quinta-feira, 23 de agosto de 2018

De autocaravana nos Açores?



 vista aérea: S. Miguel


Pronto, lá estou eu a fugir à regra. Porém, não havia volta a dar. Para os Açores (no caso, S. Miguel) ou de avião ou de barco, portanto, a casinha ficou em casa.

Apesar de, assim que pus os pés em terras insulares, ter encontrado um panfleto que anunciava a possibilidade de aluguer de autocaravanas  ANC, Azores Holidays, desde 100€ dia. E, no fim do percurso, encontrei um mapa da ilha com as áreas para AC e que se resumiam, pelo menos esta, ao seguinte:


(dois lugares de estacionamento numa das praias mais badaladas de S. Miguel, com um ponto de luz, mas nada de água ou ponto para despejos).

Ainda assim apreciei o gesto.

No entanto, por entre caminhos sinuosos, povoações pequenas e poucos lugares de estacionamento nos apelativos miradouros, não me parece que S. Miguel seja o espaço ideal para circular de casa às costas.






Ficámo-nos por uma casa de pedra e cal ao bom jeito da arquitetura micaelense, numa povoação a sul, bem central para todos os itinerários (Água d’Alto, com vista para o ilhéu de Vila Franca), e por um Opel Corsa novinho em folha que nos esperava no aeroporto e que nos acompanhou durante os 600 e tal quilómetros que fizemos, ao longo de toda a ilha.


Tirando um furo no pneu provocado por um prego insular e logo remendado na oportuna bomba de gasolina, tudo foi pacífico, suave e refrescante.
Já lá vou às crónicas…

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Ribadavia, Festa da istória





Traduzido à letra, “acima do rio Avia”, mas antes disso foi “Abobrica”. Talvez palavra de origem celta como tanta coisa neste canto celta, a Galiza.

Falo dela porque ainda estão a tempo de preparar as malas e partir, já que neste fim de semana, o último sábado de agosto, se realiza a “festa da istória”. O cenário natural tão fortemente medieval da vila faz jus ao facto de esta festa ser declarada de interesse nacional.

Ribadavia chegou a ser capital do reino da Galiza, foi senhorio do Conde de Ribadavia, o sr. Sarmiento, dono do castelo que ainda hoje é ex-libris da povoação e que pode ser visitado, apesar de ser praticamente muralhas e ruínas no seu interior.



Mais interessante do que a visita ao castelo são as antigas ruas descendentes e ascendentes ainda de traço medieval, nas quais se instala a antiga judiaria (o próprio Conde de Sarmiento era judeu). 





Outras igrejas e capelas espreitam em cada esquina, largo e larguinho, sendo a mais curiosa a de Santiago com a sua porta lavrada de motivos alusivos ao popular santo.



Para além da sua beleza arquitetónica, Ribadavia é centro do famoso vinho Ribeiro e fica perto do vasto conjunto termal que percorre o vizinho rio Minho.



No meio do arvoredo, num sítio calmo e pleno de sombras, fica a ASA para autocaravanas (N 42.285599  W -8. 142880).

Do que estão à espera, caros autocaravanistas e apreciadores de recriações históricas, sobretudo se viveis perto da fronteira galega?

( Todas as fotos foram tiradas em agosto, uma semana antes da festa).

Roteiro possível de 8 dias na Galiza (Rías Altas) com um saltinho às Astúrias



A Coruña




Meio de transporte: autocaravana  (e às vezes bicicleta, com muitos e muitos quilómetros a pé).

Partida : de qualquer ponto de Portugal, por exemplo, Figueira da Foz, passando e pernoitando em Vila do Conde e Vila Nova de Cerveira.

Entrada em Espanha por Valência.

Dia 1
Santiago de Compostela (pernoita N 42º 53’ 40’’ W -8º 31’ 56.1 ‘’)

Dia 2
Betanzos
Ría de Betanzos – (pernoita Pasaxe Pedrido – N 43º 19’ 27.8472’’ W -8º 12’ 33. 912’’)

Dia 3
A Coruña – pernoita Marina ( N 43º 22’ 8.7564   W -8º 23’ 16. 44’’)




A Coruña



Dia 4

Ferrol
Pontedeume
Fragas de Ume (Centro de Interpretação)
Pernoita – Lugar Vilafail ( N 43º 23’ 46.3128’’   W -8º 4’ 36. 516’’)

Dia 5

Ortigueira
Porto de Espasante (N 43º 43´21’’ W -7º 48’ 42.696)
Viveiro
San Cibrao (pernoita – N 43º 41’ 38.0436’’  W -7º 26’  20.22’’)


Ortigueira



Dia 6

Cabo de San Ciprian
Praia do Torno
Foz
Playa de Ellas
Pernoita Atalaia Camper Park (N 43º 34’ 46.5636  W -7º 16’ 26. 616’’)

Dia 7
Playa de las Catedrais
Tapia de Casariego ( pernoita  - 43º 33' 57.2364'' W-6º 56' 45. 636)

Dia 7
Ribadeo
Barreiros , Viladaide
Lugo (pernoita N 43º 0' 16.2036  W -7º 33' 41. 688'')


Dia 8
Ourense ( termas da Chavasqueira  )
Ribadavia                
Entrada em Portugal por Monção, Ponte da Barca (pernoita N 
41º 48’27.7236    W -8º 25’ 26.724’’)



terça-feira, 21 de agosto de 2018

Roteiro S. Miguel , Açores para 7 dias e meio, independente ( quarto/ casa “Airbnb” e aluguer de carro) ( com partidas e chegadas de Água d’ Alto)




Dia 1

Aeroporto João Paulo II
Água d' Alto
Praia Água d´Alto, Miradouro do Pisão, porto da Caloura e Caloura
Ponta Delgada
Jantar: “A Tasca” (Ponta Delgada)

Dia 2

Lagoa das Furnas
Parque das fumarolas
Parque Terra Nostra
Almoço: Restaurante “Tony’s” (Furnas)
Furnas - povoação
Monte Pico do Ferro
Vila Franca do Campo (jantar Restaurante "Praia Café")

Dia 3

Miradouro do Pico do Carvão
Lagoa do Canário
Miradouro Vista do Rei
Lagoa Sete cidades – miradouro da Boca do Inferno
picnic
Sete Cidades - povoação
Praia de Mosteiros
Ponta da Ferraria
Jantar em casa
“Caloura Blues” na praia da Caloura ( Budda Power Blues e Maria João)

Dia 4

Lagoa do Fogo
Pico da Barrosa
Picnic - Praia Rabo de Peixe
Ribeira Grande (Festival Internacional de Malabarismo)
Parque Caldeira Velha
Miradouro das Caldeiras
Termas das Caldeiras
Vale das Lombadas
Praia de Moinhos (jantar “Moinho Terrace Café”)
Porto Formoso

Dia 5

Lagoa do Congro
Plantação de Chá Gorreana
Salga (miradouro)
Parque natural da ribeira de Caldeirões (picnic)
Nordeste
Ponta do Amel (Farol)
Miradouro da Ponta do Sossego
Miradouro da Ponta da Madrugada
Miradouro de Água Retorta
Povoação
Ribeira Quente (jantar “Ponta do Garajau”)
Furnas – festa no coreto
Caldeiras “by night”

Dia 6

Lagoa das Furnas (percurso à volta da capela de Nossa Senhora das Vitórias e Centro de Monotorização e Investigação das Furnas)
Poça Dona Beija
Furnas (picnic)
Miradouro de Santa Iria
Praia de Santa Bárbara e casamatas
Ponta Delgada
Vila Franca do Campo - Jantar “Atlântico”

Dia 7

Ilhéu de Vila Franca
Almoço em S. Roque – “Mané Cigano”
Ponta Delgada
Aeroporto  João Paulo II

terça-feira, 10 de julho de 2018

Num dia de Primavera, Barrancos


Barrancos fica fora de qualquer rota, lá no risco final do mapa, a olhar para Espanha e com o seu típico linguajar a tocar os dois lados do risco. Nem português nem espanhol, simplesmente; ou complicadamente, um dialeto, o barranquenho.



Monsaraz



Quando se está em Monsaraz, com aquela vista altaneira abarcando terra e água, água e terra, apetece ir em frente, quais navegadores, à procura de mais chão e, nesse caso, há que ir até ao fim da linha. Até porque o nome Noudar (ali, paredes meias com Barrancos) apetece. Há nomes assim, que nos chamam, nem a gente sabe porquê. Este talvez por revelar algum paladar…


Mas antes Barrancos, a terra das muitas cegonhas ancoradas em altas chaminés brancas, cantando e tocando castanholas sobre as vidas de quem passa. Naquele dia continuavam lá.


Também era dia de feira, a do presunto e queijos. Abastecemos o cesto e petiscámos “tapas” como em Espanha, mas com sabor a Portugal, mioleira, ovos com espargos e um copo do salutar tinto.

Estava o petisco aconchegado no estômago, faltava o caminho até Noudar. Sete quilómetros a pé não daria muito jeito, lá foi a Casinha a tremer por uma estrada de solavancos e buracos a avisar que o número sete se multiplicaria em tempo. Sete e sete são catorze com mais sete são vinte e um e ainda assim estes não chegaram, foram precisos 45 ou 50… Munidos de mapa ainda fomos parando onde nos indicavam ao longo do grande Parque de Natureza Noudar. Lá estão algumas chouças de pastores com os seus tetos de colmo parados no tempo, talvez abrigo de alguns texugos pela calada da noite. Javalis e linces nem vê-los, nem outra coisa seria de esperar em plena luz do dia com o sol a aquecer.



Lá está o verde salpicado das alvas estevas num fado constante. E o cheiro a campo….
Lá está, sem o mapa o indicar, a placa a apontar para um antigo campo de refugiados da Guerra Civil espanhola e o rio sempre ali ao lado, estando lá mas sem o estar.
E o Castelo nunca estando. Só depois de muito andar, subir, descer e curvar, aparece. Intacto por fora, quase habitado por dentro.




O guarda, com o seu sotaque cantado, lá foi cantando a sua rotina, a beleza eterna da paisagem, “além é Espanha, aquelas vacas são portuguesas as outras espanholas, aquele é o rio Ardila , o outro é uma ribeira, a de Múrtez”, mas a narrativa das origens e dos reis não a sabia na ponta da língua, “é antigo, sim senhor, muitos reis aqui passaram, são tantos que me baralho todo”. D. Dinis foi um deles, faz parte do baralho, como aquele que decidiu que as muralhas de Noudar podiam receber foras da lei, que ali podiam viver à solta e em paz, desde que contribuíssem para o trabalho colectivo da manutenção.



Mais uns cinquenta minutos pelo mesmo caminho e as giestas sempre a fazerem-nos companhia. Depois é o Grande Lago novamente e Noudar lá em cima do outeiro, parece logo ali e olha bem o que andámos para lá chegar. Mas é mesmo assim, ali está, ou parte dele, desde o tempo dos romanos.
O Grande Lago é que não estava ali, nem no tempo de D. Dinis…

sábado, 7 de abril de 2018

Fechada no tempo numa bola de vidro





Estão a ver aquelas bolinhas de vidro que se agitam e a neve dança por entre telhados e casinhas? Ou por entre um qualquer conteúdo dançante dentro da bolinha?
Esta é a imagem que se associa à aldeia sobre a qual vos quero falar. Porquê?
Em primeiro lugar, porque, erroneamente,  a tradução não é “rossio”. Pensava eu que fosse, pois tinha toda a lógica: um espaço amplo onde muita gente (e cavalos!) podiam caminhar livremente, mas em espanhol o termo “rossio” não existe.
Em segundo lugar, só poderia não se traduzir e permanecer “Rocío” o que, nas duas línguas, significa “orvalho”; no entanto, a sua proximidade com o mar e a existência da sua luz intensa, própria da Andaluzia , não me transportaram para as gotas líquidas e frescas mais propícias a um cenário de verde luxuriante.
Assim, resta a terceira possibilidade: a de um gota maior, feita de vidro, até porque a aldeia – já devem ter percebido que me refiro a El Rocío, na Andaluzia – parece parada no tempo, um tempo digno de um longínquo faroeste, sem luzes nem semáforos quanto mais redes sociais…


Ainda havia uma outra possibilidade, que se relacionaria com o seu ar místico, associado ao culto mariano que a carateriza, mas isso seria outra história e já muito badalada…




Fiquemo-nos pela imagem da aldeia sem neve e sem orvalho, mas com muita luz e sol, a aldeia que fica no fim do caminho (antes de se chegar ao Atlântico) e às portas de um outro local único ( o parque Natural Doñana), com a particularidade de se fechar numa bola de vidro temporal. Asfalto e macadame não existem, nativos de todos os dias são raros, veículos variados também, a Plaza Mayor não tem esplanadas nem arcos… o que tem então?








A impressão espiritual de centenas de irmandades ( Pesquisei! Só filiadas são 121 “hermandades”); 





etc...


a impressão arquitetónica de estarmos no México ou a impressão física de vermos sair repentinamente de uma taberna um cowboy de pistola em punho, e montar-se num ápice num cavalo e partir a galope rua afora… 



as ruas lá estão , de “albero”, a terra com que se cobrem as praças de touros, os cavalos também, são aliás o meio de transporte mais usado, ou por ali à solta, ou com seus cavaleiros ou puxando uma caleche de outros tempos.





E os habitantes? Segundo o “Google” são mais de mil, mas não se nota, especialmente à noite. Numa noite de semana santa deste ano de 2018, as luzes interiores eram escassas, as ruas quase desertas, a iluminação pública quase inexistente. Para quando as pessoas? Só lá para o domingo de Pentecostes, aí será um banho de multidões, até lá a aldeia tem quase 360 dias para viver fechada numa bola de vidro.



(Para AC: toda a sinalética anuncia proibida a pernoita de autocaravanas, no entanto, ficámos nas traseiras da Polícia Local , num “rossio” de relva sem ninguém nos incomodar, nem polícia, nem nativos, nem cowboys. De manhã um cavalo tentou abordar-me – a mim e à cadela…)

sábado, 4 de novembro de 2017

Galiza – A mão de Deus – parte III



A terceira mão de Deus, aqui representando a Ria de Arousa, revelou-se igualmente deslumbrante em termos paisagísticos.

Selecionámos dois pontos distintos, um em cada lado da mão, opostos,  mas quase olhando-se de frente; um rico pela sua história e monumentalidade , o outro pelas suas paisagens.

O primeiro, Cambados,vila considerada um museu a céu aberto, esculpida em granito, outrora rica em paços senhoriais e ruas nobres. Para além da monumentalidade , a vila é ainda conhecida pelo sabor ancestral do famoso vinho Albariño.



Será Baco ?

Admirámos sobretudo a praça de Fefiñans, onde decorria uma elegante feira de artesanato,  o seu Paço e, do lado oposto, a igreja de San Benito. 








(Aqui estacionámos, contemplando as águas )



O outro ponto serviu para retomar energias ( percorrer ruas e praças também cansa…) e relaxar. Conseguiu, como localidade, ser o local mais desinteressante e descaracterístico de todos os visitados, mas como cenário natural, composto por praias e rio ganhou a nossa simpatia. Boiro, de seu nome, praia Xardín , o local para AC ( N 42º 38’ 30’’  W 08º 53’ 49’’  ). O sítio (só depois de lá estarmos é que percebemos tratar-se do “top” dos autocaravanistas) fica do outro lado da estrada, entre a linha da praia e o rio Coroño, este último , um cenário sempre em mutação, tendo em conta as vidas das marés. 

De um lado o rio:




Do outro a praia:




Adianto já que o calor era muito, afinal na Galiza não é só chuva miudinha, por isso apetecia ali ficar e aproveitar aquela fascinante enseada rematada pela areia fina e debruada a relva. Uma espécie de “2 em 1”: praia, pinhal, podendo sempre optar-se por uma sombra ou sol, um dourado ou verde.
E tudo acompanhado de um excelente passeio marítimo, por onde esticámos vezes sem conta as pernas, a apreciar vivendas de luxo de um lado, rias baixas do outro, ao cair da tarde ou ao nascer do dia. 



Não obstante a simpatia da paisagem, conseguir um lugar para estacionar na dita área para autocaracavanas não foi fácil. Primeiro ficámos em segunda fila esperando que alguém saísse ao final da tarde, mas no entretanto, ainda tivemos de aturar a antipatia de um “companheiro” espanhol que decidiu furar a fila de espera só para ficar no lugar ambicionado. E ainda teve a ousadia e falta de ética ao insultar-nos, atirando frases xenófobas que nos enviavam de volta a Portugal. Maus ventos estes que já chegam a este grupo que na estrada acena simpaticamente e nos estacionamentos se comporta de forma incivilizada só por causa de um lugar ao sol !!!
Ouvidos de mercador para não estragar o relaxe e lá conseguimos o nosso lugar (bem melhor do que o do espanhol, por sinal!) e só depois é que percebemos o porquê de tanta procura e loucura. Supostamente, a  dita área seria paga (6 € , dia) , a emissão do ticket (estranhamente) não se faz no local mas numa rua do povoado (!?!) distante dali. Escusado será dizer que ninguém lá vai. A tarefa da cobrança passou então a ser missão da Câmara que depressa se fartou e a passou para as mãos da Polícia. Ora, este ano, parece que nem uma nem outra se interessaram pela missão , o que deu origem a que o "mexilhão" , em vez de se lixar, desta vez lucrasse de uma estadia grátis que, nalguns casos, segundo percebi e constatei, se traduziu, para muitos, em semanas. Era vê-los chegar, amigo chamava amigo e ali se fez um camping de amigos e vizinhança com almoços e jantares à sombra dos toldos e até festas de aniversário com direito a balões . .. tirando os momentos em que algum saía e outros queriam entrar e lá se gerava mais uma discussão acesa… tal como em qualquer bairro de vizinhos. 



Aviso final: à data da nossa partida algo diferente iria ocorrer na zona. A polícia veio e colocou avisos que a área entraria em obras na semana seguinte. Plantaram mais árvores e corria a ideia que iriam construir novo passeio a olhar para o rio, o que certamente roubará lugares de estacionamento. Outros diziam que provavelmente iria acabar ali o paraíso de Boiro  para autocaravanas. Desconhecemos o que sucedeu depois. Era hora de partir.