Viajar, travel, voyager... com uma casa de rodas por essas estradas fora... AC, Campingcar, motorhome: por Portugal, Europa, Mundo. Relatos e imagens de como viajar com a casa às costas.E também palavras sobre coisas que gosto...
Parece Marrocos , mas não. Os marroquinos vieram diretamente
de lá, os produtos também, o souk é ,
pois, um retrato fiel dos originais. Regatear preços também acontece. A única diferença
é quando a ASAE passa, aí é vê-los (aos marroquinos) colando etiquetas brancas
com os notórios euros . Estamos, pois , como já perceberam, em Portugal. Mais uma neste cardápio de viajantedecasaascostas,
mas desta feita a maior que vimos até ao momento e em território que outrora pertenceu
mesmo aos árabes , daí o ambiente ser mais realista.
A recriação artística e histórica é da Companhia Viv’ Arte. Em
simultâneo e a acabar a 11 deste mês
decorrem duas feiras medievais: a de Santa Maria da Feira e a de Silves. Aquela
a este viajante se reporta é a de Silves, em território “al” a relembrar os
árabes, os mouros, os sarracenos…
A entrada custa 2 euros diários, pena os espetáculos da
feira (como torneio e teatralização ) implicarem mais euros , ou, de acordo com
esta viagem ao passado, xilbs.
Se correrem ainda lá chegam , termina a 11 deste mês.
ENTRE o passado e o presente, entre Portugal e Espanha, entre a cultura e a pimbalhada. Foi mais uma edição da reconstituição histórica da Batalha de Atoleiros, na vila de fronteira, local onde D. Nuno Álvares Pereira, com a inovadora técnica do quadrado, conseguiu derrotar os castelhanos apesar de possuir um exército em franca desvantagem numérica.
Para o efeito, apesar do pasto seco e não da lama histórica para honrar o nome “atoleiros”; apesar de serem centenas a pé e a cavalo, e não os milhares a pelejar, gritar e morrer, ainda assim , em pleno campo aberto dá-se a ilusão do que poderia ter sido a batalha por entre montes e vales. Faltam os efeitos ilusórios do cinema para fazer passar dezenas por milhares e para transformar em mortos aqueles que no teatro logo ressuscitam para aplaudir de pé. Ao lado da batalha, reconstitui-se ainda a defesa do castelo (pena este ser uma parede e duas muralhas de cenário) e, pelo burgo fora, aquilo que poderiam ser os divertimentos da plebe: mercado de comes e bebes, artesanato, “touradas”, pregões, saltimbancos e malabares embora tudo muito ao gosto da atualidade: os deliciosos crepes, a rua dos mouros ali, lado a lado, sem rivalidades, convivendo com outras crenças e credos, e outros que tais, mais ou menos deste tempo, mais ou menos artesanais, porque volta e meia o produto chinês é mais forte que o manual e do que o nacional. A organização nesse aspeto terá que ser mais selectiva. Para além do lado mercantil, há ainda o divertimento de rua, sem dúvida a parte mais criativa e interessante de todas. Dela falarei depois de elogiar o geral e de vituperar a pimbalhada.
Comes e
e bebes
a arte do malheiro
o forcão
A organização destes eventos recriados do passado, para quem não sabe e portanto convém esclarecer, é da companhia de teatro Viv ’arte, natural de Oliveira do Bairro, a qual prima pelo respeito às fontes e à História, recriando-A desde 1988, recorrendo a colaboradores criativos nacionais e internacionais. Ou não fosse o responsável criativo licenciado em História… E tudo estaria muito bem, se o município comprador do evento, não resolvesse também aceitar a invasão no território da festa medieval, o vulgar e modernaço espetáculo das massas intitulado televisão comercial. A TVI , no caso, com a apresentadora Fátima Lopes, num daqueles programas de domingo à tarde em que todos gritam, batem palmas , enquanto sons pimbas e moças armadas em semi-nuas brasileiras exibem soutiens, estrias e fartas carnes. Se o sábado escapou à poluição sonora, o domingo, porém, rompeu as costuras com um público que fervilhava, não porque o medieval os atraísse, mas porque , do outro lado, a feira ciganal era mais forte. Assim vão as massas em Portugal, mesmo depois da revolução, a instrução ainda vai no rés do chão. Resta-me elogiar, para além de quem fez de Fronteira aquilo que lá leva as massas em direto ou indireto, todos os criativos (alguns que não fixei os nomes), que durante dois dias animaram espíritos e imaginações: Os “Corda Lusa”, de Coimbra, pequenos génios da música medieval com amplificadores da modernidade;
a italiana Roby sempre à espreita de uma oportunidade para fazer voar facas e massas;
o egípcio fascinante da saia rodada;
os “Saltimbancos de Évora” e as suas esculturas corporais;
a voz forte do teatro e da lenda, vinda de Loulé;
o homem e os gansos;
os italianos de Finale Ligure (ou seria Ancona?) com as suas bandeirolas voadoras;
o bobo -ilusionista da moldura;
a dança do ventre com o encantador bailarino da máscara;
a encenação mágica dos “Guardiões do tesouro”, mais um momento Viv´Arte…
Tudo isto em dois dias (21 e 22 de abril) num ambiente que, para quem se deixa Estar e procura cumprir o programa das festas, hora a hora, tem o condão de nos transportar para outro tempo, como se de facto, o presente se apagasse e mergulhássemos na máquina do tempo, pena os tais lapsos “demoníacos” como programas televisivos de domingo à tarde que estragam o cenário… Pernoita – largo frente à escola primária nos braços quentes de Morfeu.
Passando ao lado de uma das regras de ouro do jornalismo – a atualidade – estas crónicas vão-se atrasando nas novidades… perdoem-me os leitores que prezam a tal das regras de ouro, mas também não sou jornalista e este blogue lá vai caminhando conforme pode… No capítulo das feiras, subtítulo “medievais”, aqui fica em atraso a de Vila Viçosa, este ano tendo decorrido no final de março (30 e 31) e ainda no 1º de abril. Para o ano haverá certamente mais e por essa altura supostamente primaveril (se as estações fossem como dantes)… A iniciativa é da Câmara , a responsabilidade criativa de recriar o passado da Companhia de Teatro Viv’Arte, também já aqui referida noutras paragens.
Em Vila Viçosa, berço histórico e real (sede dos Duques de Bragança como o confirma o largo Paço e o terreiro “coroado” por D. João IV)
e também berço fecundo no campo das letras (recorde-se Florbela Espanca),
por ela também passaram outros reis, na dita feira relembrados: D. Afonso III , D. Dinis e D. João I, respectivamente ao longo dos três dias. Ao primeiro coube o início da construção do castelo; seu filho, D. Dinis erigiu-o; D. João I entregou o domínio da vila ao condestável.
A nós, que fomos apenas no dia 2, coube-nos o Lavrador, “plantador de naus a haver”. O mesmo dançou e cantou as suas “ai flores, ai flores do verde pino…” e ainda concedeu à milícia de homens (crianças) de armas, a carta de privilégios do conto de besteiros e decretou a língua portuguesa como língua oficial da corte e de assentamento de todos os documentos do reino.
D. Dinis
Para
além do rei, desfilaram (muito à pressa por causa da chuva) bobos,
guardas, estranhos dançarinos do ventre com as suas cobras gordas e
gigantes.
O pequeno castelo da vila engalanou-se festivamente e breves artesãos e petiscos coloriram e suavizaram o palato e a visão. Destaco o malheiro , homem que ainda hoje tece cotas de malha - esta levou à volta de 400 horas!!!; a sidra irlandesa acompanhada de um crepe com frutos silvestres e, como estreia artística “Os acrobatas de Évora”.
Acrobatas de Évora
A chuva, depois de ausente todo o inverno, resolveu visitar a feira, alguém no interior do Santuário de Nossa Senhora da Conceição deve ter gritado “milagre, milagre el rei D. João de Portugal!” As estações, decididamente, andam equivocadas - fruto dos tempos bizarros, como este que mistura saias , carros e petróleo.
Faltou-nos o jantar na tenda real, mas como não passávamos de plebeus, ficámo-nos pelo "Kebab" e uma noite de bons sonhos no largo Gago Coutinho, ao lado de meia dúzia de companheiros autocaravanistas.
Ou procurando (nos postos de Turismo locais), ou deparando-nos inesperadamente com eles, quem vai às Astúrias tem obrigatoriamente de deparar-se com os seus mercaus. De queijos, de presuntos, de produtos asturianos, de artesanato…mas, mais interessantes que esses, são os mercados medievais, ao que parece assim incorrectamente apelidados, já que a denominação correcta é “Mercau astur”. Um conceito mais colorido certamente e mais recheado de variedade do que um simples mercado local.
Há uns atrás, ainda longe de sonharmos com estas vidas itinerantes em quatro rodas e muito menos com a casa às costas, e porque estávamos “obrigatoriamente” confinados à vila de Infiesto (alugámos lá uma habitação de turismo rural), visitámos um desses mercados. As ruas vestiram-se de séculos recuados, as marcas da civilização apagaram-se com sinais de trânsito tapados de serapilheira e os pequenos larguitos da festa, atapetaram-se de palha e até de dejectos bem a três dimensões das vacas e outros animais de carne e osso. Os “feirantes” vestiram-se a rigor, os números circenses multiplicaram-se e lá recuámos no tempo, contemplando e cheirando alegremente.
Este ano, ao que parece. a festa em Infiesto era só a 15 de Agosto, data que fugia aos nossos planos de viagem, mas depressa descobrimos outras substitutas e mesmo ali ao lado. Em Cangas, de 31 de Julho a 2 de Agosto tivemos tempo de sobra para visitar um desses mercados coloridos e com um sabor a outros tempos.
Cangas de Onis, Mercado Astur
Mais tradicional e bem conseguido havia ainda que ver o mercau de Ceceda, uma pequena povoação asturiana, a uns 6 km de Infiesto. A festa é denominada de “interesse regional” e iria decorrer no fim-de-semana de 1 e 2 de Agosto.
Para estarmos lá logo de manhã, revisitámos Infiesto e pernoitámos num local que tínhamos ideia de ser tranquilo e provavelmente seguro: no parque ao lado da piscina e da cueva de Nossa Senhora de… A zona é de picnic e os espanhóis fazem-na render, praticando exercício e convivendo em família até o sol desaparecer por entre montanhas. Lá ficámos, sozinhos, de vez em quando visitados pelo carro patrulha da polícia local, qual anjo de companhia.
O dia 1 de Agosto acordou carregado de nuvens pouco amigáveis, depois de alguma chuva nocturna. Mesmo assim encaminhámo-nos para Ceceda. Uma outra AC estava parada na cortada para a povoação, à espera que uns amigos de carro lhes comunicassem se a estrada até lá era transitável para veículos como nós. Tudo ok segundo eles, mas mesmo assim a travessia da povoação, nalgumas ruelas com varandas quase cosidas ao capuccino, não era a mais tranquila. O parque de estacionamento era amplo, um campo ceifado, com os lugares mais largos para AC. O sol abriu, a esperança sorriu…
Ambiente de sol e festa
Não era caso para menos, a Festa era mesmo uma entrada numa outra dimensão. No meio de um pequeno terreiro, o ambiente medieval já estava instalado: cores, artesãos a trabalhar ao vivo, jogos tradicionais, saltimbancos, barracas bem trajadas e com belíssimas peças de artesanato, trajes regionais, animais e pessoas lado a lado, cheiro de petiscos no ar… o pior foi quando o céu se abriu em dois e uma tremenda borrasca caiu sobre o cenário idílico. Somente tivemos tempo de agarrar nos apetitosos “tortos de maiz” e correr para o telheiro da igreja, já completamente pintos.
O tempo que bem podia ter parado enquanto havia sol...
Bem trajados para a festa
Animação circense
Vai uma voltinha ?
Modelo 1
Modelo 2 - há que evitar dejectos de vacas e bois!
Brincadeiras de sempre
Que bem que se anda nas andas.
O final da festa com um belo petisco rexional.
O céu não deu tréguas e imagino que a festa tenha fechado portas, pois quase literalmente fugimos com receio que o caminho até à estrada se transformasse num lodaçal com direito a ficarmos atascados. Pelo que constatámos ao sair, o receio não era infundado, a pista já derrapava e a lama crescia. Em boa hora saímos. Astúrias é um paraíso se não contarmos estes dilúvios, mas o verde também precisa de beber, caso contrário não seria verde…
Outros mercados, com menos carisma, porque mais usuais, podem acontecer a dias fixos da semana, como o de sábado, em Cangas. Era o mercado de queijos, mas, como nem só de queijos vive o asturiano, presuntos e enchidos, pão e flores e até roupa, tudo se exibiu a nossos olhos, sem censuras de uma qualquer pidesca ASAE.
Cangas
Apetece ficar e mandar Portugal à “faba” (*)!
*Uma fabada asturiana não leva favas, mas uns bons e rechonchudos feijões brancos cuja receita postal em altura oportuna adaptaremos com direito a alterações alentejanas. A ASAE que se dane!
A receita astur
Pernoitas:
. Cangas de Onis (N 43º 21’ 8’’ W 5º 7’ 29’’)
. Infiesto (na zona de picnic, ao lado da piscina). Água. Bar.