocaravanas lhe tapavam as vistas, mas a dona do bar argumentava a favor, por motivos óbvios… 
Para primeira impressão lá senti que Espanha não difere de Portugal ao fazerem-me sentir minoria a roçar o fora-da-lei…





sexta-feira, 14 de julho de 2017

Mais perto ainda de África





Mais perto ainda fica aquele colossal rochedo, a pisar solo espanhol, no entanto, pertencente a terras de sua Majestade. Refiro-me, claro, a Gibraltar e às suas ruas inglesas, sinalética inglesa, miniaturas britânicas para quem muito gostaria de ir de AC até à longínqua ilha e não pode.















Foi a segunda vez e na verdade não há nada como a primeira. Desta vez pareceu-me mais espanhola, sem interesse e surpresas, só o lado puramente comercial de quem quer comprar com “taxes free” álcool e cigarros, que não era o nosso caso.
Subir ao monte para ver macacos também não era prioridade, por isso o passeio foi breve e pouco apelativo.

A nota mais sugestiva foi a estadia naquilo que considero boa visão comercial e turística: uma área para autocaravanas irmanada com a “área” para iates. Afinal o que muda é o tipo de “estrada”… Pela mera quantia de 6 € dia, com o rochedo por detrás e as águas azuis em redor, está-se bem e recomenda-se.






No dia seguinte, de mota, dois de nós deram ainda a volta à ilha e lá descobriram algumas curiosidades, como estas:







Não esquecer que atravessar a pé um aeroporto, depois de esperar pelo sinal verde e pelo “estacionamento “ do avião, deve ser uma experiência única no mundo da aviação e travessias de peões.



sábado, 17 de junho de 2017

Baelo Claudia, diz-vos alguma coisa? E Tarifa, a olhar para o norte de África?


Os únicos momentos desta Páscoa 2017, nos quais se conseguiu respirar fora do incenso das procissões e sentir que era o início da primavera, foi já perto de África. Seria devido à influência árabe?

Um deles, foi quando parámos no tempo e entrámos noutro espaço: Baelo Claudia. Diz-vos alguma coisa? Para os espanhóis não sei se quer dizer muito, porque até lá e para lá as indicações sinaléticas são quase inexistentes, apesar deste conjunto arquitetónico ser Monumento Histórico Nacional.


 Trata-se das ruínas de um cidade romana , importante pólo de exportação de conservas para todo o império.
O conjunto arqueológico é constituído por várias zonas: a habitacional, as lojas, mercado , fórum, termas, teatro e quatro templos dedicados a Júpiter, Juno, Minerva e ainda à deusa egípcia Isis.


 Vista do templo com África ao fundo



 Fórum








Rua principal com mar ao fundo



Teatro




Aqueduto


E tudo isto debaixo de um sol radioso, a praia Bolonia como quintal da cidade, o Atlântico como pano de fundo e África  a olhar para nós e nós para ela.




A poucos quilómetros fica a simpática cidade de Tarifa, porta aberta para Tânger , vibrante de ecos marroquinos e de praias ventosas com uma procura louca pelas atividades de windsurf e kitesurf.

Foi numa delas que ficámos, certamente a praia mais selvagem e aberta ao reino das autocaravanas e afins. Tudo gente boa a gozar o vento e as ondas: praia de Valdevaqueiros.






Se a praia por estas bandas é um banho de vento, idade de Tarifa é um banho de luz. Muita gente ao sol, esplanadas convidativas, cores árabes e de verão, apesar de o tapete vermelho não nos fazer esquecer que era época alta de procissões.











Incrível mesmo é constatar como a paisagem muda de um momento para o outro.   A culpa é da neblina (será a mesma com a qual se foi D. Sebastião?) que repentinamente tapa o monte do outro lado do mar , quando no dia anterior o mesmo monte – África -  parecia estar a um passo .
Tudo passou a branco , longínquo e África nem miragem chegava a ser… Supostamente, frente à Almedina de Tarifa,  o continente africano estaria a uma passo , mas a névoa sebastianista não nos deixou enxergar nenhum pedaço de terra a não ser a espanhola e o mar imenso.


No horizonte estaria África ...


El rei D. Sebastião por ali se perdeu… e nós também, olhando o invisível .