Viajar, travel, voyager... com uma casa de rodas por essas estradas fora... AC, Campingcar, motorhome: por Portugal, Europa, Mundo. Relatos e imagens de como viajar com a casa às costas.E também palavras sobre coisas que gosto...
Contudo, o seu encanto fazia dela uma cidade
procurada por muitos, imensos turistas. .. e nós.
À beira rio todos pousavam para a foto, os monumentos
que relembram a grande epopeia marítima fervilhavam de gente, o domingo de
manhã deslumbrava com um sol a chegar aos 18 graus depois do breve nevoeiro, os turistas despiam-se
felizes, “quem me dera este sol lá na santa terrinha!”
Para ver Lisboa em toda a sua plenitude nada como
um salto , a pé , no pequeno autocarro ou no elétrico 28, à grande colina onde
se ergue o castelo de S. Jorge.
Claro que também valem outras colinas onde as ruas sobem e descem
como mini montanhas russas.
E uma olhadela sempre constante aos prédios limpos, brancos, altivos, ressuscitados da poluição, dos tempos...
No castelo e noutros locais lisboetas nascem várias
formas de fazer comércio, de criar turismo, que é como quem diz, novas formas
airosas de fazer dinheiro vencendo a crise.
Com crise ou sem ela as ruas fervilhavam (era a
abertura dos saldos), eram as vésperas do final do ano e da passagem para o ano
seguinte, para o qual todos depositam novas esperanças , como se uma folha de
calendário arrancada, representasse o amanhecer de um dia diferente, repleto de
sorte e de bons ventos. Ilusões que até levam alguns a estrear uma peça nova,
nem que sejam uns collants ou peúgas, just
in case.
Há oito dias atrás fazia sol e estava calor em Lisboa, assim:
Era o fim do verão.
Hoje chuvisca e o tempo está ameno e triste. É o início do
outono.
No meu quintal a camisa branca esvoaça e Lisboa está lá longe. Já passou uma semana.
Estava calor e em Lisboa havia de tudo: muito barulho em
Belém , uma piscina fabulosa em Monsanto, e , nas ruas de Lisboa, muita gente e um fervilhar de atividades.
Experimentámos o Lisboa Week, esgotado! Tentámos um passeio
pelas ruínas romanas nas profundezas da baixa pombalina, uma fila até quase o
Rossio! Tentámos apanhar o bus, o dia da “mobilidade” tinha alterado a rota!
Deixámo-nos guiar pelas colinas. Um salto até as ruínas do
teatro romano – que calor!
Mais
um esforço e uma ida ao castelo. Fila e bilhete para pagar. Pronto, deixa lá,
fiquemo-nos pelas paisagens no início de Alfama ou por um relax no Chapitô!
(uma nuvem de palha d'aço)
Mais uma voltinha e a casa dos Bicos , a fundação já estava
fechada , nada de Saramago , só um vislumbre do seu elefante…
Não interessa, continuemos a respirar o cheiro alfacinha e
a pequeno almoçar pastéis de Belém; procuremos no Terreiro do Paço uma feira de
artesanato; na rua do Ouro a animação habitual. Lisboa está tão cosmopolita…
Subi, subi até à Avenida da Liberdade. Bolas, que calor,
nada como uma imperial, ali, no Banana’s Bar, junto ao som poético de Pacman, agora “Algodão” em vez de “Da-Weasel”.
( O rapaz gosta de cantar descalço, qual Cesária Évora...)
A noite cai. O calor continua, bares e restaurantes cheios,
no Chiado os turistas começam a descer , outros ainda querem subir no elevador, para
nós está na hora de outras paragens.
Em Monsanto tudo tranquilo. Amanhece. Outra vez piscina.
Foram o quê ? Vinte e
quatro horas de final de verão, o outono vai começar.
Costumamos
dizer à laia de brincadeira, que a nossa “quinta” em Lisboa é vizinha da do sr.
Presidente. Sim, esse mesmo, o da República, o Aníbal, o Cavaco, o do palácio
cor de rosa, ao lado dos pastéis de Belém.
A
nossa quinta é aqui (até quando, se ele o souber?) e a dele, em linha reta, já
ali.
Este
mês, como que para celebrar a República e a boa vizinhança, demos um salto à
mansão cor de rosa do tio Aníbal, não sem antes passarmos pelo Museu da
Presidência. Este foi inaugurado no tempo de outro, o Sampaio, em 2004, e nele
se guardam memórias, prendas de Estado, protocolos e visitas e ainda retratos
desde Manuel de Arriaga a Sampaio, porque de Cavaco ainda não há registo,
apenas um espaço em branco na parede do 1º andar.
O
Museu é só isto, vejamos a casa por onde todos os presidentes passaram. Antes
de mais, é preciso esclarecer que esta nem sempre foi palco de presidentes,
aliás, por algum motivo se chama Palácio de Belém, porque foi isso mesmo esde o
início, um palácio, em Belém, à beira Tejo erguido. Inicialmente propriedade de
Manuel de Portugal (amigo de Camões), em 1726 passou para as mãos da corte
portuguesa e é incrível que tenha sido a República, aquela que derrubou a Monarquia,
a fazer dele a sua residência, sede ou sala de trabalho. Creio que o facto se
explica porque a qualquer presidente do mundo se prestam honras de Estado na
esteira do beija-mão ao trono real, deve ser uma tendência natural do ser
humano, desde os contos de fadas e princesas, de se identificar com reis, princesas
e afins. A psicologia deve explicar o fenómeno melhor do que eu.
Conscientes
dessa obsessão fantasiosa, o 1º presidente negou-se a fazer dele sua residência
e sede (e até pagava 100 escudos mensais de renda), daí só em 1912 passar a
“Palácio “ da República. É claro que Salazar decidiu mudar-se para lá de armas
e bagagens. Já o nosso Aníbal, para não ser nem tanto ao mar nem tanto à terra,
decidiu continuar na sua residência e fazer do palácio apenas o seu local
oficial de trabalho. Não percebo é porque, se assim o é, um mero local de
trabalho, arraste consigo tanto séquito (=salários) num espaço que afinal até
não é muito grande: GNR, funcionários do Museu, guardas da Presidência, cozinheiras
e sabe Deus quantos (eu vi pelo menos 5 ou 6) funcionárias zeladoras das
paredes de Sua Excelência.
D. João V (no Museu nacional dos Coches)
Fora
estas considerações, apenas poderei, no entanto, divulgar os jardins, a varanda
frente às salas centrais – com a perspectiva contrária, mostrando os “vizinhos”
autocaravanistas (!!!) – porque na visita guiada de um domingo de outubro, por
questões de segurança, não são permitidas fotografias.
O outro lado da "quinta"
"- Hello!!!"- diz-nos o Sr. Presidente todas as manhãs.
Fora
de críticas à regência e à república, e tentando esquecer onde são gastos os
dinheiros públicos, enquanto exemplar arquitectónico e artístico, a visita
guiada de uma hora e pouco, até se revelou simpática e instrutiva.
Passo
a ilustrar sem fotos:
Logo
à entrada a Sala das Bicas com as cortinas azuis de veludo e o emblema pátrio
(igual ao da Monarquia mas sem a coroa…) e os azulejos e o chão axadrezado tão
conhecidos dos ecrans televisivos. Antes de ser sala era um pátio aberto - daí
as bicas – agora é espaço interior de receções e comunicações ao povo. Depois é
a sala de jantar com a mesa sempre posta, para nos mostrar como os grandes
convivem e ceiam em porcelana Vista Alegre de monograma real, talheres de
pratas, baixelas… e janela com vista para a minha “quinta”. A seguir, a Sala
Império e ao lado, na capela em forma de corredor erguida por el-Rei D. João V,
a controversa obra de Paula Rego, “O ciclo da vida da virgem”, por encomenda do
anterior Presidente. Vá lá, a inusitada pincelada da artista sempre escarnece
do politicamente correto na casa de sua Exc.. à falta de a poder fotografar,
exibo aqui apenas um estudo fora da dita capela:
Depois,
a Sala Dourada, a dos Embaixadores e finalmente a ala de D. Amélia, agora ala
do Presidente. É verdade ou não é que continuam as fantasias reais? Aliás, o quarto
de D. Amélia é agora o gabinete oficial de S. Excª. Lá está o sofá mediático e
a mesa das quintas-feiras quando recebe o “nosso” 1º.
Voltamos
ao exterior e são os jardins à moda de Versailles tão ao jeito do megalómano D.
João V. Nas traseiras e pátio, as jaulas das feras (desde leões a outros
animais exóticos, incluindo provavelmente raros pretos albinos, para delícia de
S. Majestade, a rainha D. Amélia e sua corte), e os jardins também de D. Amélia
nos quais se engaiolavam as suas colecções de aves exóticas.
O
retrato pode ser irónico, maldizente, amargo. É fruto dos tempos e da
parcialidade de quem não consegue deixar de pensar que o mundo sempre foi um
esbanjamento de riqueza, um desfile de superficialidades, um “circo de
feras” onde quem reina é o domador.
O mote foi o “Breve Sumário da História de Deus”, pelo TNSJ, do Porto (pois então!), no cartaz e palco do TND. Maria II, em Lisboa, como não podia deixar de ser.
Apesar da curta duração da viagem (menos de 24 horas), o mote deu pano para mangas.
Primeiro: estacionamento na nossa “quinta” à beira- rio (frente à residência cor-de-rosa do Presidente de todos nós - salvo seja!).
Logo, logo, um segundo pequeno-almoço saborearando os pastéis mais lisboetas de sempre.
Pastelaria "Belém"
Dali, um salto sobre as rodas de um moderno eléctrico até à Praça da Figueira, para calcorrear ruas e avenidas.
Logo uns metros mais à fentre um testemunho terrífico e agreste do passado: a igreja de S. Domingos, lateral ao Teatro Nacional.
Os destroços do interior, qual cenário dantesco, reportam a um imenso incêndio, em 1954.
Antes disso, no célebre terramoto de 1755, já a igreja tinha desabado.
A estes relatos de catástrofes naturais, associam-se ainda outros menos natura pela mão da Santa Inquisição, como autos-de – fé , onde milhares de judeus foram chacinados. Reza a história que na praça em frente da Igreja,em 1506, centenas de judeus foram queimados por causa de quatro deles que tiveram a ousadia de afirmar que um certo raio de luz, ao incidir na custódia da Igreja, teria sido fruto de fenómenos científicos e pragmaticamente explicáveis e não de um milagre. Por causa dessas blasfémias (note-se: de quatro alminhas!), milhares foram perseguidos e queimados. A homenagem ainda lá está, no dito largo .
A marca está lá e, felizmente, para amenizar o cenário e as recordaçõe s dantescas, outras marcas suavizam as mágoas…
Ainda antes do almoço, nem a propósito, a fábrica que está na origem de muitas destas imagens…
Para ganhar calorias, digo, energias, nada como um almoço num outro marco histórico da “azulejaria” lisboeta: a Portugália, outrora sede da fábrica Germânia, antes ainda cerveja Imperial. Influência germânica, num edificio Estado Novo.
Sala de refeições
A bica, essa, toma-se depois do passeio digestivo, já mais abaixo, no Hard Rock lisboeta, um marco actual de cultura e lazer, um café quase museu…
Hard Rock café
E depois há outros museus fora do tempo como a Casa do Alentejo. No rés-do-chão ecos mouriscos, mas, subindo ao 1º andar mergulha-se no estado d’alma alentejano.
rés-do-chão
Consulta-se o cardápio e apetece ficar, miram-se os azulejos e tudo respira a planície húmida e cantada. No palco , ilusoriamente assente sobre uma “mesa”, apetece representar, nas cadeiras apetece descansar, nos sofás apetece uma sesta…
Sonhando com Inês de Castro...
Sala de refeições de motivos alentejanos
o bar genuinamente alentejano
Mais uns passos e está-se no Chiado, mais uma memória de outro incêndio, porém renovada, cosmopolita, arejada.
Para jantar, nada como outra memória do passado: café Gelo, por cujas paredes espreitam surrealistas e republicanos. Daqui partiu Manuel Buiça, a fim de cometer o atentado contra a família real. Aqui se juntavam intelectuais, como Fernando Pessoa e depois Mário Cesariny, entre outros.
Ao serão realiza-se o mote e as voltas terminam. É tempo de revisitar Gil Vicente, no seu (do TNSJ) “Breve Sumário da História de Deus”. Uma preciosa encenação de Nuno Carinhas, com um elenco que faz do texto e das personagens bíblicascas uma partituta na qual as palavras tocam límpidas e melodiosas.
Fecha-se o sumário deslizando no amarelo até à quinta, para dormir com Diabos vicentinos em anjos de sono transformados.
Não foi neste eléctrico, mas num idêntico
Ao acordar, o rio, o sol tímido, as pessoas domingueiras em ténis, sapatilhas, fitness e biclas.
Foi um breve passeio transformado em breve sumário!