segunda-feira, 30 de março de 2009

Viajar na minha terra

Évora! Ruas ermas sob os céus

Cor de violetas roxas… Ruas frades

(…)

Évora!... O teu olhar… o teu perfil…

Tua boca sinuosa, um mês de Abril,

Florbela Espanca

O perfil de Évora é o recorte circular das suas ameias, e no topo, vigilante e altaneiras, o zimbório e as torres da Sé que, desde longe se avistam.


Experimente-se pois esta visão da estrada que liga o Redondo a Évora, imaginando que veio de Espanha e já passou por Estremoz, Borba (terra de bons vinhos e petiscos), Vila Viçosa, a princesita alentejana e terra natal da Poetisa.

Estacione fora das muralhas e, se quiser marcar já lugar na sua “quintinha”, terá vários pontos simpáticos à escolha. O Rossio de S. Brás, um terreiro imenso de terra batida muito concorrido por AC, mesmo em frente de uma das portas da cidade: a da rua da República (de meados de Maio até à 1ª semana de Julho, terá forçosamente de escolher outro poiso porque as Festas da Cidade – a centenária Feira de S. João – enche o espaço do habitual local de estacionamento).



Ermida de S. Brás (Rossio)



Rossio: modelo gigante



Rossio: modelo improvisado

Outras hipóteses são perto da Porta da Lagoa, ou ao lado da Porta de Avis. Menos silenciosas que o Rossio, mas a primeira com algum carisma, mesmo ali ao lado do Aqueduto da Água da Prata e da relva.

Aqueduto

Qualquer deles são meros parques de estacionamento, Évora, como tantas outras cidades portuguesas, ainda não acordou para a recepção de AC em zonas próprias e acolhedoras. Quanto a mim, já pensei várias vezes num parque completamente desaproveitado, onde ninguém estaciona, perto da Porta da Lagoa e mesmo ao lado da entrada por um arco cortado na muralha, em direcção ao Teatro Garcia de Resende. Se tivesse dinheiro, até criava ali uma zona simpática e colocaria lá uma casinha de recepção com atendimento personalizado… devaneios de autocaravanista e amante das línguas.




A zona AC sonhada...

Estacionada a AC, está na hora de partir à exploração. Exige-se bom calçado nos pés, porque as “ as ruas frades” se percorrem a pé e sempre com uma máquina fotográfica já que a cidade é vaidosa e esbelta. Se o propósito for histórico e detalhado, um gordo fim-de-semna não chegará para tanta História e arredores. Fechado entre muralhas, o centro histórico é um labirinto de ruas – ermas, frades… - por onde a História respira, desde o período romano, passando por todos os estilos artísticos e arquitectónicos: medieval, gótico, clássico, barroco…, enfim, todas as assinaturas, cores e odores.

Logo no Rossio, a ermida de S. Brás; subindo a Rua da República, à esquerda, a Igreja de S. Francisco (com a turística Capela dos Ossos) e à direita os Meninos da Graça.



Os Meninos da Graça

Depois a Praça do Geraldo e as suas dez ruas (conte-se o número de carantonhas da fonte, na Praça…). Pela 5 de Outubro, peregrinação até à Sé, Templo Romano, Biblioteca, Pousada e Igreja dos Lóios, Paço dos Duques de Cadaval, Universidade, Portas de Moura….



Praça do Geraldo

Sé catedral



Carantonha e o Geraldo (Brasão da cidade)


A toponímia eborense é outro passeio: Esta era mesmo a rua do Diogo.

Regressando à Praça, na Rua da Moeda, a zona judaica, mais à frente pela Rua de Avis, a mouraria, já para não falar de dezenas de capelas com as quais nos vamos cruzando, numa azáfama de História e religião. A par, sempre o branco e o ocre. E o sol, de preferência. Não exagere, evite o mês de Agosto, sempre são 40 ou mais graus…




Poderá sempre refrescar-se nas piscinas municipais, há 40 e tal anos atrás, um exemplo de espaço de ócio, hoje uma estrutura ultrapassada e insuficiente para a procura jovem e desportiva. Opte pois pela Primavera, o sol será mais ameno e igualmente azul luminoso, bom para apreciar paragens em algumas esplanadas, como na Praça do Geraldo; no mercado, comendo um gelado da Zoka, ou uns caracóis e uma imperial, ao lado de S. Francisco.

Para apreciar a boa gastronomia, espaços não faltam, uns para bolsas recheadas, outros para mais parcas: “¼ para as nove” e o seu arroz de tamboril; petiscos vários no “Molhóbico” (também com boa esplanada); os pequenos restaurantes na Rua dos Mercadores…; o café Alentejo; a Cascata ou se a preferência for estrangeira, o “Italiano”. Para apreciadores de doçaria conventual, o “Mel e Noz” ou outras pastelarias menos sofisticadas (Violeta) e gourmets (Boa Boca) que começam agora a nascer.




O templo, claro!


Fonte das Portas de Moura
e Palácio Cordovil

Aparte a História, caso tenha trazido o seu atrelado de bicicleta, tem ainda a possibilidade de pedalar ao longo da Ecopista, caso contrário poderá caminhar mais um pouco. A pista circunda Évora pelo lado Este, aproveitando a antiga linha de caminho-de-ferro até Arraiolos… passando pela Graça do Divor, paisagem a destacar, mesmo ali ao lado da barragem. Um salto a Arraiolos também é bom desvio, mesmo que não se comprem os famosos tapetes, é sempre aconselhável. Ou mesmo até Pavia, indo à pesca na barragem de Montargil, ou visitando o Fluviário de Mora..





O branco e o ocre

Enquanto enche os olhos do Passado, tem sempre o lado comercial, mesmo à mão de semear, na Praça dos Geraldo e ruas afins, basta seguir os anúncios…




Enquanto enche os olhos do Passado, tem sempre o lado comercial, mesmo à mão de semear, na Praça dos Geraldo e ruas afins, basta seguir os anúncios…

Ou então, fora das muralhas, o “novo”, como o bairro branco do prestigiado Siza Vieira (Malagueira), naquela que foi (já alguns anos…) uma assinatura diferente de nova arquitectura.





(Lago da Malagueira)


Culturalmente, apesar de já não ser o que era, Évora ainda sopra alguns ventos naturais: o Cendrev, companhia de Teatro profissional terá certamente algo em cartaz no Teatro Garcia de Resende, como por exemplo os imperdíveis Bonecos de Santo Aleixo, ou então, de 2 em 2 anos a Bienal Internacional de Marionetas. Este ano é ano sim, em Maio…

Fora das Muralhas, na zona industrial, a Companhia de Dança Contemporânea, ou então o Espaço do Tempo (companhia do coreógrafo Rui Horta) em Montemor-o-Novo.

Antes de lá chegar convém, porém, um desvio por o cromoleque dos Almendres ou a gruta do Escoural (neste caso, não sem antes telefonar a marcar, 266 857 000).

Mais para sul, aconselham-se outras paragens a caminho do Alqueva: as olarias de S. Pedro do Corval, Monsaraz, a marina da Amieira, aldeia da Luz…

E, para fechar o capítulo, há sempre a possibilidade de regressar em qualquer estação, quiçá a neve se lembre de cair e nasça daí um belo e incomum postal ilustrado …




(Neve em Évora, 2006)


Mais difícil será o mar, mas até Alcácer não é assim tão longe e logo ali está a praia do Carvalhal ou Troia, ou então, para se pisarem MESMO, praias alentejanas, basta seguir Évora-Torrão-Grândola que, até Sines e à costa alentejana ( Porto Côvo , por exemplo) , é só um saltinho.

Em AC há sempre esse salto que torna possível qualquer destino, com ou sem neve, com ou sem praia e, como as estações agora se trocam e baralham como as cartas de jogar, nada é impossível. Boa viagem!



terça-feira, 17 de março de 2009

Sol! Sol! Sol!



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Apetece praia, apetece rolar, apetece autocaravanar. A Páscoa está para breve, resta saber se o sol continua a chamar-nos, a aquecer-nos, a Estar.
Contudo, com ele ou sem ele, já tivemos umas boas Páscoas. Quase todas com destino a Espanha, com sol, com chuva, com neve e sempre, sempre na peugada da procissão, umas vezes desencontrando-nos delas, outras perdendo-as, por motivos como por exemplo, a chuva.
A Semana Santa em Espanha, quer se seja crente ou não, acaba sempre por exercer aquele fascínio. Visto de determinado prisma, é um espectáculo - como já o era no Barroco – de luz, som e cheiros: das pessoas perfiladas a olhar, das matronas envoltas em xailes, dos andores de toneladas ricamente ornamentados, dos Santos sofredores, dos encapuçados assustadores, dos cheiros de torrão, amendoins e cerveja a conviver com o incenso e as velas…
Em 2004 (mais precisamente a 7 de Abril, numa noite maravilhosamente amena de primaveril, depois de termos passeado durante o dia em Cáceres), decidimo-nos à noite por Trujillo.


(Fotos de outra Páscoa em Trujillo, sem sol...)




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O embate foi tão forte que, sempre que possível (por exemplo, a caminho de Madrid), fazemos desta simpática vila paragem obrigatória. A praça principal estava ruidosamente animada, como só os espanhóis conseguem. Assim o estava porque nos cafés das suas esplanadas (onde se comem uns revueltos com esparregos divinais!), todos se preparavam para ver a procissão passar. Só que a procissão não só passa, como Está. Numa volta rectangular, cada congregação sai dum canto da praça, e em cada um deles, uma matrona que vai no desfile, entoa um magnífico cântico, que ecoa como se usasse microfone …e do outro extremo responde outra voz sopraníssima… Certamente que como esta, poucas procissões haverá.
Nessa Páscoa, percorrendo a zona de LA Vera, descobrimos ainda outras tradições cristãs: em Valverde de La Vera, as ruas vestem-se de enfeites para que a Nossa Srª receba Jesus, noutra localidade (?), onde não chegámos a ir, Cristo é personificado por um homem que caminha praticamente nu, com uma cruz às costas (a festa chama-se Empalao).


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Outras procissões, sempre recomendadas por qualquer guia espanhol, são por exemplo em Toledo. Em 2005 estivemos lá, e durante toda a noite, desde o fim da tarde, que o mundo todo se concentra por aquelas ruas, em magotes apertados ou sentados em bancadas, nas quais se paga bilhete.



(Toledo: ao lado da muralha, sem proibições...)


(Toledo)




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Em Granada (2002) o mesmo, correndo-se o risco de os autocarros atrasarem horas e horas e de nunca mais se chegar ao Camping (creio que o mais cómodo em Granada é mesmo pernoitar no Camping “Sierra Nevada” - é pequeno, mas cómodo e simpático).
Em 2006, em Sevilha passámos ao lado da procissão, mas já se sabe que aí a tradição é de peso!

(Sevilha)
Optámos por conhecer outra tradição, num Domingo de Ramos, em Chipiona (ao lado do mar). Ao som dos sinos das 10.00 fomos comprar pão e acabámos na Igreja Maior. Toda a população acorria ao chamamento, em busca dos ramos de palma e oliveira, alguns são benzidos pelos “donos” na pia da Igreja. Os andores descansam nas capelinhas, para a próxima procissão e são gigantescos!!!





(Chipiona, matriz)

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Em Ronda (vila monumental e invulgar, a não perder!!!), quando chegámos tinha passado a procissão, esperámos pela próxima , choveu e foi cancelada, aguardámos pela seguinte – caiu um dilúvio … não vimos nenhuma… acontece.



Ronda




-->Em 2007, já escaldados de nos desencontramos dos eventos, aprendemos a perguntar aos espanhóis os horários. Em Zafra, assistimos também à bênção dos ramos no Convento dos Remédios e uma pequena procissão, nada comparável à monumentalidade de Toledo ou Granada.

Granada


Granada , à espera dos andores para os carregar... na cabeça...



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Em Córdova, com chuva ou sem ela, as procissões esbarravam connosco, desta vez com bastantes confrarias que levam horas e horas a desfilar. Depois de tantos (des)encontros e bátegas de água, o melhor mesmo é escolher-se uma só procissão, fixar o itinerário nesse ponto, esperar e ver, uma vez!



Córdova







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Acima de tudo, mesmo sem procissões, Espanha – especialmente com sol – nos gusta!




quarta-feira, 11 de março de 2009

Lida doméstica em AC




Um dos aspectos que volta e meia incomoda e até agora não soubemos como resolver, é o mau cheiro do depósito de águas sujas que penetra no interior da casinha. Experimentámos lavá-lo com lixívia, despejando para os canos um bom pedaço do dito líquido.
Um companheiro em Porto Côvo aconselhou-nos a não repetir, dado que a lixívia é corrosiva e sugeriu-nos um produto de limpeza próprio para o efeito. Experimentámos, mas não resulta: disfarça o odor, mas não nos parece que lave adequadamente. Na net , até agora, não encontrámos outras soluções.
Deixamos aqui o apelo: quem tiver uma solução mais milagrosa que dê pistas.
Obrigada.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Uma voltinha pelo Oeste (Carnaval 2009)





Às vezes até para passear é preciso inspiração, pois não vale a ideia de que qualquer sítio serve. Às vezes depende do estado de espírito, de com quem se vai, da aura, sei lá…
Certo é que desta vez não havia um sítio especial, tanto podia ser a norte como a sul, e nem tanto, porque à partida seria sempre acima de Lisboa e provavelmente só até ao Porto.
Lisboa, por contingências familiares, foi o primeiro pouso. Umas horas de convívio com um velho amigo e tudo a propósito de um certo jogo que, contrariamente ao futebol, levou à derrota do Sporting, o que é sempre bom de se ver.






Por falar em maré de amigos, optámos por fazer a ronda indo até à Figueira da Foz, pescando uns para o resto dos dias de passeio e apanhando, por tabela, um Carnaval nada português e muito menos brasileiro. É assim como que “um metade em um”, já que não deixando de se ser português (com pouca vivacidade e alegria) se tenta imitar o Brasil do lado de fora (nos trajes – ou melhor, poucos trajes – e na música de fundo. Para compensar a falta de qualquer coisinha, havia sol. Havia ainda um Parque das Gaivotas repleto de dezenas e dezenas de AC, o que me fez interrogar os meus botões: “Com tanta depósito e sanita química, e sem torneiras ou despejos perto, onde vão tantas despejar o que não pode ser ali despejado?”


(Parque das Gaivotas, Fig. da Foz)




Quanto a nós, optámos não pelo norte, mas pelo sul, porque os dias disponíveis já estavam em contagem decrescente. Assim, despejámos na zona para AC na Batalha, já que o propósito era histórico e cultural: Santa Maria da Vitória.
Antes porém, porque a hora e as barrigas o ditavam, com ovos e espargos, ali mesmo celebrámos um belo e verde petisco. Ficou-nos a dúvida: será por alguns considerado acampar ou pic-nic ilegal? Assim, para que não haja melindres, deixo à escolha duas opções:
Opção a)


Opção b)





Feita a visita histórica às paredes do passado, umas perfeitas outras ainda imperfeitas, continuámos na mesma onda, num desviozito a Porto de Mós, ao altaneiro castelo que, no topo da colina, mais parece de fadas ou de ilusão. A subida não nos valeu a entrada, já que em Portugal se fecham as portas em vez de se aproveitar os poucos recursos turísticos que possuímos. O castelo “da lego” pousou para a foto e, depois de um refrigerante na esplanada ao lado do rio Lena, lá partimos, para passar a noite, em direcção à Nazaré.


Mosteiro da Batalha





(Porto de Mós)




Do alto da estrada logo vimos algumas dezenas de AC em parques de estacionamento (perto dos Bombeiros) e estacionámos para ir ver o pôr-do-sol no mar. Nazaré animava-se com outras vestimentas: rapazes e raparigas, homens, mulheres e até idosos, em esplanadas, pela marginal, nas ruelas labirínticas do povoado festejavam o Carnaval, de modo natural, todos envergando outras peles. Regra geral, o sexo masculino alegremente vestindo-se do belo sexo, com saias e rendas da Nazaré. Outros com máscaras mais para o veneziano, outros com um chapéu ou uma veste longa, ou um casaco mais extravagante, ou até de Nazareno, só lhe faltando arrastar a cruz pelas ruelas íngremes.
O espírito era pois de alegria generalizada e como se estivessem todos a preparar-se para qualquer coisa. Nada programado, mais espontâneo do que uma hora marcada de desfile, totalmente diferente de escolas de samba ou dos nus de collants entre o frio português e o quente do Brasil.
Turistas e sem máscara preferimos rendermo-nos à boa mesa do restaurante Ti’ Adélia, saboreando o bom pescado nazareno.
Depois de uma noite dormida aos soluços, graças ao alarido das noitadas festivas dos mascarados, lá nos dispusemos a ver de perto, via teleférico, o sítio que deu nome ao dito cujo. Já que o castelo fechado de Porto de Mós, do qual foi alcaide D. Fuas Roupinho, tinha sido vislumbrado na véspera, havia que ir quase ao desfecho da história do herói lendário, quando esteve prestes a despenhar-se no vazio azul, não fora o milagre da Santa.










Dali saímos reconfortados, depois da descida a pé até à vila, para nos reencontrarmos com o resto do grupo (que viajava em carro), em S. Martinho do Porto. Só depois de almoçados e já em Óbidos, é que nos apercebemos que, só por uma unha negra, é que não havíamos sido assaltados. A fechadura do lado do condutor estava forçada, algum amigo do alheio havia tentado entrar na casa que não lhe pertencia. Feitas contas e análises quase que chegámos a uma conclusão, sendo o balanço muito feio já que pintava de negro o estacionamento na Nazaré. Felizmente que o epílogo se ficou por uma fechadura… fechada, mas que leva a pensar e a temer, leva…
Em Óbidos a vila preparava-se para o Festival de Chocolate, e como sempre, as ruas enchiam-se de turistas. Breve espreitadela à muralha e partida para as Caldas, onde não resistimos ao apelo da Sétima Arte. Em boa hora vimos o nomeado “O Estranho Caso de Benjamim Button”, uma adaptação de um pequeno conto de Fitzgerald, que vai mais longe que o livro. www.benjaminbutton.com
O argumento prende e a estranheza do tema leva-nos a questionar o que é isto da vida, do passar do tempo, do caminhar para a morte. Os efeitos da caracterização também dão que pensar, ver o Brad Pitt mais jovem ficou-me a martelar durante uns dias…








Apetecia ficar mais uns dias… para despedida, soube bem o descanso nocturno na Foz do Arelho e o passeio matinal até à beira-mar… apetecia mesmo ficar mais uns dias.



(Foz do Arelho)