sexta-feira, 8 de setembro de 2017

“Mikki´s place” – um lugar com arte





Às vezes, comigo sucede várias vezes ao dia, apetece fazer como nos filmes: largar tudo e abraçar o tal sonho que nada tem a ver com a rotina profissional caquética de todos os dias. Apesar de a taça estar cheia, falta-me o tal golpe de asa e a sorte cor-de-rosa dos protagonistas dos filmes.

Desconheço se no “Mikki´s place” foi largar tudo na Bélgica ou na Holanda e vir a correr  comprar um terreno em  Portugal, para concretizar o tal sonho. Desconfio que para a belga  e o holandês de “Mikki´s Place to stay”, em Areias de Pêra, Algarve, a odisseia de todos os dias não está a ser um idílio cor-de-rosa, a avaliar pelas burocracias de PDM e outras siglas feias que têm de enfrentar exaustivamente, no entanto, para quem usufrui do seu “sítio”, o parque de autocaravanas em Areia de Pêra, é viver, definitivamente, no sonho por mim sonhado. Não lhe chamaria cor-de-rosa, mas multicolor, com o magenta das buganvílias, o verde das flores e plantas e os tons variados das peças de olaria que povoam cada canto, mesmo nos pontos mais inesperados.


Elogiava eu aqui, há uns anos atrás, também situado no Algarve, o parque para autocaravanas Motorhome Park, da Falésia, classificando-o como um exemplo a seguir. Mantenho a minha palavra, mas este outro que só agora descobrimos, apesar de existir  há pelo menos três anos, é em tudo mais do que um parque de autocaravanas: é a “casa”; por um lado, a casa de quem o criou, por outro a casa de quem lá mora e de quem por lá passa. E como em qualquer casa, a alma do seu criador está lá, acrescida ainda do seu toque artístico, porque Mikki, a proprietária, é acima de tudo uma artista, pintora e artesã de potes, vasos e figuras fantásticas.






A casa com alma de que falo fica a 5 minutos do Zoomarine e a poucos quilómetros da praia. Ah, pois, ali o mar não entra, mas podemos ficar estarrecidos a olhar para a piscina e nela mergulhar vezes sem conta, rodeados de juncos, palmeiras e outros verdes que tais, com camas a pedirem que relaxemos. 








A piscina lembra um pequeno lago biológico, porém,  sem rãs, sapos ou outros seres saltitões. Os únicos seres que por ali espreitam parecem esboçar beijos e têm a faculdade de nos fazer sorrir.


A estufa gigante que serve de restaurante/bar/ receção é também (parece que vai deixar de o ser) ateliê de olaria e se, vista de fora, parece precisamente isso, uma estufa de madeira e plástico, lá por dentro revela-se quase um pavilhão chinês, com sofás e mesas artisticamente improvisadas, portas que são paredes e  balcão de bar, plásticos que são vitrais, caixas que são prateleiras com olaria risonha e até livros para consumir com o café, a cerveja ou as refeições que são servidas três dias por semana (ao sábado, a pizza a sair de um forno de antigamente.)








Ah! E como se não bastasse o festival de cores e objetos, o pavilhão tem a ainda a animação galharda e sonora de pássaros coloridos, entre eles um vistoso papagaio que volta e meia chama pelo seu dono : “Arno, Arno!!!”.


 Onde ficam as autocaravanas no meio de tantas formas, cores e sons? No meio de 2 hectares existe espaço à vontade para oitenta parcelas, cada uma delas com relvado sintético (que toque mais precioso para fugir ao peso da brita!) e ladeada de flores. O lugar 11 foi o nosso, com vista para a piscina , mas há outros mais afastados do chapinhar das águas , alguns em recantos próximos de outros cenários. 






Na realidade, cenários não faltam e sempre a mudar para que a vista não seja rotineira: a zona privada onde o casal habita numa casinha de madeira e jardim japonês, a “quinta” das galinhas e galos, o jardim aromático, a horta com gojis, um centro de reciclagem e, em construção, um jardim com cascata e ainda espaço para receber casinhas de madeira. Inesperadamente, nos sítios mais escondidos ou noutros em destaque, surge o mundo onírico de Mikki, espreitando e sorrindo aqui e ali.







Para nossa comodidade há ainda w.c. equipado com duche ( 50 cêntimos, água quente), zona para lavar loiça e roupa (inclui máquina e secadora) e ainda – que toque pessoal mais amoroso!  – um duche próprio para cães onde, é claro, a nossa menina se refrescou. 



Muitos inquilinos de variadas nacionalidades ali habitam todo o ano, gente reformada, evidentemente, que procura neste cantinho português a calma e o clima ameno para o inverno da vida.
Enquanto lá estive (duas noites, apenas porque não sou nem jubilada nem troquei definitivamente a casa fixa por uma móvel), segui o lema da placa da entrada “ Slow down and relax”. 


E que mais? Felicitei vezes sem conta a proprietária por possuir em pleno o meu sonho sonhado, para ela filme realizado, mas não cor-de-rosa.

Pormenores importantes nestas lides de viagens, sonhos e pesadelos:
Localização ( N37º 07´40’’  W 8º 19´22’’)
Preços: desde 8,50 € (sem luz, no 1º dia) , 6  € (a partir do segundo dia), luz ( 2,50 € dia).



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Galiza – a mão de Deus , parte II


Os dedos de Deus , apesar de bem delineados, fizeram-me perder entre veias e vasos sanguíneos, levando-me a afirmar, erroneamente, que a praia de Vilarinho , em Aldán, se situava na ria de Vigo, metaforicamente , nestas crónicas, a de “Mindinho”. Na realidade , situa-se na ria de  Pontevedra, o “Anelar”, aquela para onde me dirijo agora.


Vilariño, Aldán


Seguindo a rota e não os dedos, é verdade que partimos de Aldán com destino a Sanxenxo, de facto no “Anelar”. Creio que pela terceira vez em vários anos, não conseguimos estacionar numa das mais badaladas da “Galazia”, Sanxenxo, a avaliar pelas filas e afluência de gentes. Desconheço se o seu centro é ou não interessante, a parte percorrida, dentro do veículo, só me evocou betão, comércio e semáforos. A parte natural são praias a perder de vista mas muito concorridas, logo, pouco apetecidas. 
Só no regresso, já vindos de Santiago, entrámos em Pontevedra, mas a sua narração, por pertencer a este dedo, fica já aqui.



Santiago de Compostela

Talvez porque Santiago me enche sempre a retina (uma das minhas cidades de eleição no cardápio europeu que conheço, não sendo elas tantas assim – as que conheço, entenda-se), Pontevedra ficou apenas debaixo de uma pestana.
É a capital das Rias Baixas, é elegante e senhorial, é tranquila e animada, mas… um  “mas” pequenino, porque este viajante pode incorrer em muitas injustiças influenciado por muitos fatores, inclusive por ter explorado mal o espaço, cidade e arredores. Às vezes é assim, pelo que só lhe resta repetir a dose em próximas oportunidades, não lhe hão de faltar, é perto e bom caminho.
Mas vamos, sem mais delongas, a Pontevedra.
Comecemos pela Igreja de San Bartolomeu, para depois entrar na primeira praça que nos acenou: a da Leña, logo seguida da Praça da Verdura, recheada de esplanadas e bares.




Boleia para a igreja de S. Bartolomeu?







 Aliás, as ruelas de bares são uma constante, deverão ser certamente animadas e barulhentas , não era o caso porque a hora ainda era a da siesta (por mais que tente, esqueço-me , na maioria das vezes, dos estranhos horários espanhóis, o que dá jeito, por exemplo, para ir à praia: antes das 11 horas qualquer praia está vazia!!!) . Muitas praças, para além das nomeadas; muitos cruzeiros; muitos balcões envidraçados e ferros entrelaçados e floridos; 



muitas igrejas imponentes, sendo a mais nobre a Basílica de Santa Maria, ocupada por mais um casamento. Haja felicidade e futuras e tenras gerações!






Antes da Alameda (passeio infelizmente repleto de “feira” móvel sonoramente poluente), ainda as ruínas de São Domingos, relíquia medieval, infelizmente incompleta, daí o nome.



Ruínas


Rodeando o casco antigo, alguns jardins que dizem ser frescos e agradáveis. Estes viajantes foram parcos na visita a espaços verdes e ficaram-se pelo Parque Rosalía de Castro,  à beira da Ponte de Santiago e do rio Lérez, onde se situa a mais recente área para autocaravanas.



Um parque sossegado e por enquanto ainda impecável e limpo ( a sua inauguração foi este verão), grátis, munido de 20 lugares e duas zonas de despejo. Nota estranha e novidade para estes viajantes: os cães só são permitidos se estiverem dentro dos veículos. Lamento informar mas com o calor que estava (32º) a nossa companheira de quatro patas esteve lá fora, nos limites da AC, apanhando o pouco fresco que corria. Preferiam que desidratasse de calor ou que a abandonasse no rio? (N  48º 26´ 00´´  W 8º 38 ´09´´).


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Galiza, A mão de Deus – parte I



Ao construir a Terra, longe de saber que, àquele pedaço, o Homem lhe chamaria Galiza, Deus afagou-o suavemente e, com os dedos, formou as Rías Baixas.

Esta lenda é, indubitavelmente, uma introdução mais poética e melodiosa, do que chegar aqui e afirmar logo que as Rías Baixas são vales fluviais invadidos pelo mar, cuja origem se deve a movimentos tectónicos que provocam o rompimento das costas e o avanço do mar. Convenhamos!

Portanto, graças aos dedos de Deus, as Rías Baixas são uma suavidade de cores, paisagens, clima, Natureza e , talvez  sem Deus se dar conta, cansado como estava de obras numa semana de trabalho infindável, as Rías Baixas – assim mesmo, no plural – abriram-se em quatro partes : a ría do indicador, ou seja, a de Muros e Noia; a ria de Arousa; a de Pontevedra e, por último, a de Vigo, sulcada pelo dedo mindinho, mas nem por isso a mais pequena .

Vindos de Portugal, o nosso périplo começou pela do mindinho (não confundir com ornamentos caraterísticos da “Guerra dos tronos”), mais propriamente por Baiona. Há muitos anos atrás, em 2002 para ser exata, até sei a data de cor, a imagem desta cidade foi conspurcada por um incidente feio e depois caricato que nos fez, até hoje, cortar relações com a cidade. Sumariamente: naquele Verão de 2002, os amigos do alheio, num restaurante, lançaram mão da minha mala quando estupidamente a coloquei nas costas da cadeira. Aprendi  -  depois me ter visto sem documentos, telemóvel, óculos e o mais grave, senti eu na altura, os rolos das fotografias de todas umas férias, justamente pelos dedos de Deus até à Corunha! -  que as costas das cadeiras se fizeram para encostar e não “enmalar” ou “ensacar”. Anedoticamente, no final do dia, já em Portugal, a própria Polícia me telefonou, do meu próprio telemóvel (!), a dizer que haviam recuperado  a mala e o seu conteúdo, à exceção da fortuna de 5€ !!!!

Faltava-nos, pois, fazer as pazes com Baiona e, começámos por nos reconciliar com um belo lugar defronte das pacíficas águas, para depois visitarmos o que os ladrões não nos deram tempo para ver. O local fica ao lado da capelita de Santa Marta, ali onde Drake, o corsário inglês, incendiou a capela como forma de se vingar por não conseguir tomar a povoação.




De Baiona abrem-se as vistas até às ilhas Estelas e as famosas Cíes, onde Drake ainda permaneceu planeando o ataque a Baiona.

Passeio marítimo

 Percorrendo o arejado Passeio Marítimo e passando pelo airoso cais, chega-se à emblemática fortaleza de Monte de Boi, onde se ergue o seu magnífico castelo de peculiares ameias. Em seu redor, num percurso de quase três quilómetros, estende-se o Passeio de Monte de Boi, pintado de soberbas paisagens e praias. De dentro das muralhas espreitam os frondosos e altos pinheiros, no seu exterior as águas espraiam-se azuis.






Fortaleza




  ilhas Estelas






No centro da vila, respira-se um “pueblo galego” que mais se parece com uma aldeia da Beira Interior, fazendo-nos esquecer que o mar está mesmo ali ao lado.  Destaca-se a igreja de Santa Maria e as ruas empedradas com as suas múltiplas tabernas. Na igreja, os preparativos para um casamento glorioso com a chegada singular dos convidados em autocarro “vintage” e uma noiva que ameaçava entrar antes do noivo…













Ainda nesta Ría do “mindinho”, elegemos uma outra praia, guiados, confesso, pela aplicação “Park4night”. Procurávamos a  área privada em Igrexário (15 € num terreno inclinado, sem luz, e fechados entre muros) quando descobrimos, na praia da aldeia Aldán, um cantinho apetitoso, a três passadas, literalmente, da praia de Vilarinho. 


Estrada, pedras, areia, mar...


Mar, banho.


A ver o vizinho de esguelha


A aldeia nada tem de extraordinário mas o cenário natural é sublime e agradável com um passadiço de madeira sempre a ver o mar. Bom sítio para pasmar, como um viajante de casa às costas merece.






os eternos espigueiros da Galiza... tal como no Minho, mas sem mar.


Para início de passeio, o primeiro dedo não esteve nada mal.

Dicas para autocaravanistas:
Em Baiona dormimos tranquilos, o local é um parque misto que nos pareceu seguro ( N 42º 6´54. 36 W 8º 50´10.428´´).
De manhã não fomos multados ( em nenhum local dizia que era proibido o estacionamento e a pernoita) , mas a Polícia veio amavelmente oferecer-nos o seguinte aviso:


Em Aldán, praia de Vilarinho ( N   42º 16´ 29.3´´ W 8º 49´22.7´´), num “chiringuito” ao lado, um local queixava-se de que as autocaravanas lhe tapavam as vistas, mas a dona do bar argumentava a favor, por motivos óbvios… 
Para primeira impressão lá senti que Espanha não difere de Portugal ao fazerem-me sentir minoria a roçar o fora-da-lei…