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quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Comboio com ninfas à mistura


A propósito de Noruega, já falei de fiordes e cascatas , de viagens por estradas com vistas deslumbrantes e de ferries que deslizam insonoramente sobre fiordes de sonho. Falta falar de outras viagens -  de comboio - e de outras cascatas líquidas e sonoras.




Para quem quer percorrer a distância Fläm- Myrdal, pode fazê-lo ou a pé, ou  de bicicleta ou de comboio. A  meio do percurso pode deleitar-se com a cascata Kjosfossen , a qual  reserva, no verão, ainda uma outra surpresa...

Há muitos, muitos anos, chegar a Myrdal seria um longo percurso por subidas íngremes e ventos glaciais, porém, em  1941, depois de 20 anos de construção, escavando cada metro à mão, inaugurou-se o primeiro comboio que permitiu  unir pessoas e localidades. A  passo de caracol, demorando um mês para escavar um metro de túnel,  o homem conseguiu mais esta proeza, documentada no Museu Carril em Fläm (entrada gratuita) e vivenciada num percurso relaxante de comboio, com as vistas mais incríveis.




A meio do percurso o comboio para e os passageiros podem admirar a cascata Kjosfossen e deleitar-se com    a surpresa visual e musicada a dar vida a mais um mito. Desta vez não será um troll obeso e narigudo, mas uma elegante dama vestida de vermelho, dançando no seio da paisagem, ao som de uma música etérea a ecoar pelas montanhas. A dama de vermelho, é a ninfa Huldra, aquela que encanta os homens viajantes. E a avaliar pelo resultado, as mulheres também…





quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O Fiorde dos sonhos

 

É impossível ver e estar em todos,  em 1000 fiordes  noruegueses estar no Geiranger e no Sognefjord (Fiorde  dos sonhos),  é já conseguir realizar  sonhos.

Se  no primeiro  se desliza num imenso ferry, um  Golias a engolir carros , autocaravanas e autocarros;  no segundo  apenas entram passageiros.  Trata-se de um barco recente,  da companhia “The fjords”,  que se move a eletricidade e carrega espantosamente em 15 minutos! O seu design é moderno, confortável e de incrível bom gosto.



O  percurso inicia-se em Fläm,  cidade porta de embarque para cruzeiros  pequenos e grandes,   ali  iniciados  ou noutras partes do mundo.




O Fiorde honra o seu nome  e o passeio, o qual, ao longo de 2:00 horas,  mesmo com chuviscos e  algum vento frio em pleno julho (!),  deixa os passageiros extasiados com a beleza envolvente,  e com a harmonia  equilibrada entre homem e natureza. 



Casas simples e coloridas .



Rastos suaves

Olhares que pasmam


Casinhas com janelas no fiorde e na montanha


Passeios a remos


Casinhas sem poluição

O “sonho” tem 204 km de comprimento  e 1300 m. de profundidade.

Esperando que a onda não chegue

 

 

Pensamos que controlamos a natureza,  mas é o inverso, apenas a descontrolamos.

Em 1905, uma derrocada de um pedaço da montanha Ramnefjellet, na Noruega, provocou um  tsunami  que levou à frente aldeias  e suas respetivas vidas.  Em 1934,  a mesma montanha voltou  a ouvir-se e a  tragédia repetiu-se:  uma derrocada de mais de 700 metros de altura provocou três ondas com mais de 60 metros de altura.

 Esta realidade foi ficcionada no filme "A onda", o qual  projeta o incidente  mudando o cenário para a vizinha Geiranger.


 

 Vale de Loen, Noruega

  A Igreja de Loen  presta homenagem  às vítimas do incidente  num  Memorial que olha o vale. Os nomes nele gravados deixaram de ver há muito, alguns deles bem precocemente…





O Homem espera que a história não se repita, inventa estratégias preventivas, mas ele mesmo considera que o mesmo Homem também contribui para a agitação da montanha,  a qual um dia voltará a rugir e a história voltará a repetir-se  com a chegada de Nova Onda, enviada pela montanha como que a dizer, “Aqui estou eu, não me esqueci”. Poderá suceder  novamente na Noruega,  como em qualquer lugar do mundo,  como em qualquer lugar perto de nós…

 

Esperando que a escada não nos leve ao céu, mas que apenas seja adereço na natureza... 

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Ser-se fiorde

 


 Para se ser Fiorde é necessário um canal por onde entre a água do mar; uma estrutura de costa terrestre, como um vale; agentes erosivos;  movimentos tectónicos e degelo.

A Noruega possui estes ingredientes e, por isso, cerca de 1000 fiordes!

Para além deles, ainda lagos que não o são mas parecem, rios que são rios e outros degelo,  cascatas e quedas de água,  o que faz, visto de cima, um país que se assemelha a uma renda com muitos pontos abertos em azul, verde esmeralda e branco ( do alto das montanhas a água cai como leite).

De Lillihammer  a Geiranger  são ainda cerca de  300 quilómetros de carro, por isso ver o Geirangerfjord, primeiro da nossa lista,  ainda levará o seu tempo. Até lá, os olhos deleitar-se-ão com os elementos verdes dos pinheiros e abetos- a árvore nacional -  e mais tarde com as primeiras pinceladas do branco, da neve que persiste lá no alto.



a árvore nacional

Cruzar-se-á  o Vale de Gudbrandsdalen, fonte de inspiração para Henrik Ibsen,  com a sua lenda de Peer Gynt,  o jovem sonhador,  que quis ir mais longe do que as regras exigiam, e  musicado por Edvard Grieg, filho da terra também muito presente nesta viagem.

 


Em Lom, a primeira paragem para apreciar a música da água  que cai violentamente das altas montanhas,  e para se conhecer uma das igrejas mais antigas do país, a Lonestave, com a sua construção em madeira,  mantendo ainda a crista medieval com uma cabeça de  dragão.



cascata em Lom



 Lonestave

 



De Lom a Geiranger, segue-se pela  Estrada das Águias,  uma “estrada para se ir sentindo”, vendo  as primeiras pinceladas de neve e os telhados de turfa; as autocaravanas sempre omnipresentes e os parques para as mesmas; os caminhos sinuosos até ao vale.



camping







Geiranger assenta no vale , cercada de montanhas e é porta de entrada para o Fiorde com o mesmo nome.  A povoação vale uma breve visita e foi cenário do filme “A onda” , ficção baseada em factos reais que viríamos a conhecer dali a poucas horas no vale onde se situa a povoação de Loen.



Geiranger vista do alto




Troll, mais uma lenda ex-libris





Para chegarmos até lá, há que entrar na boca do ferry que nos levará a percorrer o Geirangerfjord , classificado como património da humanidade pela UNESCO.


Deslizamos suavemente , cercados de montanhas com paredes que parecem caras e até com cascatas que contam histórias como “as sete irmãs”,  aquelas que se recusaram a casar e foram cortejadas pelo monte em frente, o qual, com o desgosto  de se ver incorrespondido,  afogou as suas magoas no álcool e ali reside condenado a chorar em forma de garrafa contemplando as Sete altaneiras irmãs.



Geiranger fica para trás





As sete irmãs



O apaixonado


Ali, dentro do fiorde, a força da natureza é tão sublime que quase se sente respirar e questionamo-nos como é possível o homem ter tentado ali habitar, se não sabia de antemão que é Ela sempre que nos controla?!

( na barriga do fiord)

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Noruega, “Caminho para o Norte” I. 2022

 



“Caminho para o Norte”: um sonho adiado e realizado, em primeira instância seria realizado sobre as rodas da casinha, se tivéssemos muitos meses de férias, se a reforma fosse para breve, “se” e inúmeras condicionais; assim, acabou por se realizar num voo de apenas 8 horas ida e volta, “by plane, by bus” e por outros variados meios de locomoção, exceto autocaravana.



Apesar de não termos realizado o sonho, fomos vendo como outros o concretizavam. A Noruega é a rainha do autocaravanismo!

O percurso teve a forma de um olho, mais votado ao sul – este – oeste do que propriamente ao norte do território norueguês e contemplou a duração de sete dias.

Começou em Oslo aeroporto ( a extremidade do olho), para logo se percorrer a E6 - com 3.200 km de extensão e a módica quantia de 1.100 túneis, que leva ao norte  - com paragem em Lillehammer; no segundo dia, Lom- Pollfoss- Gheiranger e Loen; no 3º dia, glaciar de Briksdal, Shey, Flam (comboio até Myrdal) e vale de Stalheim; 4º dia, navegação pelo Fiorde dos Sonhos, Voss e Bergen ( a outra extremidade do olho) ; 5º dia Bergen, Hardangerfjord, cascata de Voring e Geilo; 6º e 7º dias – Oslo.

Liilehammer foi o primeiro contacto com terras escandinavas bem distantes e diferentes daquelas que a nossa visão e palato costumam contemplar e degustar. Foi apenas uma pequena introdução ao território dos imensos lagos e fiordes, às florestas de abetos e cultivos de maçãs, para chegar a uma pequena (Lille)  povoação, vizinha do lado Mjosa,  palco dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1994. 



O facho olímpico



 Pista de saltos

E foi pela pista de sky que iniciámos o périplo, imaginando o que seria um inverno de manto branco a cobrir montanhas e gente que desliza em vez de caminhar. A pequena cidade, outrora cidade mercantil de fábricas e cervejarias – aprendemos logo que a venda de álcool é proibida em supermercados, o referido comércio é realizado em lojas para o efeito, o chamado monopólio do vinho, casas  controladas pelo Estado -  é atualmente um centro  de desportos de inverno e de verão.


Antiga fábrica


Loja de vinhos






Rua comercial





Também ali tomámos imediatamente contacto com a 1ª estória da tradição norueguesa, para além das muitas lendas da mitologia escandinava, umas à roda de Trolls, outras inspiradas em guerreiros Vikings.

A de Lillehammer remonta aos séculos XII- XIII, e relaciona-se com a luta pelo pretendente à coroa norueguesa entre duas fações inimigas, uma delas, os Birkebein, defensores do herdeiro. Foi este bando que salvou o futuro rei , Haakon IV, fugindo com ele ao longo de um percurso perigoso de florestas  e montanhas,  de 52 km, no meio de uma tempestade de neve.




A tradição é ainda honrada com várias corridas, a “Birkebainer Run”, uma delas com uma mochila ao colo de 3,5 quilos, ao longo dos famosos 52 km.




Outras estórias e mitos nos foram acompanhando, os dias vindouros abordariam sempre o famoso Peer Gynt…e os famosos Trolls.