segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Londres, por amor

(Dedicado ao meu músico)

 Desta vez as regras foram diferentes. A primordial de todas, amor.
 A casa às costas ficou para trás porque era imperioso chegar depressa. O motivo principal não era prioritariamente viajar, mas ainda assim houve tempo para conhecer e reconhecer muitos pontos de interesse.
Assim, apesar de fora do cardápio habitual, alguma conversa desta crónica se há de adaptar a quem a quiser aproveitar, sejam eles os leitores habituais ou outros.
Não havendo casa às costas, houve malas de rodas, deslizando por ruas, metros, comboios, aeroportos, bagageiras de medidas fixas (graças à boa vontade de amigos que no-las emprestaram, as malas,  porque autocaravanista que se preze não usa tal, digo eu, que arrumo tudo em gavetas e armários…). Não havendo três ou quatro semanas para percorrer fronteiras e países, houve horas de check in e out entre Faro- Londres- Faro e foi só o tempo de voar sobre nuvens e num ápice chegar ao destino. 




Finalmente, sem cama própria houve que procurar outro teto. Hotel? Hostel? Casa? Optámos pela solução mais económica, aquela que nos permitia dormir e cozinhar, pelo menos uma das refeições. Airbnb (não há como evitar publicitar) foi a opção e em boa hora. Um apartamento simples, num quarto simpático a olhar para telhados e redbrick londrinos, com uma anfitriã excecional que nos conquistou com panquecas ao pequeno-almoço, palavras amigas, dicas e humanismo.





A viagem era de amor, lembram-se? E acho que ela, a nossa pequenina anfitriã tailandesa, captou cedo o espírito da nossa missão e ajudou a concretizá-la. 




Começámos por aquele cantinho calmo de Parsons Green ( por acaso, semanas atrás, mais um ato de terrorismo havia assolado a pacata estação de metro onde “aterrámos”) e saímos com a impressão de estar numa aldeia inglesa até àquela que seria a nossa casa por uns dias.



Dali conhecemos a vizinhança: Fulham, a zona que imperiosamente tínhamos de conhecer, assim como Southfields. Coisas do coração…




 BIMM



uma mera casa naquela rua ...

Sem pressas, olhando os transeuntes, as casas, as portas (!) , as lojas, o talho, o barbeiro, a farmácia, o posto de correio, como se fossemos londrinos, com a certeza que não o éramos; como turistas, com a sensação de não o sermos. 




O que éramos não sabíamos, um pai e uma mãe a quererem continuar ligados umbilicalmente a um outro que também é eles e já não o é.
Mesmo desconhecendo vós, leitores, estas sensações, ainda assim aqui deixo fragmentos que poderão servir de guia para muitos de vós.


As casas e as portas: sempre o ímpeto de espreitar o que está lá dentro, sempre a tendência de imaginar vidas.







As linhas arquitetónicas repetem-se, as cores variam e repetem-se, mas cada rua tem sempre a sua particularidade, a sua graça única.







Os jardins: Londres não é só o Hyde Park ou o Regent’s Park, Londres é uma coleção de parques e jardins em todos os seus pontos cardeais, onde pessoas passeiam sozinhas, acompanhadas, com os seus cães; almoçam, convivem, praticam exercício físico, apanham sol …sim , às vezes ele também espreita.
Nós tivemos a sorte de o ver e sentir, enquanto batíamos uma fugaz “siesta” no relvado de Green Park a dois passos de Hyde Park. 



Green Park à hora do almoço


Em Hampstead Heath encontrámos um parque natural gigante e não um jardim. Árvores das mais variadas espécies , feitios e tamanhos, lagos e mais lagos / piscinas ( até as há para banho - uma para ladies, outra para gentlemen, deliciámo-nos com os lagos dos cães), caminhos a subir e a descer, a serpentear, colinas altas, florestas, relvados de alcatifa lisa frente à esplêndida mansão Kenwood, palco para uma das cenas do filme Nothing Hill e onde entrámos gratuitamente, pois pertence à “English Heritage”.










Em Putney/ Fulham, foi a vez de um passeio matinal ao longo de Bishops Park, mais um lugar idílico ao lado do Thames, preenchido pela alegre correria de cães e a calma de quem passeia com os filhos sem horas marcadas… como se não houvesse Londres ali ao lado.








 E ainda o Parque Eel Brook Common onde deglutimos uma daquelas refeições confecionadas de supermercado, à moda londrina. Em qualquer Tesco ou Sainsbury , os supermercados mais baixos da cadeia alimentar ( estou a brincar!) conseguem-se saladas e outros géneros alimentares a preços bem razoáveis.



Os mercados:
Tinha de ser, é obrigatório . Notting Hill e Portobello Road. Calhou-nos um dia de sol e tudo resplandecia de cor e charme. Pena os preços. Ficámo-nos pelas vistas e cores…








Candem  - mais do que um mercado, uma cidade dentro da cidade. Ah, as cores! Ah, os cheiros! Ah, tanta coisa curiosa e diferente. Lá dentro, um verdadeiro souk europeu, assente em redbrick de antigas cavalariças, com um pouco de tudo, desde o mais comum até ao mais inusitado, passando pelo café e pastel de nata português. 










Parabéns “tuga” pela iniciativa. Diz ele, que se calhar é chão que já deu uvas, a intenção é transformar o espaço num CC formatado. Nem queremos acreditar, nós ( no momento quatro ) e o “tuga”, todos com ar de emigrantes, só dois o eram, um deles na sua motinha de delícias portuguesas. 

Borough Market – um mercado de comida , infelizmente fechado ao domingo, dia que ignorantemente escolhemos,. Ainda deu para comer na vizinhança. Uma refeição daquelas gordas, estranhas,  daquelas que, enfim , tem de ser, para não ser.



Borough market fechado





a caminho do The Globe



 E também mercados inesperados ao domingo, por exemplo, no átrio de uma escola primária, este em Earl´s Court.



Os Museus:
O Britânico , sempre. Mais que não seja para cumprimentar algum ídolo da pintura , como Miguel Ângelo, ou a escola holandesa ou um Van Gogh, o original, porque o da minha sala é só uma cópia e estava lá longe. Ou outros quaisquer, sem destino, pelas inúmeras salas.


A Tate Gallery – um bloco de pedra imenso , de frente para o Thames, um gigante sempre em mudança. Há quem lá vá para se deitar numa alcatifa colorida e ficar a olhar para  uma bola pendular. Imagine-se ! 



Há quem lá vá, especialmente adultos, para andar de baloiço . Imagine-se! 


 Há quem vá para ver as coleções e descobrir Picassos ou descobrir instalações que são outros olhares, outras linguagens . 



E há ainda quem suba ao 10º piso para contemplar o rio, os telhados  e prédios de luxo com vidros transparentes onde as salas são de revistas de decoração e as famílias inexistentes. 





E, sempre, sempre, muitas pontes:

A mais famosa – a Tower Bridge, ali no meio de uma Londres metálica e ao lado  da Tower London onde tantas cabeças reais rolaram. De tanto rolar os edifícios são de todas as formas e já não é só o tijolo, é o espelhado , o metálico, o lunar.


The Shard , no meio


Tower Bridge, no meio 





Tower of London


Tower Bridge

Assim como a estranha ponte Millennium , fechada ao público dois dias depois da sua inauguração, também apelidada de "ponte que treme" e destruída em Harry Potter e o enigma do Príncipe pelos Devoradores da Morte, a ligar-se até St. Paul's Cathedral.




E já que menciono Harry Potter (eu própria fã incondicional) , ele está por toda a parte: também nesta parede ao lado de Borough Market, cenário para entrada de Leaky Cauldrin e paragem do autocarro noturno; ou na famosa King's Cross Station, agora palco comercial , a imitar a plataforma 9 e ¾ que é tudo menos plataforma e mais loja e modo de fazer libras.



Zonas de diversão e animação:

O simpático Covent Garden, sempre repleto de turistas, esplanadas  e animação na praça.




 Para um cheirinho do mundo do espetáculo, uma espreitadela na zona de Leicester Square. Os cartazes publicitam a eterna temática Disney, o eterno Harry Potter, os musicais eternos…



Ao lado , a vizinha Chinatown, mais um país dentro de outro país , concorrido, garrido.



Em plena Leicester Square o olhar atento do pai do teatro inglês , 


Shakespeare, of course

mas o que vale mesmo é ir, uns quarteirões do outro lado do rio, ao  The Globe. Ah; bolas! Esquecemo-nos que não éramos londrinos e não marcámos a visita. Mais uma vez nos ficámos pelo exterior sem saber o que é o silabar poético shakesperiano, sem saber o que é ver ao vivo um teatro octogonal onde o teto são as estrelas e o sol. 







O que falta mencionar?
Que é obrigatório espreitar o paço da Rainha?


Que os esquilos vêm comer nas nossas mãos?



Que o Sherlock Holmes não existiu mas tem casa própria?



Que o metro no centro da cidade é profundo e mete medo? Que  se deve acertar o relógio pelo Big Ben ? Que se deve extasiar olhando para o Parlamento e admirando o rei mais doce de todos?



Ricardo I ("Coração de leão")


Ou que continuo a amar Londres, mesmo com neblina, com o chuviscar, com a saudade, com a libra, o Brexit, a rainha e o “tea”?
Não, não é verdade, só houve chá e rainha, neblina, pontes e libras, pounds e aviões, sem casinha, sem cadela, sem a família completa, sem tempo, por uma questão… de amor.